sábado, 8 de agosto de 2009

Olá amigos e colegas estou retomando meu trabalho por aqui

Eu sei que faz um tempo que não apareço e não escrevo nada, mas tenho uma boa explicação pra isso.
Nos últimos três meses, trabalhei na nova temporada do Programa Mistura Fina, mas com o passar dos dias o trabalho foi começando a ficar cada vez menos prazeroso, não pelos colegas, mas pelos percalços de uma produção.
As pessoas que olham o programa não tem a menor idéia do que é relamente fazer um show como o Mistura.
Fizemos nossa parte, até onde foi possível, outros projetos me chamam e encantam tanto quanto o Mistura, mas eu nunca dei sequencia.
Agora está na hora de enterrar fantasmas do passado e começar um novo e diferente método de fazer televisão, hehehehehehe, brincadeira, não existe um novo método de fazer TV. O que eu quero dizer com isso é que o mais difícil é não saber parar.


O trabalho que vem por ai é um antigo sonho meu, um programa de auditório, com bandas ao vivo e muitas brincadeiras, a reestréia do programa Dominguera, que esteve no ar durante o curto período de um mês e meio, deixou saudade na galera que trabalhava mais no que na galera que assistia, hehehehehehehehe...
Normal, foi muito bacana essa época da vida, sempre gostei de Chacrinha, Bolinha, Faustão, esses caras foram o ponto de largada para o projeto que está para retornar nos próximos meses, tão importante quanto os outros, é revitalizante para a música aqui do sul do Brasil.
programas de auditório são raros por N motivos, mas a batalha para se levar musica de qualidade ao telespectador tem que continuar, não aceitaremos jabá... hum, vamos conversar sobre isso, hehehehehehehe
Programa Dominguera voltará mais rapido do que saiu do ar e assim vocês poderam sorrir ao ver esse rostinho lindo da mamãe no ar novamente, nunca esquecendo do Dj Bandeira, da Barata e da Abelha.

Então é isso, gostaria de agradecer a todos que sempre estiveram comigo durante todos esse anos, obrigado de coração por todo o apoio.

Beijo Grande.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Eu Quero Ser Palhaço

Sempre que me lembro de algum fato que de alguma maneira possa ter marcado minha infância, gosto de contar, terapia é muito caro.
Por aqui sou analizado por quem realemnte entende do assunto, tão bem quanto os caras da área.
Disse um dia um menino que se criou no suburbio, com muito esforço, muita raça e dedicação."É duro, mas é queijo" enquanto lambia uma barra de sabão.





Esses dias eu estava lembrando como vim parar na televisão, porque lembro muito bem quando eu decidi ser artista ou fazer parte desse mundo.
Eu tinha seis anos de idade, morava em Viamão, lugar que passei minha infância e diga se de passagem não poderia ter passado uma infância melhor.
Minha família não tinha dinheiro, mas nem por isso meu padrasto deixou que faltasse algo na mesa.
Passava meus dias entre escola e o pátio da minha casa, brincava quase sempre sozinho, não tinha muitos amigos, eles nunca entendiam o que eu estava falando, como se eu falasse outra língua, desde pequeno sempre fui muito arriado, folgado, debochado, astuto, de raciocínio extremamente veloz, quando me diziam alguma coisa, sempre tentava ver por outros ângulos, de maneira engraçada. Então fazia piada de tudo.
Um dia voltando da aula, parei pra brincar com um dos poucos amigos que tinha o João.
João era um menino legal, morava perto da faixa de Viamão, considerado gente fina, quem tinha grana morava perto da faixa, morava numa casa simples, mas grande, ainda não acabada, por isso tinha um pátio cheio de brinquedos para crianças, como areia, argamassa, tijolos e restos de madeiras da obra.
Naquele dia resolvi brincar uma pouco antes de almoçar, brincamos de carrinho e no meio da brincadeira o João me disse:

- o Toninho, o que tu vai ser quando crescer?

Eu não tinha a menor idéia que um dia eu iria crescer, por isso respondi a sua pergunta com outra, ou melhor, a mesma pergunta.

- o que tu vai ser quando crescer João?

