Lembro de estar discutindo com ela quando saí, lembro que era noite, lembro que estava frio. Um vento cortava meus lábios e por pouco não congelava a minúscula lágrima que discretamente escorria no canto do meu olho esquerdo, tentava esconder minha tristeza aos olhos de quem passava levando a mão à frente do rosto, mas um soluço me entregava a quem quisesse ouvir. Esqueci meus óculos e por isso tateava com a mão direita a parede dos prédios, me guiava nos vultos que vinham em minha direção, não via rostos, via manchas. Algumas claras outras mais escuras, manchas menores que as minhas, porque simplesmente eu não me via. Sentei no meio fio, uma mancha se aproximou, uma outra mancha menor apareceu na altura do seu rosto, não posso afirmar que era um sorriso, parecia mais um olhar, não me disse nada, esticou uma mancha com uma ponta acesa na minha direção, aceitei o cigarro. A mancha foi escurecendo e se perdeu pela noite mal iluminada da cidade. Levantei e segui o meu caminho, o som dos carros não ajudava em nada, tentava me concentrar para entender porque eu estava andando na rua, no frio. Parei de novo, olhei para os dois lados da rua, atravessei, sentei num bar e pedi uma cerveja, acendi um cigarro. O garçom me trouxe uma cerveja preta, escorei o braço na mesa e fiquei rolando ele na borda do cinzeiro, uma mosca ficou pairando na minha frente, no início não dei bola. Tomei o primeiro gole de cerveja e a mosca sentou na boca do copo. Tentei fingir que aquilo não havia me afetado, afinal de contas eu já estava arrasado, tinha acabado de levar um pé na bunda depois de doze anos. Ela sempre reclamando que eu não a ouvia, que eu nunca prestava atenção e ... ah, essa maldita mosca! Bati na mesa. Garçom? Por que eu tive que sair de casa? Eu aluguei aquele lugar. Que vergonha, doze anos jogados no lixo. Estaria mentindo se dissesse que lembrava do dia que a gente se conheceu, sinceramente não lembro, Rosana pra mim é como se sempre estivesse ali, entende? Não lembro do nosso primeiro beijo, mas também não lembro de ter beijado boca mais gostosa, seus lábios finos predispõe a luxúria, gosto do gosto que ela exala... O garçom se aproximou. O senhor quer alguma coisa? A mancha do garçom é cinza, neutra, como se não estivesse nem aí pra mim ou mesmo pros meus sentimentos. Mais uma cerveja e mais um copo, por favor. Sim senhor é pra já. O garçom se afasta e junto com ele a maldita mosca que sentava bem feliz na boca do meu copo. A música do lugar era muito boa, pena a rádio estar mal sintonizada.
Rosana sempre foi uma mulher, não sei nem como defini-la, uma mulher blindada. É, uma mulher blindada, nunca consegui entrar nela, entende? Rosana era uma tartaruga, uma mulher que realmente sabia se proteger, sempre me teve ao seu controle, minha submissão era criativa, eu mentia que era arrogante pra que ela me atacasse porque me dava um tesão! Mas o tesão virou tensão e as motivações sexuais passaram para outros corpos, não sei porque ela terminou comigo, eu não fiz nada. Como pode? O garçom se aproximou com a cerveja. Sua cerveja! Mas eu pedi preta. Não, o senhor pediu uma cerveja. Tudo bem, levanta a garrafa que está dentro desse isopor. O garçom obedece. Tá vendo essa cerveja, ela te parece cerveja clara? Não senhor. Ok garoto, senta aí um segundo. Senhor eu tenho que... Senta aí garoto! O garçom sentou timidamente. Me responde uma coisa, já ouviu falar no nome Rosana? O garoto assustado engoliu a saliva. O senhor tá falando da cantora? Não. O meu “não”, traduzia realmente o que eu estava sentindo, porque não era aquela Rosana que eu conhecia também, na verdade eu nem sabia quem era a Rosana. Me diz uma coisa garoto, quantos anos tu tem? Dezesseis. Já amou? Não. Quer ouvir uma história de amor? Não. Não gostei da resposta do garoto. Lembra da cerveja errada? Sim senhor! Pois então escuta essa história e esquecemos o seu erro primário, ok? Sim senhor. Relaxei, servi mais um copo de cerveja, acendi mais um cigarro, ofereci para o garoto, ele recusou, depois olhou para os dois lados e tomou um gole da minha cerveja, então comecei a lhe contar.
Um dia garoto, eu estava sentado na frente da TV e me deu uma fome inacreditável, saí de casa o mais rápido que pude, não tinha muita grana e já eram cinco da tarde, só tinha um lugar que vendia sonho a vinte e cinco centavos, a Casa da Nona. Cheguei lá, estava quase fechando, tinha uma menina, linda, que também entrou. Corremos até o balcão e ao mesmo tempo gritamos: “quero um sonho de mumu”! Olhamos a senhora que atendia e nos olhamos, a boa senhora sorriu e nos disse: alguém não terá um sonho essa noite! Meus olhos estavam fixados nos daquela menina, lembro de sorrir, lembro de pensar que por um segundo na vida eu estava tão feliz, então lhe respondi: não me importo de perder esse sonho pois o meu acabou de se realizar. A senhora entregou o sonho à menina, ela sorriu e disse: “o sonho acabou!!”, e saiu correndo da mesma forma que havia entrado. É desse jeito que eu sonho que a Rosana entrou na minha vida, porque eu simplesmente não me lembro. Tu nunca amou ninguém, não é garoto? Não senhor. É garoto, não ame, o amor pode te deixar na rua, sem dinheiro e sem ter onde dormir. O senhor tem onde dormir? Não. O garçom estava simplesmente vidrado, serviu um copo pra ele e acendeu um cigarro. Se precisar de uma grana, eu lhe empresto Senhor. Obrigado garoto, se pagar as cevas já tá bom demais. Mas por favor Senhor, me fale mais da Dona Rosana. Sim, a primeira grande lembrança que eu tenho dela foi da gente sentado numa roda de amigos em uma praia. Eu entrei numa que ela era uma sereia... Lembro do mar, lembro do calor da areia, lembro de estar discutindo com ela por não entender como eu poderia ter um relacionamento sério com uma sereia, e o fedor de peixe em casa? Onde eu iria enfiar uma sereia?
O senhor é um homem apaixonado? Não garoto, sou um homem traumatizado, doze anos se passaram, não faz sentido na cabeça de ninguém, mas nem poderia fazer, mas eu não sei o que sinto. Rosana se perdeu no mundo, voltou no começo do mês passado. Ficou exatos onze anos e onze meses longe daqui e então bate na minha porta. Ela queria terminar o que nunca começamos, ela me amou do jeito dela, esse jeito que nunca é o que a gente quer, mas é o melhor que ela tem para dar. O garçom começou a se perder no assunto. Eu não entendi o que o senhor disse no final. Eu me levantei da cadeira do bar e disse: todos os finais são iguais, legal seria se alguma coisa continuasse.... como uma dança.... um passo pra cá, um passo pra lá...