Sem titubear ele me disse:

- eu vou ser bombeiro.

Normal quase todas as crianças que eu conhecia queriam ser bombeiro, acho que tinha alguma coisa ligada à sirene, meu irmão mesmo andava pela casa fazendo barulho de sirene.
Mas por alguns segundos pensei no que eu seria quando ficasse grande e no meio do nada disse:

- eu vou ser palhaço.

Não deveria ter feito aquilo, no outro dia o João falou pra todos os nossos colegas que eu queria ser palhaço, o deboche foi geral, eu era o palhaço da turma, vivia no S.O. E, quase todos os dias eu falava com a professora Norma responsável por resolver problemas dos alunos mais bagunceiros e nesta lista eu era o primeiro.
Nunca tive apoio da minha família, ser palhaço soava como uma coisa pejorativa, algo sem futuro, afinal circos já eram uma raridade naquela época, sem apoio da família e sendo piadas na escola, nunca mais toquei no assunto e toda vez que era perguntado sobre esse assunto desconversava, assim se passaram alguns anos.

Com quinze anos de idade, já morando em Canoas, fui perguntado novamente sobre o assunto, desta vez não pensei pra responder e disse, palhaço, mais uma vez virei piada do bairro, mas desta vez tive apoio de outras pessoas que me achavam engraçado.
Teve um cara, que claro eu não vou lembrar o nome, que me disse assim:

- Porra padeiro é isso ai cara, tu devia trabalhar em televisão, qual é o palhaço que tu mais gosta?

- o Didi – respondi.

Esse amigo ficou todo feliz me disse que adorava o Didi, que o sonho dele também era fazer trapalhadas e que se eu realmente quisesse ser um palhaço eu estava no fazendo a coisa certa.

Alguns meses depois apareceu um circo na minha vila e eu não pensei duas vezes pra pedir emprego, trabalhei alimentando um leão velho, que terminou morrendo, ah me deixa contar como o leão morreu.

Na vila todo mundo era muito macho, todos andavam armados, mas por outro lado adoravam uma cachaça, arma e cachaça combinação perfeita pra se matar um leão, pois bem, um dos bebuns armados da vila, um dia tomou um porre porque descobriu que sua mulher estava lhe traindo com uma cara do circo, esse infeliz foi no bar do Tio Casca e tomou até o diabinho da garrafa, pegou a arma e foi no circo.
Quando chegou lá, começou a berrar no lado da lona:

- quero saber que é o filho da puta que ta indo na minha casa, se tu não tem coragem de vir aqui, eu vou entrar nessa porra e passar fogo em todo mundo.

Ninguém se manifestou, mas os gritos do bebum acordaram o leão que deu um rosnado, o bebum ouviu.

- o que tu ta falando que eu não to entendendo seu puto vem aqui pra fora, que eu quero ver tua cara.

Nesse momento o leão fez deu mais um berro e o bebum não aceitou.

- tu ta achando que eu tenho medo de berro seu filho da puta eu vou entra ai te matar seu peste.

O bêbado sacou da arma e foi entrando de baixo da lona do circo, como tava tudo escuro o bêbado começou a falar

- aparece ai o viado, tu não é macho pra cume minha mulher, quero ver se tu é homem de falar comigo.

O bebum entrou aos berros e acendeu o isqueiro, quando apareceu a luz o leão se assustou e deu um rugido e o bebum não pensou duas vezes e descarregou a arma em cima do bicho e saiu correndo.
Assim morreu o leão.

Na mesma noite tava o bebum no bar do Tio Casca arrotando grandeza

- ai o, fui naquela porra de circo e acabei com aquele diabo que gosta de pegar mulher de trabalhador, sujeitinho insolente, quando viu que ia morrer começou a berrar e se escondeu atrás de um tapete.


Ele foi preso no outro dia, e a mulher fugiu com o circo.

Mas foi nesse circo meu primeiro contato com a arte, depois disso os anos se passaram e eu terminei montando uma banda...