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sexta-feira, 14 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Quando o asfalto chegar
Quando Leonel chegou à Barra, o vilarejo ainda não pertencia ao exército, apesar de muitos não acreditarem nisso. Seu Leonel comprou, a muito custo, um pedaço de terra na única rua que ligava o vilarejo ao resto do mundo, pelo menos por terra era só esse caminho. Com a chegada de novos moradores, pescadores e milicos, o vilarejo cresceu, não muito, mas o suficiente para que muitos carros e caminhões passassem quase que diariamente na frente da casa de seu Leonel.
A família de seu Jorge chegou pelo rio e por conta do valor baixo do terreno, foi morar no lado da casa de seu Leonel, tornaram-se vizinhos. Seu Leonel era agricultor e seu Jorge pescador. A família de seu Jorge foi crescendo com a chegada dos gêmeos e depois da pequena Nina, já a família de seu Leonel não prosperava tanto, mas também seguia seu rumo natural. As pedras e a poeira que subia todo santo dia na frente das casas, não estava sendo um problema, até o dia em que seu Leonel teve que levar sua mulher ao posto de saúde com falta de ar. Chegando ao posto, a enfermeira foi enfática:
- Acho melhor o senhor levar sua mulher no hospital, não temos recursos suficientes para atendê-la.
Com a ajuda de vizinhos e alguns parentes, seu Leonel conseguiu pagar um enterro descente para sua esposa, que partiu vítima de enfisema pulmonar. Em casa tudo tinha mudado, havia silêncio onde antes havia murmúrio, havia frio onde nunca houve nada, mas a tristeza de seu Leonel era grande. Sua lavoura não andava bem, uma seca massacrava cada sabugo que conseguia respirar mais de uma semana, sua vaca estava magra demais para dar leite, até para o seu café da manhã. A menos de dois metros dali, na casa ao lado, se ouvia a família de seu Jorge comemorando e sorrindo quase que diariamente. Pescador de talento, seu Jorge nunca voltou para casa de mãos abanando, era muito cordial e amigo de todos.
Os demais moradores da vila, não compraram os terrenos, acabaram invadindo as terras cobertas pelo matagal. A vila se organizou, chamaram a companhia de energia elétrica e mandaram fazer a instalação de luz. A prefeitura, muito esperta, arrumou “ligeirinho” a rede de esgotos e de água encanada para poder ganhar sua parte através do imposto. Agora, até caminhão de lixo seletivo passava, mas a poeira maldita, que levou o amor de seu Leonel, ah, essa continuava a deixar as janelas de todas as casas fechadas, tornando um segredo a vida de quem dentro delas habitava.
Seu Leonel, apesar da poeira, gostava de ficar nos finais de tarde tomando chimarrão e vendo a vida passar, pelo menos o que ele conseguia através da poeira. Os anos foram se passando e a cada dia, havia mais movimento no vilarejo. Todos os finais de semana, pessoas de cidades vizinhas vinham usufruir das cachoeiras e lagos da Barra. O rio já era famoso por ter os melhores viveiros de peixes da região, até mesmo seu Leonel pensou em virar pescador, mas a vaquinha engordou e a plantação voltou a crescer e prosperar. Seu Leonel acreditava que sua vida havia melhorado, mas ainda faltava alguma coisa para que ela se tornasse absoluta, uma vida digna de quem acordou por cinqüenta anos na beira de uma estrada de chão que ligava o rio da Barra ao asfalto da auto-estrada. Faltava a dignidade de deixar sua janela aberta durante os dias quentes de verão e nas noites, entre os mosquitos e o luar mais lindo do mundo.
Uma manhã, seu Jorge voltou mais cedo de sua pescaria. Recebeu a ligação de sua esposa lhe informando, aos berros, que sua pequena e única filha mulher, Nina, estava doente. Rapidamente levaram a menina ao hospital mais próximo onde foi diagnosticado o mesmo mal que levara a mulher de seu Leonel. Como a menina estava em estágio recente da doença, foi medicada e depois de alguns dias voltou para casa sã e salva. Na manhã seguinte, com a ajuda de seu Leonel e de outros moradores, houve um protesto diante da prefeitura contra aquela poeira maldita. O prefeito prometeu abrir uma licitação de caráter emergencial para resolver o problema dos moradores.
Seu Leonel, seu Jorge e os demais vizinhos, mediram a rua onde necessitava asfalto e enviaram a metragem ao prefeito, que assinou, na hora, o projeto de construção da via pública do vilarejo. Aquele dia foi marcante, todos faziam planos, havia boatos de que, com a chegada do asfalto, viriam comerciantes e um tal “crescimento absurdo” para aquele vilarejo modesto chamado “Barra”. Seu Leonel estava em êxtase, foi na vendinha de seu Romão e pagou, em leite, uma rodada de cachaça para todos. Seu Jorge brindou junto.
- É Leonel, tu vê como são as coisas, quando tua mulher morreu , “que Deus a tenha”, a gente nem pensava em se organizar para conseguir o que a gente queria. Faltou um pouco de atitude naquela época, mas quando minha filha quase morreu, não faltou uma mão para que essa idéia seguisse adiante.
Leonel lembrou da sua mulher e não conseguiu conter o choro, Jorge e Leonel abraçados choraram a vida e a morte no mesmo gole. Dois dias depois surgiram, ao longe, entre poeira e solidão, caminhões da empreiteira escolhida para a realização do que seria “o maior avanço da civilização”, depois da garrafa térmica para aqueles que adoravam chimarrão e odiavam a poeira. Era para mais de cinco caminhões e máquinas retro escavadeiras, os homens com seus uniformes e capacetes davam ao lugar a idéia de que ali o mundo estava prestes a mudar. O que tantas noites tirou o sono dos moradores, agora estava prestes a se tornar realidade.
Seu Leonel saiu à frente de seu terreno para receber com aplausos, juntos com os outros moradores, as máquinas da nova obra do vilarejo. A segunda maior, pois a primeira tinha sido o muro do cemitério. Esse muro servia não só para determinar onde começava e acabava o mesmo, como evitava que em dias de temporais muito fortes os corpos escorressem pelo morro abaixo e viessem parar na rua onde o asfalto não havia chegado. Mas seu Leonel não gostou quando ouviu a seguinte frase do encarregado da obra:
- Vamos começar lá por baixo, são quinhentos metros de asfalto e de boca de lobo, tenho certeza que assim terminaremos em três dias. Vamos lá pessoal!
Quinhentos metros, o número de alguma maneira deixou seu Leonel desconfortável, mas estava feliz pois via com seus próprios olhos o que o ser humano era capaz de fazer. Ele levava água gelada para os operários e a mulher do seu Jorge levava bolinhos e bolachas, tudo para que eles trabalhassem com amor e bem rápido. Dizem as más línguas que a mulher do seu Jorge adorava ouvir as histórias que os obreiros contavam, enquanto comiam tudo que ela tinha para dar. Ao final de uma semana, os olhares que haviam brilhado como a negra cor do asfalto, que tomava a rua e deixava as casas mais bonitas do que nunca, se transformaram em desconfiança, principalmente de seu Leonel. Ele percebia que a obra ainda não tinha chegado à frente de sua casa e, pior, dava a entender que nunca chegaria. Em um dia quente de sol escaldante, seu Leonel percebeu que algumas máquinas estavam de partida e saiu correndo atrás delas para tirar satisfação do que realmente estava acontecendo.
- Ei, ei, ei!! Voltem aqui, faltou a minha parte! Faltou terminar aqui na frente da minha casa! Voltem, voltem, por favor voltem!
Seu Leonel olhou para trás e viu todos os outros moradores festejando diante de suas residências as maravilhas do asfalto. Ao perceberem a tristeza de seu Leonel, foram condescendentes com ele e começaram a chamar os caminhões, tudo sem sucesso. Na manhã seguinte, seu Jorge e seu Leonel foram à prefeitura para reclamar e se depararam com uma situação no mínimo constrangedora: a medida que eles mesmos haviam mandado para a prefeitura, não incluía a última casa que havia sido construída dias antes, fruto de mais uma invasão. Como os engenheiros mediram de baixo para cima, a casa do seu Leonel estava fora dos quinhentos metros de asfalto, sendo assim, não havia erro por parte da empreiteira e muito menos da prefeitura.
- Veja bem seu Leonel, não sei realmente o que eu poderia fazer para resolver o seu caso, uma nova licitação dependeria de aprovação dos vereadores que nesse exato momento estão resolvendo problemas de outras regiões. Sua demanda voltaria para o final da fila, sendo assim, levaríamos mais ou menos uns dez anos para resolver o seu problema. Mas quero que o senhor saiba que estou aqui para ajudá-lo no que for possível!
- Estou vendo! Mas deve haver alguma coisa que possamos fazer para amenizar esse problema secretário. - respondeu seu Leonel.
- Claro que sim, vou ver isso com meu pessoal e amanhã ligamos para dar um retorno, ok¿ Agora, se me derem licença, tenho outras pessoas para atender. – disse, conduzindo-os até a porta.
Nas semanas seguintes, diariamente, às oito da manhã e às cinco da tarde, passava o caminhão pipa para molhar o pedaço da rua que não tinha asfalto. Ao final da segunda semana isso não aconteceu mais, seu Leonel tentou organizar um grupo que fosse conversar com o prefeito, mas infelizmente a única parte que não tinha asfalto era onde ele morava. Isso desmotivou os moradores que já usufruíam da rua sem poeira.
Seu Leonel se tornou um homem de cara fechada, achou que tinha sido traído. Um dia, bêbado, bateu no rapaz que invadiu o último terreno que tinha na rua, o primeiro a ser asfaltado, causando péssima impressão nos outros moradores que começaram a enxergá-lo como um velho ranzinza. Ele, por sua vez, terminou por acolher o estigma. Hoje, quem vai à prainha da Barra, pega muita poeira pela estrada, são mais de dez quilômetros de estrada de chão e quinhentos metros de asfalto. Logo depois da curva a prefeitura colocou pedras de paralelepípedo, imaginando que estavam fazendo para o lado certo, mas infelizmente erraram o lado novamente. Dessa forma a casa do seu Leonel se tornou referência para os turistas:
“ Para chegar na prainha da barra é simples: segue pela estrada de terra até a casa do véio Leonel, que é a ultima com poeira, depois começa o asfalto.”
O tão esperado “crescimento absurdo”, com comércio e lojas, não chegou, preservando boa parte da história do vilarejo. Seu Jorge, hoje, líder comunitário e guia turístico, segue feliz da vida e volta e meia faz umas festas para celebrar as suas conquistas, sempre convida seu Leonel, mas esse não quer saber de nada. Quando convidado para qualquer coisa, a resposta é sempre a mesma:
- Vai pra puta que te pariu.
Fim.
A família de seu Jorge chegou pelo rio e por conta do valor baixo do terreno, foi morar no lado da casa de seu Leonel, tornaram-se vizinhos. Seu Leonel era agricultor e seu Jorge pescador. A família de seu Jorge foi crescendo com a chegada dos gêmeos e depois da pequena Nina, já a família de seu Leonel não prosperava tanto, mas também seguia seu rumo natural. As pedras e a poeira que subia todo santo dia na frente das casas, não estava sendo um problema, até o dia em que seu Leonel teve que levar sua mulher ao posto de saúde com falta de ar. Chegando ao posto, a enfermeira foi enfática:
- Acho melhor o senhor levar sua mulher no hospital, não temos recursos suficientes para atendê-la.
Com a ajuda de vizinhos e alguns parentes, seu Leonel conseguiu pagar um enterro descente para sua esposa, que partiu vítima de enfisema pulmonar. Em casa tudo tinha mudado, havia silêncio onde antes havia murmúrio, havia frio onde nunca houve nada, mas a tristeza de seu Leonel era grande. Sua lavoura não andava bem, uma seca massacrava cada sabugo que conseguia respirar mais de uma semana, sua vaca estava magra demais para dar leite, até para o seu café da manhã. A menos de dois metros dali, na casa ao lado, se ouvia a família de seu Jorge comemorando e sorrindo quase que diariamente. Pescador de talento, seu Jorge nunca voltou para casa de mãos abanando, era muito cordial e amigo de todos.
Os demais moradores da vila, não compraram os terrenos, acabaram invadindo as terras cobertas pelo matagal. A vila se organizou, chamaram a companhia de energia elétrica e mandaram fazer a instalação de luz. A prefeitura, muito esperta, arrumou “ligeirinho” a rede de esgotos e de água encanada para poder ganhar sua parte através do imposto. Agora, até caminhão de lixo seletivo passava, mas a poeira maldita, que levou o amor de seu Leonel, ah, essa continuava a deixar as janelas de todas as casas fechadas, tornando um segredo a vida de quem dentro delas habitava.