Mas um dia eu termino essa história, por hoje acho que ta bom demais e por fim meu jeito arriado e perspicaz me trouxe até aqui e tenho certeza que ainda vai me levar muito longe e com certeza eu me tornei o palhaço que sempre sonhei.
Já contei quando eu queria ser igual ao Michael Jackson?

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Um dia só

video


Esse é o primeiro de uma série de curtas para a reflexão humana, numa análise mais sistemática dos relacionamentos urbanos nos dias de hoje. Todos os episódios são meras obras de ficção. Mas seus personagens e suas neuroses são a mais pura realidade...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Praia, chuva e carnaval

Olá,
Como eu andei assustando alguns amigos pelo teor das minhas palavras, resolvi escrever algumas lembranças mais amenas. Não posso deixar que a tristeza ocupe de vez o espaço deste blog.

O fato é que nos últimos dias eu, realmente, andei meio pesado. Não estou me referindo ao meu peso e sim aos meus sentimentos. Não que eu esteja mal, ou que minha vida ande de pernas pro ar, pois de pernas pro ar sempre esteve. Mas a verdade é que eu não lembrava de nada engraçado para escrever, isso até eu acordar cedo na manhã de carnaval, acho que é a segunda vez que eu faço isso, acordar cedo numa manhã de carnaval. Doido isso.
Bom, vamos voltar no tempo. O ano era 1993. Eu nunca fui convidado por amigos para passar o carnaval na praia, não que não tivesse amigos (tinha, e muitos), mas amigos com casa na praia, nenhum.
Meu irmão tinha mais sorte neste quesito, tinha alguns amigos que os tios tinham casa na praia. Pois bem, naquele ano ele foi convidado. O convite surgiu na minha frente, o que me deixou meio convidado também, afinal de contas, nos éramos da mesma família. Isso na minha cabeça funcionava muito bem, já na dele, nem tanto.
Mas não mudei minha opinião, mesmo contra o gosto do meu irmão, arrumei minhas coisas e me fui pra praia de Mariluz com ele.

Quando a gente chegou na praia tive a visão do inferno. Mulheres com mais de cem anos, correndo de maiô na rua indo em direção à praia. Milhares de ônibus lotados de excursionistas de verão, também conhecidos como “farofeiros”.
A beira da praia era verde e amarela, lembrava bem a bandeira do nosso país: verde de cascas de melancia e amarela de restos de sabugo de milho. Muita gente bronzeada, muitos vendedores, muitas bundas ao sol - algumas lembravam um queijo suíço pela quantidade de furos, outras lembravam qualquer coisa menos uma bunda.

Todos os modelos de biquínis eram de época, em nenhum momento eu vi alguma coisa nova, a não ser uma senhora que não tinha biquíni e se enrolou numa toalha xadrez de piquenique. Fora isso, a praia era um pedacinho da minha cidade, olha como tinha gente de Canoas lá, credo...

A casa era bacana, todos os convidados com um quarto e os não-convidados podiam disputar os melhores lugares da garagem. Acomodei-me entre a Brasília e o Chevette e rezei muito para que ninguém voltasse bêbado pra casa de carro. O que seria quase um milagre, afinal de contas, praia é praia...

A primeira noite de carnaval eu assisti em casa com o pessoal que não saiu, meu irmão foi pra balada com os amigos dele e eu fiquei com os tios que eram donos da casa. Minha esperança com essa estratégia era arrumar um lugar seguro para dormir, mas na primeira noite nem mesmo o fato de começar a chover sensibilizou os tios do amigo do meu irmão.

Na manhã seguinte eu acordei com os berros de “pára, pára, pára, tem gente dormindo aqui!!!” Eu abri os olhos e tinha um cano de descarga quase dentro da minha boca. Meu irmão me chamou para tomar café. Eu levantei e entrei na cozinha. Com uma visão super-avançada consegui, com um olho contar quantas pessoas tinha na casa, e com o outro olho, contei quantos pães tinha na mesa. Conclusão: faltava um. O meu.
Tudo bem, eu pensei, eu nunca tomo café mesmo, escovei os dentes e fui pra praia. Deitei na areia depois de uma leve limpeza para a retirada de milhares de bitucas de cigarro, latas de cerveja e garrafas long neck, além de pedaços de algumas coisas que eu não descobri o que eram.