Seu Leonel, apesar da poeira, gostava de ficar nos finais de tarde tomando chimarrão e vendo a vida passar, pelo menos o que ele conseguia através da poeira. Os anos foram se passando e a cada dia, havia mais movimento no vilarejo. Todos os finais de semana, pessoas de cidades vizinhas vinham usufruir das cachoeiras e lagos da Barra. O rio já era famoso por ter os melhores viveiros de peixes da região, até mesmo seu Leonel pensou em virar pescador, mas a vaquinha engordou e a plantação voltou a crescer e prosperar. Seu Leonel acreditava que sua vida havia melhorado, mas ainda faltava alguma coisa para que ela se tornasse absoluta, uma vida digna de quem acordou por cinqüenta anos na beira de uma estrada de chão que ligava o rio da Barra ao asfalto da auto-estrada. Faltava a dignidade de deixar sua janela aberta durante os dias quentes de verão e nas noites, entre os mosquitos e o luar mais lindo do mundo.
Uma manhã, seu Jorge voltou mais cedo de sua pescaria. Recebeu a ligação de sua esposa lhe informando, aos berros, que sua pequena e única filha mulher, Nina, estava doente. Rapidamente levaram a menina ao hospital mais próximo onde foi diagnosticado o mesmo mal que levara a mulher de seu Leonel. Como a menina estava em estágio recente da doença, foi medicada e depois de alguns dias voltou para casa sã e salva. Na manhã seguinte, com a ajuda de seu Leonel e de outros moradores, houve um protesto diante da prefeitura contra aquela poeira maldita. O prefeito prometeu abrir uma licitação de caráter emergencial para resolver o problema dos moradores.
Seu Leonel, seu Jorge e os demais vizinhos, mediram a rua onde necessitava asfalto e enviaram a metragem ao prefeito, que assinou, na hora, o projeto de construção da via pública do vilarejo. Aquele dia foi marcante, todos faziam planos, havia boatos de que, com a chegada do asfalto, viriam comerciantes e um tal “crescimento absurdo” para aquele vilarejo modesto chamado “Barra”. Seu Leonel estava em êxtase, foi na vendinha de seu Romão e pagou, em leite, uma rodada de cachaça para todos. Seu Jorge brindou junto.
- É Leonel, tu vê como são as coisas, quando tua mulher morreu , “que Deus a tenha”, a gente nem pensava em se organizar para conseguir o que a gente queria. Faltou um pouco de atitude naquela época, mas quando minha filha quase morreu, não faltou uma mão para que essa idéia seguisse adiante.
Leonel lembrou da sua mulher e não conseguiu conter o choro, Jorge e Leonel abraçados choraram a vida e a morte no mesmo gole. Dois dias depois surgiram, ao longe, entre poeira e solidão, caminhões da empreiteira escolhida para a realização do que seria “o maior avanço da civilização”, depois da garrafa térmica para aqueles que adoravam chimarrão e odiavam a poeira. Era para mais de cinco caminhões e máquinas retro escavadeiras, os homens com seus uniformes e capacetes davam ao lugar a idéia de que ali o mundo estava prestes a mudar. O que tantas noites tirou o sono dos moradores, agora estava prestes a se tornar realidade.
Seu Leonel saiu à frente de seu terreno para receber com aplausos, juntos com os outros moradores, as máquinas da nova obra do vilarejo. A segunda maior, pois a primeira tinha sido o muro do cemitério. Esse muro servia não só para determinar onde começava e acabava o mesmo, como evitava que em dias de temporais muito fortes os corpos escorressem pelo morro abaixo e viessem parar na rua onde o asfalto não havia chegado. Mas seu Leonel não gostou quando ouviu a seguinte frase do encarregado da obra:
- Vamos começar lá por baixo, são quinhentos metros de asfalto e de boca de lobo, tenho certeza que assim terminaremos em três dias. Vamos lá pessoal!
Quinhentos metros, o número de alguma maneira deixou seu Leonel desconfortável, mas estava feliz pois via com seus próprios olhos o que o ser humano era capaz de fazer. Ele levava água gelada para os operários e a mulher do seu Jorge levava bolinhos e bolachas, tudo para que eles trabalhassem com amor e bem rápido. Dizem as más línguas que a mulher do seu Jorge adorava ouvir as histórias que os obreiros contavam, enquanto comiam tudo que ela tinha para dar. Ao final de uma semana, os olhares que haviam brilhado como a negra cor do asfalto, que tomava a rua e deixava as casas mais bonitas do que nunca, se transformaram em desconfiança, principalmente de seu Leonel. Ele percebia que a obra ainda não tinha chegado à frente de sua casa e, pior, dava a entender que nunca chegaria. Em um dia quente de sol escaldante, seu Leonel percebeu que algumas máquinas estavam de partida e saiu correndo atrás delas para tirar satisfação do que realmente estava acontecendo.
- Ei, ei, ei!! Voltem aqui, faltou a minha parte! Faltou terminar aqui na frente da minha casa! Voltem, voltem, por favor voltem!
Seu Leonel olhou para trás e viu todos os outros moradores festejando diante de suas residências as maravilhas do asfalto. Ao perceberem a tristeza de seu Leonel, foram condescendentes com ele e começaram a chamar os caminhões, tudo sem sucesso. Na manhã seguinte, seu Jorge e seu Leonel foram à prefeitura para reclamar e se depararam com uma situação no mínimo constrangedora: a medida que eles mesmos haviam mandado para a prefeitura, não incluía a última casa que havia sido construída dias antes, fruto de mais uma invasão. Como os engenheiros mediram de baixo para cima, a casa do seu Leonel estava fora dos quinhentos metros de asfalto, sendo assim, não havia erro por parte da empreiteira e muito menos da prefeitura.
- Veja bem seu Leonel, não sei realmente o que eu poderia fazer para resolver o seu caso, uma nova licitação dependeria de aprovação dos vereadores que nesse exato momento estão resolvendo problemas de outras regiões. Sua demanda voltaria para o final da fila, sendo assim, levaríamos mais ou menos uns dez anos para resolver o seu problema. Mas quero que o senhor saiba que estou aqui para ajudá-lo no que for possível!
- Estou vendo! Mas deve haver alguma coisa que possamos fazer para amenizar esse problema secretário. - respondeu seu Leonel.
- Claro que sim, vou ver isso com meu pessoal e amanhã ligamos para dar um retorno, ok¿ Agora, se me derem licença, tenho outras pessoas para atender. – disse, conduzindo-os até a porta.
Nas semanas seguintes, diariamente, às oito da manhã e às cinco da tarde, passava o caminhão pipa para molhar o pedaço da rua que não tinha asfalto. Ao final da segunda semana isso não aconteceu mais, seu Leonel tentou organizar um grupo que fosse conversar com o prefeito, mas infelizmente a única parte que não tinha asfalto era onde ele morava. Isso desmotivou os moradores que já usufruíam da rua sem poeira.
Seu Leonel se tornou um homem de cara fechada, achou que tinha sido traído. Um dia, bêbado, bateu no rapaz que invadiu o último terreno que tinha na rua, o primeiro a ser asfaltado, causando péssima impressão nos outros moradores que começaram a enxergá-lo como um velho ranzinza. Ele, por sua vez, terminou por acolher o estigma. Hoje, quem vai à prainha da Barra, pega muita poeira pela estrada, são mais de dez quilômetros de estrada de chão e quinhentos metros de asfalto. Logo depois da curva a prefeitura colocou pedras de paralelepípedo, imaginando que estavam fazendo para o lado certo, mas infelizmente erraram o lado novamente. Dessa forma a casa do seu Leonel se tornou referência para os turistas:
“ Para chegar na prainha da barra é simples: segue pela estrada de terra até a casa do véio Leonel, que é a ultima com poeira, depois começa o asfalto.”
O tão esperado “crescimento absurdo”, com comércio e lojas, não chegou, preservando boa parte da história do vilarejo. Seu Jorge, hoje, líder comunitário e guia turístico, segue feliz da vida e volta e meia faz umas festas para celebrar as suas conquistas, sempre convida seu Leonel, mas esse não quer saber de nada. Quando convidado para qualquer coisa, a resposta é sempre a mesma:
- Vai pra puta que te pariu.
Fim.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
O Escritor e a Atriz
Uma simples carta pode mudar a vida dos que não esperam mais nada dela...
Olá sou escritor do interior e me disseram que a senhorita poderia me ajudar na carreira.
Meu nome é Raul, sou um homem desiludido com a profissão, não tenho filhos e nem onde morar, não tenho amigos nem mesmo um cachorro a quem chorar minhas mágoas.
Moro no fundo de um terreno baldio. Me alimento quando tenho fome e o que estiver disponível.
Meu talento, ah esse nunca me abandonou, diferente das milhares de mulheres que tive e que não acreditavam nele.
Sempre quis conhecer mais pessoas que trabalham com arte. Um dia vi num recorte de jornal o retrato de uma linda mulher, parecia um copo de leite. Era uma atriz somente de teatro, apesar de achar que atores são de tudo, de tudo onde se precisa de interpretação, mas entendi quando li sobre ser atriz somente de teatro.
Gosto de escrever e tenho alguma habilidade para isso, nunca soube se o que escrevia era bom ou ruim, como não tenho amigos e as pessoas que conhecia eram todas analfabetas, não tive esse feedback das minhas escritas.
Espero que me desculpe por aparecer assim sem avisar, mas tenho certeza que se a senhorita me der um segundo de atenção verá em mim mais que um homem. Sou bem mais que isso, sou um ser que pensa, que ama e que sofre.
Como estava lhe falando, quando vi aquele recorte de jornal e aquela mulher que nele repousava, meus olhos brilharam, mas isso foi há muito tempo atrás, nunca mais vi ela em lugar algum.
Certa vez, anos mais tarde, enquanto tentava comprar uma tv, o vendendor trocava de canal e de repente ela surgiu como um anjo, seu rosto branco parecia mais branco que de costume. Suas roupas eram infantis, bem diferente da primeira vez que a vi, mas seu olhar era o mesmo, o que dispertou em mim novamente a paixão.
Sei que minhas desculpas para me aproximar dela não são as melhores, mas também não tenho porque me desculpar. Nunca vi ela, mas sempre lhe amei, do meu jeito, a distância, com paciência de quem sabe que o que é seu, está guardado.
Sabia que o dia iria chegar e junto com esse dia minha sorte mudaria, não seria mais visto como um qualquer, não seria mais um a passar pela fome de vida que rege os seres humanos sem alma.
Sabia que a paixão e o eterno amor estariam ao meu lado em forma de uma bela e branca mulher de olhos pequenos e coração grande, de amores impossíveis e de sexo vibrante, sei que estou sendo chato com a senhorita e mais uma vez queria me desculpar, prometo ser mais objetivo daqui pra frente, apesar de não saber como dizer isso normalmente, acredito que sim é possível e por isso venho a sua procura, da senhorita, apesar de todo seu conhecimento, não quero nada de trabalho, quero apenas saber que na minha vida um dia conheci e conversei com uma diva, uma musa do teatro, não saberia terminar essa conversa de outra maneira a não ser a que lhe direi agora
Senhorita Carlota Back aceitar casar comigo para todo sempre até que a morte nos separe?
Beijo Te Amo
Resposta:
Prezado Sr. Raul, tua sinceridade me toca, como tocado somos todos os que trabalham com arte e que vêem no coração humano mais que veias e sangue. Vemos um combustível de vida, de arte, de beleza, de sentimento, de ar, de pulsar, de respiração... Tuas palavras me tocaram.
Sou um ser humano cheio de erros, incompreensões, chatice, egoísmo, mas com uma sensibilidade ímpar para perceber um ser humano talentoso, sensível, interessante, vibrante e pelo jeito com enorme capacidade de escrita como percebo em vossa senhoria.
Adoraria crescer ao seu lado, me tornar uma pessoa melhor, mais iluminada, mais feliz..... Temo que isso possa acontecer quando o frente a frente surgir,
também já esperei pacientemente a chegada daquele que meu intímo suspeitava ser uma pessoa pra lá de especial, acalentei esse momento por anos.
Vendo-o de perto, respirando informações, acalentando sonhos, hoje ISTO surgiu.
Aceito seu pedido de casamento e prometo que ele não será só especial
será uma beleza semelhante a arte que a gente acredita e para o qual a gente vive. Meu amor a arte se equipara ao amor que posso lhe oferecer pois ambos andarão juntos.
Estou indo ao teu encontro nesse momento, me aguarde.
Estou de blusa com flores e bermuda branca.
Só peço que me ame sempre que eu sempre te amarei.
Olá sou escritor do interior e me disseram que a senhorita poderia me ajudar na carreira.
Meu nome é Raul, sou um homem desiludido com a profissão, não tenho filhos e nem onde morar, não tenho amigos nem mesmo um cachorro a quem chorar minhas mágoas.
Moro no fundo de um terreno baldio. Me alimento quando tenho fome e o que estiver disponível.
Meu talento, ah esse nunca me abandonou, diferente das milhares de mulheres que tive e que não acreditavam nele.
Sempre quis conhecer mais pessoas que trabalham com arte. Um dia vi num recorte de jornal o retrato de uma linda mulher, parecia um copo de leite. Era uma atriz somente de teatro, apesar de achar que atores são de tudo, de tudo onde se precisa de interpretação, mas entendi quando li sobre ser atriz somente de teatro.
Gosto de escrever e tenho alguma habilidade para isso, nunca soube se o que escrevia era bom ou ruim, como não tenho amigos e as pessoas que conhecia eram todas analfabetas, não tive esse feedback das minhas escritas.
Espero que me desculpe por aparecer assim sem avisar, mas tenho certeza que se a senhorita me der um segundo de atenção verá em mim mais que um homem. Sou bem mais que isso, sou um ser que pensa, que ama e que sofre.