Depois de duas horas num sol pra lá de quente, não resisti e entrei no Nescau de Mariluz, também conhecido no resto do país como mar. Ao meio-dia meu irmão apareceu e me convidou para almoçar com ele num bar. Eu avisei que não tinha dinheiro e ele sorriu e respondeu: “grande novidade”.

Ele me levou num buteco que servia buffet, sentou no lado de dentro e me disse pra sentar no lado de fora, numa mesa perto da janela. Meu irmão comeu e se serviu de novo, mas a segunda vez era pra mim, então ele passava o prato pela janela junto com o resto de refri dele. Eu não tinha do que reclamar, eu estava fazendo uma refeição digna, eu acho.

Quando voltamos pra casa do tio do amigo dele, algumas pessoas já tinham ido embora, provavelmente pra uma praia melhor, o que liberou um quarto. Aí comecei a achar que as coisas estavam melhorando pra mim, mas foi uma mera ilusão.

Naquela noite eu fui com meu irmão e os amigos dele para um baile de carnaval no salão do Funil, festa clássica dos moradores, num salão minúsculo, que dá a impressão de lotado quando se esta bêbado, mas cabe no máximo trinta pessoas.

Estávamos na frente do bar quando chegaram duas amigas de praia do amigo do meu irmão. Elas estavam cheias de energia, última noite de praia, queriam festa. Eu e meu irmão tínhamos tomado duas caipirinhas e estávamos bem alegres. Mulheres e bebida, estava tudo perfeito... Aí apareceu um amigo meu e disse:
- Padeirooooooo, caralho mano tu tá aqui!!!!!!!!!
- E aí meu?! – respondi.
- Eu tenho o massa aqui ‘vamu fumá’?

Eu tinha entrado numas de não fumar mais, todo mundo na minha casa era contra, até meu irmão, e fazia algum tempo que eu não fumava, mas como estava na praia e meu irmão estava bêbado achei que não me causaria nenhum problema...
- Claro – respondi eufórico.

Nós entramos numa obra, eu, meu amigo, meu irmão e as duas meninas, fumamos e rimos muito, nem percebemos que estava chovendo forte. Eu, por mim, já ficava ali mesmo, mas o pessoal queria entrar no baile. Bom, fomos até a frente do baile que ficava no outro lado rua, só que com a chuva forte a rua ficou totalmente alagada e eu percebi que algumas pessoas estavam passando por cima dos carros e achei massa. Então disse pro meu irmão:
- Vamos passar por cima também.

Ele não concordou e dobrou as pernas da calça, tirou o tênis e com o resto do pessoal passou por dentro d’água. Eu pensei melhor e decidi ir por cima, afinal de contas eu estava com uma das meias furada e não queria que as meninas rissem de mim.
Eles pararam na frente do baile e ficaram olhando enquanto eu atravessava. Eu tive sorte no primeiro carro: passei e olhei pro meu irmão. Quando dei a segunda passada, senti o capô liso e mergulhei... Aquilo levou horas (na minha cabeça) e eu só ficava pensando: “Quando eu levantar, vai estar todo mundo rindo muito da minha cara, será que não é melhor eu ficar embaixo d’água e ir nadando até o rio mais próximo e voltar pra casa?”

Quando eu levantei, todo molhado, estavam todos como eu tinha imaginado. Rindo.
Atravessei a rua, parei perto do meu irmão, e foi quando ele me disse:
- Meu, tem que pagar pra entrar, fica aqui que eu vou entrar e arrumar grana pra ti, tá bom...

O que eu poderia dizer, ‘não, eu quero entrar e agora’ ou ‘não, entra arruma dinheiro pra entrada e pra comprar uma roupa seca pra mim...’

Só que o fato de estar molhado e chapado não estava me ajudando tanto quanto eu queria. Não demorou muito para minha pressão baixar e eu começar a ter calafrios violentos. Além disso, fazia muito tempo que eu não fumava, então a viagem vinha em dobro, parecia que todos estavam me olhando. Na real todos estavam me olhando, pena eu não poder sair do meu corpo pra me ver de fora e rir também.