Como estava lhe falando, quando vi aquele recorte de jornal e aquela mulher que nele repousava, meus olhos brilharam, mas isso foi há muito tempo atrás, nunca mais vi ela em lugar algum.
Certa vez, anos mais tarde, enquanto tentava comprar uma tv, o vendendor trocava de canal e de repente ela surgiu como um anjo, seu rosto branco parecia mais branco que de costume. Suas roupas eram infantis, bem diferente da primeira vez que a vi, mas seu olhar era o mesmo, o que dispertou em mim novamente a paixão.
Sei que minhas desculpas para me aproximar dela não são as melhores, mas também não tenho porque me desculpar. Nunca vi ela, mas sempre lhe amei, do meu jeito, a distância, com paciência de quem sabe que o que é seu, está guardado.
Sabia que o dia iria chegar e junto com esse dia minha sorte mudaria, não seria mais visto como um qualquer, não seria mais um a passar pela fome de vida que rege os seres humanos sem alma.
Sabia que a paixão e o eterno amor estariam ao meu lado em forma de uma bela e branca mulher de olhos pequenos e coração grande, de amores impossíveis e de sexo vibrante, sei que estou sendo chato com a senhorita e mais uma vez queria me desculpar, prometo ser mais objetivo daqui pra frente, apesar de não saber como dizer isso normalmente, acredito que sim é possível e por isso venho a sua procura, da senhorita, apesar de todo seu conhecimento, não quero nada de trabalho, quero apenas saber que na minha vida um dia conheci e conversei com uma diva, uma musa do teatro, não saberia terminar essa conversa de outra maneira a não ser a que lhe direi agora
Senhorita Carlota Back aceitar casar comigo para todo sempre até que a morte nos separe?
Beijo Te Amo
Resposta:
Prezado Sr. Raul, tua sinceridade me toca, como tocado somos todos os que trabalham com arte e que vêem no coração humano mais que veias e sangue. Vemos um combustível de vida, de arte, de beleza, de sentimento, de ar, de pulsar, de respiração... Tuas palavras me tocaram.
Sou um ser humano cheio de erros, incompreensões, chatice, egoísmo, mas com uma sensibilidade ímpar para perceber um ser humano talentoso, sensível, interessante, vibrante e pelo jeito com enorme capacidade de escrita como percebo em vossa senhoria.
Adoraria crescer ao seu lado, me tornar uma pessoa melhor, mais iluminada, mais feliz..... Temo que isso possa acontecer quando o frente a frente surgir,
também já esperei pacientemente a chegada daquele que meu intímo suspeitava ser uma pessoa pra lá de especial, acalentei esse momento por anos.
Vendo-o de perto, respirando informações, acalentando sonhos, hoje ISTO surgiu.
Aceito seu pedido de casamento e prometo que ele não será só especial
será uma beleza semelhante a arte que a gente acredita e para o qual a gente vive. Meu amor a arte se equipara ao amor que posso lhe oferecer pois ambos andarão juntos.
Estou indo ao teu encontro nesse momento, me aguarde.
Estou de blusa com flores e bermuda branca.
Só peço que me ame sempre que eu sempre te amarei.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Soluções milagrosas do amor
Hoje, mexendo em algumas fotos antigas, lembrei da minha infância, coisa boa ser criança! Pena que minha condição financeira naquela época tenha deixado marcas escuras em meu peito. Muitos acreditam que, para as crianças, o dinheiro não interfere, mas infelizmente isso não é verdade. Não vou justificar nada do que fiz na vida, mas o fato de estar contando essa história tem a ver com o fato de que o dinheiro compra tudo, e falo isso sem medo, pois calei todos que se atravessaram no meu caminho.
Não sou um homem vingativo. Mentira, sou sim, aliás sou mais que vingativo. De monstro a terra está cheia, é só olhar a televisão, os jornais, as revistas, escutar um rádio, prestar atenção nas conversar dos bares, das praças, das filas de hospitais. Onde existir a raça humana haverá o mal incrustado dentro dela.
Quando conheci Raquel me apaixonei, morena linda, de rosto fino e pernas grossas. Essa moça estudada e extremamente educada logo se tornou a mulher dos meus sonhos. Mas Raquel não me dava a menor atenção e talvez o fato de não ter coragem de conversar com ela tenha gerado essa loucura que aconteceu em nossas vidas. Antes que o caro leitor ache que a matei, gostaria de antecipar que nunca faria isso com alguém que amei tanto na vida.
Trabalhava de engraxate na frente do escritório do pai de Raquel durante alguns anos. Sempre que ela passava ficava no ar um perfume doce que me deixava louco, mas a vergonha de ser pobre me proibia o contato. Nunca troquei um olhar com ela, até porque ela nunca olhou para baixo onde eu sempre me encontrava lustrando sapatos.
Meus dias eram sempre os mesmos. Acordava num bairro distante do centro, numa casa velha onde dividia com ratos e baratas as migalhas que ganhava lustrando sapatos dos altos executivos da cidade. Demorava duas horas de ônibus até o centro, o que me dava tempo de sobra para pensar, não tinha outro pensamento a não ser ganhar um dia o coração de Raquel, aquilo sim era paixão, dessas que a gente sente que é para sempre sabe? Daqueles amores que podem ultrapassar a nossa própria existência. Quando chegava ao centro com minha caixa de engraxate, não vou negar, tinha vergonha, mas precisava comer e me vestir. Era humilhado quase que diariamente por aqueles caras de colarinho branco e sapato bico fino. Uma vez um sujeito chegou a cuspir na minha cara porque bem na hora que estava engraxando seu sapato Raquel passou, me tirando a concentração, terminei passando a graxa na suas meias. O homem indignado me fez essa agressão moral, não se cospe na cara de um homem.
Raquel sempre passava sozinha em direção ao escritório de seu pai. Um dia eu disse para mim mesmo que aquele seria o dia que pararia na frente dela e lhe falaria a verdade. Falaria que a amava e que faria de tudo para ficar com ela, mas o medo me impediu, imagina eu, um mero engraxate, atacando um bela mulher no centro da cidade para lhe dizer que a amava. Coisa mais ridícula! Então desisti. Nesse mesmo dia, dentro do ônibus, estava voltando para minha casa quando uma cega entrou vendendo um bilhete da loteria. Comprei o tal bilhete, meio sem esperança, mas ao mesmo tempo com uma puta vontade de mudar de vida e realizar meus sonhos, ao mesmo tempo estaria ajudando aquela mulher que não enxergava e realmente precisa mais do que eu.