Depois de muitas horas, não sei bem quantas, meu irmão voltou e me pegou pelo braço. Quando eu entrei no salão estava quente, a chuva tinha parado e o calor me deu uma esperança de vida, mas como eu estava molhado e chapado comecei a procurar um lugar para me aconchegar. O lugar escolhido foi embaixo das caixas de som. Eu pensava que depois de algum tempo eu iria melhorar e entraria naquela brincadeira massa que estavam todos fazendo, uma espécie de trenzinho da alegria. Eu só lembro do meu irmão passando e rindo, sempre agarrado em uma mulher diferente.

Eu bem que queria estar ali, mas meu corpo não obedecia mais, se recusava a sair daquele cantinho quente e seco. Então apaguei. Quanto acordei já tinha passado das oito da manhã, meu irmão estava de beijo com uma das meninas que tinha fumado com a gente, o meu amigo estava com a outra menina, eu estava com dor no corpo e bafo de cachaça, e com algumas partes do corpo ainda molhadas. Meu irmão me disse depois que eu até me mijei nas calças, mas como era quentinho, não dei bola.

Estavam correndo todo mundo do salão, meu irmão e o meu amigo saíram com as gurias primeiro, logo atrás vinha eu todo “fiodaputa”. Não conhecia bem o lugar que a gente estava, mas lembro que o tio do amigo do meu irmão deu uma carona pra gente ir pro baile, logo, a casa não era tão perto assim. Meu irmão se despediu das meninas que foram com meu amigo para outro lado, meu irmão então me disse:
- Cara temos que pegar o ônibus.
Eu meio dormindo respondi:
- Meu, não tenho nada de dinheiro.
Nesse momento o ônibus parou na minha frente, as portas se abriram e meu irmão entrou.
- Não esquenta fica uns oito quilômetros pra frente, não tem como errar, fui.

Foi quanto eu descobri que estava em Santa Terezinha. Andei tanto que não sentia mais minhas pernas. Um cheiro de mijo insuportável, não tinha coragem de pedir carona. Segui andando quando, finalmente, cheguei e a casa estava fechada. Pensei o que mais poderia dar errado??
Não tive como conter o choro, prometi que nunca mais iria beber, nem fumar, nem fazer qualquer coisa errada na vida.

De repente a janela se abre, era meu irmão, feliz que só ele, os tios tinham ido embora a casa estava vazia, só eu, meu irmão e o amigo dele e muita comida.

Entrei tomei um banho, comi e dormi como um rei. Quando a noite chegou, olhei pros dois e falei:
- Vamos fazer uma farra?
Meu irmão me respondeu:
- Mas e as promessas de hoje de manhã?
Olhei pra ele e respondi com um sorriso enorme:
- A lei só entra em vigor a partir do próximo carnaval.

Riso geral.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Um dia só

Um dia a gente acorda e se dá conta que estamos sós, tudo fica em preto e branco por um momento.
Nossa casa é a nossa prisão, o dia vai passando, mas a vontade de sair se resume em ficar em casa e se conhecer melhor.
Abrir os olhos e escovar os dentes é fundamental pra se começar um dia, olhar pra rua pra ver o que se passa. Sentar no vaso e ler uma revista se perde muito tempo fazendo isso, mas será que vale a pena, sei lá, mas não paro de ler, dizem que ficar sentado no vaso sem fazer nada causa hemorróidas... Hum, será que é por isso... Deixa pra lá melhor levantar.
Caminhar até a cozinha é uma tarefa fácil, difícil é fazer café pra uma pessoa, café é estimulante, mas quando se esta só, só estimula o pensamento, o que é bom, o ruim é não ter com que dividir o pensamento.
Depois do café é melhor lavar a louça, pois a única companhia que eu não quero é a das baratas, elas são muitos resistentes, dizem que resistem a uma bomba nuclear, será não passaram no teste do chinelo, o que me leva a acreditar que um chinelo é melhor que uma bomba nuclear, entre mortas e feridas arrumo outra coisa pra fazer, tudo é mais difícil quando se está só, a falta de comentários, as críticas, a voz, isso faz falta.
De volta a estaca zero, olho pela janela enquanto escuto uma música do tempo que eu dançava, às vezes a falta da dança num relacionamento faz a gente dançar...
É bom dançar, mesmo quando não se sabe a letra, grande coisa não saber a letra, não tem ninguém pra me corrigir, que pena, vou dançar pra não ficar triste.
Chegou a hora do almoço, acho melhor não comer, vou ficar só olhando, não estou me sentindo bem, meu corpo se passou minha mente também.
Olho mais um pouco pela janela, se estivesse chovendo seria mais romântico, sento no escritório e escrevo alguns pensamentos, mas é difícil escrever quando não se tem nada pra contar, vou tomar um banho pra ver se alivia a tensão, um banho é aquilo, lava pé, lava mão, lavar a bunda e as paletas. saio do banho e me arrumo, não sei pra quê, poderia ficar pelado, ninguém iria notar, estou só.
Hum... a noite começa a cair está chegando a hora de voltar pra cama, não queria mas o que eu vou fazer, ninguém ligou ou mesmo deixou um email, vou tomar mais café, melhor não, vou ver um filme, mas que não seja romance, nem aventura, muito menos drama, comédia seria o ideal, mais duas horas se passaram e nada aconteceu, não ri, nem chorei, ser só tem dessas, as vezes é melhor estar só do que mal acompanhado.


Fim.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Pensamentos que posso dividir