Na manhã seguinte, quando entrei na padaria para tomar minha meia taça de café preto e comer um cacetinho, dei uma olhada no jornal, lá estavam os números 13-32-36-41-44-50. Por um instante não acreditei.... Oh, meu Deus ! Eu tinha acabado de ganhar na loteria. A partir daí minha vida mudou, me regularizei na vida, comprei um apartamento num bairro nobre, um carro bonito e tomei um banho de loja. Às vezes passava na frente do escritório para ver se conseguia ver Raquel, mas não tinha sorte. Então voltei a estudar e meu amor ficou em segundo plano, queria ser alguém especial para ela. Eu não sabia falar direito mas com meu dinheiro e um pouco de boa vontade em um ano me tornei uma pessoa influente. Qualquer um que tenha a minha grana é uma pessoa influente.
Numa manhã de sexta feira, comprei flores e fui ao escritório do pai de Raquel. Aquela seria a primeira vez que falaria com ela, não sabia o que dizer. Pensei em falar a verdade, que eu era o engraxate que trabalhava ali na frente e que estava apaixonado por ela há muito tempo e que nunca tive coragem de contar. Entrei no escritório e lá estava ela sentada atrás de uma mesa de vidro perto da janela. Olhava para fora como se estivesse esperando alguém, nem percebeu minha chegada com flores no braço. Toquei a campainha, ela olhou pra frente e deu um sorriso. Uma menina que estava próximo dela me perguntou o que eu queria, mas eu seguia Raquel com os olhos, seu sorriso não era pra mim, mas sim para um homem que, atrás de mim, apareceu no mesmo instante. Mais uma vez ela passou por mim sem me ver e o beijou com ardor. Respondi para a menina que não era nada, que havia me enganado e saí. Arrasado voltei para o meu apartamento, me revoltei comigo por não tê-la procurado antes. Como eu pude ser tão idiota.... como uma mulher linda como ela não teria outros pretendentes... idiota! Idiota!
Depois da culpa veio o desespero, era Raquel que eu queria, nenhuma mulher tinha o mesmo perfume que me fazia sair do chão. Eu não tinha amigos e não gostava de gente, gostava dela e vivia pensando como seria lindo a nossa vida juntos. Passado alguns meses, estava lendo o jornal no café da manhã quando me deparo com a seguinte manchete: “ Mulher encontrada semi nua com marcas de estrangulamento. A vítima se encontra em coma no HPS”, era Raquel, meu sangue ferveu, minhas mãos começaram a suar e o choro foi inevitável. Quem seria capaz de fazer aquilo com uma mulher tão doce como Raquel? Isso já não importava mais, estava decidido, iria me vingar!
A tecnologia foi minha grande aliada na vingança, o primeiro passo foi procurar Raquel nas redes sociais. Assim que encontrei –a, pesquisei seus amigos e últimos namorados, muito fácil essa parte, logo cheguei ao homem que a beijara na única vez que tive coragem de me aproximar de Raquel.
Com alguns trocados arrumei um advogado, um porta de cadeia qualquer, como não queria que ninguém soubesse da minha existência ,convidei o advogado para uma reunião. Nunca falei com ele por celular, nosso primeiro contato foi por telefone convencional, eu liguei de um orelhão e nos encontramos. Ele conseguiu cópias do processo, do boletim de ocorrência e a ficha completa do seu último namorado e possível agressor. O advogado me alertou que estava mexendo com peixe grande e que o valor teria que ser aumentado por motivos óbvios, eu disse que tudo bem, entendia. Para comemorar nossa parceria, levei-o no alto de um morro belíssimo, abri o porta malas e tirei uma champanhe. Brindamos e por um descuido, o advogado caiu do morro. Saí correndo dali, chamei uma ambulância para o local e no dia seguinte fiquei sabendo da sua morte pela TV. Dizia que um advogado caiu bêbado de um morro e quebrou o pescoço, que possivelmente fora vítima de traficantes já que ele representava vários bandidos, lamentei mas segui no meu objetivo.
Estava em minhas mãos à ficha de um homem chamado Carlos Neves. Filho de um político importante na cidade, rico e bem nascido, estudou nas melhores escolas da região, morou fora do país e tinha histórico de pessoa violenta. Usuário de drogas, havia saído de uma clínica há seis meses e namorava Raquel há um ano e meio. Ele estava desaparecido e era considerado o possível agressor , por ser filho de pessoa influente não estava nas páginas dos jornais. Seu pai arrumou um jeito de parecer que a moça tivesse sido vítima de um assaltante ou mesmo de um tarado. O pior é que todos pareciam acreditar nisso, menos eu.
Um dia enquanto espreitava a casa de Carlos, percebi a movimentação de seguranças na rua. Uma mulher saiu da casa com uma sacola, segui-a , ela entrou em um táxi. Saímos do centro da cidade e chegamos a um bairro da periferia. Ela desceu do táxi, atravessou a rua e deixou um pacote em frente a porta de entrada de uma casa velha de madeira, depois saiu e foi embora. Fiquei ali de tocaia, esperando, quando uma viatura encostou atrás de mim. Pediram-me para descer do carro e colocar as mãos sobre o veículo. Expliquei que me perdi naquele lugar horrível, que meu GPS tinha estragado e que estava atrasado para um reunião. Eles pegaram meus dados, me mostraram o caminho e me disseram que uma senhora achou que se tratava de um carro roubado, sorrimos e voltei para casa. Mas antes de entrar no carro percebi que o pacote que a mulher tinha deixado não estava mais na porta de entrada daquela velha casa.
Agora eu tinha certeza que estava na cola do cara e que a polícia não seria um problema, por via das dúvidas resolvi seguir o plano B e ter o máximo de cuidado com tudo. Quando cheguei em casa liguei o meu computador e comprei uma passagem para outro Estado. Vôo no domingo às cinco da manhã, primeira classe. Fiz reserva em um hotel na beira da praia e comprei um carro velho num site de carros usados. Na sexta-feira, estacionei o carro velho há dez quadras de distância da minha casa, no lado de fora do estacionamento de um mercado onde sabia que não havia câmeras de vigilância. No sábado, peguei o carro velho, fui a um beco que conhecia e comprei cinqüenta gramas de cocaína. Na volta passei na frente da provável casa em que Carlos se escondia e deixei a droga num lugar perto da porta de entrada. Fiquei esperando e para a minha surpresa, Carlos apareceu na casa, achou a droga, entrou e apagou a luz. Isso era quase meia noite, meu plano corria bem. Voltei para casa e antes deixei o carro velho no mesmo lugar. Às cinco horas da manhã de domingo, peguei o avião, cheguei no Estado vizinho e fui para o hotel. Conversei com um rapaz que fazia a faxina nos quartos, com uma nota preta disse a ele que queria fazer uma surpresa para minha esposa e que precisava sair dali sem ser notado. Entre sorrisos de cumplicidade, ele me disse que topava. Às oito da manhã ele entrou no quarto para fazer a limpeza e eu sai dentro do carrinho, me deixou na porta dos fundos do hotel e me disse que às quatro da tarde estaria ali para me levar ao quarto novamente. Peguei um táxi e fui ao aeroporto. Voltei para a minha cidade, peguei o carro velho e me dirigi a periferia. No carro uma mochila me acompanhava. Cheguei, estacionei e com a mochila fui até a casa. Encontrei Carlos cheirando, estava na cozinha, um silêncio assustador dominava o ambiente. Carlos tinha os dentes trincados, rondei a casa e percebi que ele estava sozinho. Chutei a porta dos fundos e ele se escondeu embaixo da mesa. Peguei-o e com o sonífero fiz que ele apagasse. Quando recobrou a consciência estava amarrado a uma cadeira.