Os olhares das pessoas dentro de um pronto socorro são todos com a mesma agonia e sensibilidade de quem realmente não sabe o que fazer, como se todo o poder que julgamos ter de fato não existisse.
Eu nunca tive essa onda de poder, mas já tive meus péssimos momentos relacionados ao poder. Mesmo sendo nada a gente precisa acreditar que tem algum poder para continuar vivendo, até o dia que tu conhece o fardo que é a realidade humana e começa a conviver com a sensível existência do ser humano, Hoje, com certeza, foi um dos piores dias da minha vida, dia que eu não gostaria que nem meus inimigos passassem.
Foi um sábado normal, dia de sol, quente, mas com uma brisa, às nuvens às vezes tomavam conta do céu, fazendo assim que o dia se tornasse agradável, peguei minha bicicleta, coloquei a cadeirinha e convidei meus dois filhos menores para dar uma volta no Parcão, meu filho menor adora o Parcão.
Realmente é um lugar bonito, com brinquedos legais, meu filho do meio, só pensava no caminho até o parque, pois não sabe andar muito bem de bicicleta.
Nossa ida foi perfeita, brincamos, corremos, rimos até a hora de ir embora...
Para despistar meu filho menor, disse a ele que iríamos até o lago para ver os patos, já estava tarde e ele estava cansado, mas as crianças nunca querem ir embora, ainda mais de um parque. Quando estávamos saindo meu nenê deu um berro, com o susto travei a bicicleta, foi nesse exato momento que lembrei como somos frágeis, ele tinha prendido o pé na roda da bicicleta, quando vi aquilo, não vou negar, me deu um apagão, me lembro de ver o pé dele preso entre os raios da bicicleta, me lembro de afastar os raios, de olhar pro lado e não ver meu filho do meio lembro que tive vontade de chorar, mas não poderia perder mais tempo comigo, precisava cuidar do meu nenê, pra minha sorte, tinha um anjo da guarda que me ajudou, levando a minha bicicleta até minha casa enquanto deixei meu filho do meio com meu celular e fui para o pronto socorro.
Conversei muito com meu nenê durante o caminho, lembro também que a distancia era grande, do parcão até o pronto socorro, meus braços estavam amortecidos meus olhos parecia que eu tinha passado por uma tempestade de área, o som de dor que meu nenê sentia eu sentia também, mas não poderia simplesmente parar, tinha que acabar com aquela dor. Naquele momento foi uma das poucas vezes que falei com Deus, não rezei, não queria rezar, queria saber o que meu nenê tinha feito para passar por aquilo, queria uma prova de que uma criança merece sentir aquele tipo de dor, pois na minha cabeça, aquilo não era justo, Deus mais uma vez não me respondeu, mas nem isso me fez perder a minha fé.
Durante a minha conversa ou meu monologo... Eu questionei o porquê?
Eu sei que muitos vão dizer que eu deveria pensar nisso em outros momentos, mas são esses momentos que fazem a gente parar pra pensar. Eu sou um bom pai, tenho meus defeitos, como todo mundo que eu conheço, posso ter feito mal pra algumas pessoas, mas nada disso justifica a dor e o sofrimento de um filho, minhas respostas apareceram no decorrer do tempo que passei no pronto socorro segurando meu filho no colo, sempre com a perna pra cima, pois se estivesse quebrada seria a única coisa que eu poderia fazer direito naquele momento.
Um casal furou a fila para o atendimento, eu não quis criar caso, havia um menino no meu lado com um buraco na cabeça, um homem deitado com o rosto esfacelado, um bêbado com um buraco na perna, um motoqueiro todo quebrado, um senhora com quatro costelas quebradas, uma menina que tinha sofrido um acidente voltando da praia, outro menino com a boca toda aberta, tinha decepado a língua, poderia escrever cada um deles, poderia narrar as suas historias, mas naquele momento eu apenas era mais um.
Mais um que precisava de ajuda, mais um que não sabia o que fazer, mais um pai, mãe, filho, filha, um parente, uma pessoa aflita, dever ser mais ou menos assim que um boi deve se sentir na hora do abate, pois todos ali, estavam com medo. Todos nós.
Mas esse sentimento de perda não faz parte da vida daqueles guerreiros que trabalham no pronto socorro, é claro que as pessoas vão brigar, xingar, ameaçar, até bater, isso eu também entendo, mas entendo o lado deles.
Os funcionários de hospitais e qualquer coisa relacionada a saúde devem ser assim mesmo, hoje eu percebi isso, meu filho foi muito bem atendido, demorou? Sim demorou, mas como poderia ser diferente, moramos numa capital, quantas pessoas se machucam por dia? Mas é o nosso sangue, ai não pensamos em nada, só nos nossos familiares. O que também não esta errado.
Hoje não vi ninguém não ser atendido, meu filho não quebrou o pé, foi só um susto, mas foi também uma grande lição.
Senti toda dor do mundo, caminhei com ele no colo, tempo suficiente para luxar meus próprios braços, chorei e esbravejei, mas nunca duvidei da minha fé, mas duvidei da existência de Deus.
Definitivamente ele não pode existir, mas agradeceria se alguém me provasse o contrario, não posso acreditar em tamanha maldade de um Deus contra todas as aquelas crianças, ou contra o povo africano, ou contra os judeus, ou as vitimas de causas naturais como tempestades e tudo mais que a natureza pode produzir, acredito na energia, acredito mesmo, tive prova HOJE desta energia, mas alguns podem dizer que isso é obra de Deus, pois pra mim foi obra da minha fé, tudo o que aconteceu, tudo mesmo até mesmo o acidente, de alguma maneira nos temos esse poder, mas talvez nunca saibamos usa-lo ou realmente ele não exista e tudo que nos acontece está escrito em algum lugar.
Para mim, o dia de hoje entra pra minha historia particular como o dia que a terra parou, mas eu segui em frente.


Vou publicar sem corrigir esse texto, pois ele relata exatamente o meu pensamento.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Detalhes

Quase não tenho recordações do meu pai, geralmente me lembro dele quando estou bêbado, e mesmo assim nada é claro, sempre é varias pessoas diferentes na condição de meu pai, acho que tem a ver com a sensibilidade do álcool.
Minhas memórias sempre estão ligadas a alguma arte que eu fiz ou a alguma surra que minha mãe estava me dando.
Para não dizer que não tenho alguma recordação dele, teve uma vez que ele se encontrou com a minha mãe no centro da cidade.
eu era pequeno estava ansioso para conhecer meu pai, minha mãe falava muito mal dele o tempo todo, ela nunca falou nada de bom do meu pai, até hoje me pergunto: como ela se apaixonou por ele?
Minha mãe dizia que ele era um policial do piores que existia, disse que na ditadura ele pegava os travestis da Avenida Farrapos e os colocava no pau de arara, depois enfiava um ferro quente no rabo deles, que pegava as bijuterias deles e dava pra ela de presente, disse também que quando ele foi expulso da policia foi trabalhar de motorista de ônibus e que matou uma mulher grávida num corredor de ônibus.
Meu Deus, eu tinha cinco anos de idade! O que eu deveria pensar do meu pai? Eu o amava e imaginava que o dia que eu o conhecesse minha vida mudaria, não seria mais rico ou mais bonito, não, pensava que teria uma família como meus amigos, mas não foi bem assim que aconteceu.
Se eu não gosto de uma pessoa eu quase nunca falo dela, minha mãe não, sempre falava do meu pai, quase todos os dias.
Naquela manhã de inverno, minha mãe me acordou mais cedo que o normal, devia ser umas sete da manhã. Levantei, escovei os dentes, coloquei a roupa que ela escolheu, tomei café e a gente foi para a parada de ônibus.
Durante a viagem eu só pensava em como seria o encontro, será que ele ia me dizer alguma coisa, será que ele ia me levar um chocolate, minha mãe sempre comprava um chocolate quando voltava do trabalho, eu descobri anos mais tarde que minha mãe vinha a pé do centro pra poder comprar esse chocolate pra mim, meu deus eu estava prestes a encontrar meu pai. Eu imaginava que ele deveria ser parecido comigo, minha mãe sempre me disse que eu era a cara dele, ele devia ser bem bonito, eu pensava.
Depois de muito tempo no ônibus a gente desceu no fim da linha e foi em direção ao mercado publico, passamos pelo mercado e chegamos ao antigo INPS, quase na entrada do prédio tinha uma banca de revistas e no lado da banca escorado estava um homem, minha mãe se aproximou dele e os dois começaram a conversar.
Eu já era velho, tinha cinco anos, quando fui encontrar meu pai a primeira vez. Nunca fui do tipo de ficar me mostrando triste para os outros, sou assim desde criança, sabia que aquele cara era meu pai pelo jeito que minha mãe falava com ele, pareciam inimigos de longa data.
Eu fiquei tão chocado com a possibilidade de falar com meu pai que me travei, meu pescoço ficou duro e não tinha Cristo que me fizesse olhar pra cima, agarrado na perna da minha mãe e ouvindo a discussão, só ficava esperando que ele me dissesse alguma coisa, mas ele só falava com ela.
Depois de alguns minutos minha mãe me chamou olhou nos meus olhos com aquele rosto lindo dela e me disse que aquele 'cara' que estava na minha frente era meu pai.
Ele me perguntou como eu estava, se estava bem, respondi que sim só com a cabeça, ele não disse mais nada, minha mãe voltou a discutir com ele, falavam de muitas coisas que eu não tinha a menor idéia, sobre outra família, pensão, irmão, voltar, o assunto nunca era eu, então ficava quieto, minha mãe começou a falar com a voz tremula, e meu pai começou a se afastar, continuei agarrado na perna dela, eu sentia o medo que ela sentia.
Antes de o meu pai ir embora ele me falou mais umas palavras que me marcaram muito, ele disse: quando eu quisesse era só procura-lo que ele estaria de portas abertas me esperando, era aquilo que eu queria meu pai de portas abertas me esperando. Esse era meu sonho, brincar com meus irmãos, conhecer meu avô e minha avó, já que pela parte da minha mãe meus avós já tinham morrido brincar com ele nos parques, pedir ajuda toda vez que uma criança maior tentasse bater em mim, não ser chamado de filho de mãe solteira, isso hoje é comum, mas no final dos anos setenta não, meu sonho realmente estava pra acontecer.
Só não aconteceu por umas das coisas que eu mais adoro e observo, nos outros hoje, o detalhe.
Meu pai nunca me deu um endereço para procurá-lo.
Enfim, voltei pra casa com minha mãe e hoje penso que foi melhor assim, se eu tivesse aquele pai, talvez eu não fosse o pai que sou hoje, mas a parte mais importante é que eu digo sempre para meus filhos o que meu pai nunca me disse, eu amo vocês.