Eu vestia uma roupa branca e tinha nas mãos um bisturi, a meia luz deixava o ambiente mais estranho. Escolhi de trilha sonora uma bela música clássica, que abafava qualquer barulho e deixava um gosto de prazer naquela situação de desespero e vingança. Olhei Carlos nos olhos, ele chorava, tentava sair da cadeira, tentava se mexer. Quando percebi que ele tinha mijado nas calças, sorri, era engraçado ver o machão se mijando. Ele sabia que eu seria o último rosto de homem que ele veria naquela vida. Tudo que ele fazia era em vão, não havia como fugir, enquanto ele gemia e esperneava eu lembrava dos meus dias de engraxate. Quantos “Carlos” passaram pelo meu caminho e me destrataram de forma arrogante. Então eu lhe disse ao pé do ouvido:
- Oi Carlos! Eu disse: oi! Que triste a tua situação, todo mijado, que nojo!
Cuspi em seu rosto, sentia nojo dele, cadê aquele cara forte, o fodão, o gostosão. Carlos muito assustado grunhia alguma coisa e eu voltei a falar:
- Deve ser estranho estar na tua situação, na real até posso imaginar, já vivi assim, preso a um lugar que não queria estar.
Então sorri. Peguei uma foto da Raquel e lhe mostrei:
- Sabe quem é ela não é?
Ele me olhava e dizia “não”, movimentando a cabeça. Que idiota, claro que ele conhecia. Seu corpo tremia, seu suor escorria e se misturava às lágrimas e meu coração naquele momento era uma montanha de gelo em erupção. Eu poderia cortá-lo em pedacinhos e espalhar pelos quatro cantos da cidade, poderia fazer uma sopa e dar aos pobres nas esquinas, poderia sumir com ele do jeito que eu quisesse. Mas o que eu queria naquele momento era vê-lo sofrer, vê-lo chorar, vê-lo suplicar ajuda para que eu poupasse sua vida. Não vou poupar nada, quero vê-lo se humilhar, rastejar e sucumbir ao meu poder de dizer sim ou não, de decidir quem vive e quem morre.
- Não deveria ter feito isso que tu fez seu viciadinho de merda, mas já que tu fez, agora não vamos chorar o leite derramado,não é?
Nesse momento rasguei-lhe a camiseta e levantei o bisturi. Seus olhos se arregalaram, começou a se debater na cadeira. Eu o peguei pelo queixo e lhe disse:
- Sabe Carlos, eu sempre tive vontade de ter algumas coisas. Como eu queria tê-la beijado, como eu sonhei em possuí-la , como eu desejei -a, mas tudo isso ficou no passado. E antes que tu apague, queria te avisar que há um vazio na minha alma e a culpa é tua seu play boy de merda, temos algumas coisas para colocar em dia, um sentimento tão intenso e perverso, um ódio acumulado por tudo que vivi e presenciei durante esse tempo todo, meus pensamentos te mataram há muito tempo, minha raiva transborda e me cega.
Encostei o bisturi em seu peito e fiz um corte na altura do coração, ele grunhia como um animal pronto para o abate, eu sorria e depositava ali todas as minhas mágoas com a sociedade que me tratara tão mal no passado. Peguei um afastador e abri-lhe o peito, podia ver seu coração bater por causa da cocaína que em seu sangue corria, senti prazer em ver seu coração batendo, então mais uma vez me aproximei
- Tu levou o meu amor, nada mais justo que eu levar teu coração.
E de uma vez só arranquei o coração do seu peito.
Coloquei aquele órgão quente numa sacola de plástico. Troquei de roupa, coloquei as brancas na mochila e queimei tudo na estrada. Peguei o carro e voltei ao hotel. Às quatro da tarde o funcionário do hotel me esperava, entrei no carrinho e ele me levou ao quarto, chamei algumas prostitutas e comemorei. Voltei para casa no dia seguinte e pela Tv soube que foi encontrado o corpo de Carlos pela mãe. Na casa havia muito sangue e resquícios de cocaína. Carlos e Raquel foram enterrados no mesmo cemitério e junto com eles foi o meu amor. Nunca mais amei ninguém, nem poderia ,sou um monstro, mas monstros com dinheiro são diferentes . Monstros com dinheiro são protegidos pelos mesmos monstros que criaram a sociedade moderna, nada simples de conviver, afinal de contas quando olho pra trás não sei dizer quem são os bandidos e quem são os homens maus.
Não sou um homem vingativo. Mentira, sou sim, aliás sou mais que vingativo. De monstro a terra está cheia, é só olhar a televisão, os jornais, as revistas, escutar um rádio, prestar atenção nas conversar dos bares, das praças, das filas de hospitais. Onde existir a raça humana haverá o mal incrustado dentro dela.
Quando conheci Raquel me apaixonei, morena linda, de rosto fino e pernas grossas. Essa moça estudada e extremamente educada logo se tornou a mulher dos meus sonhos. Mas Raquel não me dava a menor atenção e talvez o fato de não ter coragem de conversar com ela tenha gerado essa loucura que aconteceu em nossas vidas. Antes que o caro leitor ache que a matei, gostaria de antecipar que nunca faria isso com alguém que amei tanto na vida.
Trabalhava de engraxate na frente do escritório do pai de Raquel durante alguns anos. Sempre que ela passava ficava no ar um perfume doce que me deixava louco, mas a vergonha de ser pobre me proibia o contato. Nunca troquei um olhar com ela, até porque ela nunca olhou para baixo onde eu sempre me encontrava lustrando sapatos.
Meus dias eram sempre os mesmos. Acordava num bairro distante do centro, numa casa velha onde dividia com ratos e baratas as migalhas que ganhava lustrando sapatos dos altos executivos da cidade. Demorava duas horas de ônibus até o centro, o que me dava tempo de sobra para pensar, não tinha outro pensamento a não ser ganhar um dia o coração de Raquel, aquilo sim era paixão, dessas que a gente sente que é para sempre sabe? Daqueles amores que podem ultrapassar a nossa própria existência. Quando chegava ao centro com minha caixa de engraxate, não vou negar, tinha vergonha, mas precisava comer e me vestir. Era humilhado quase que diariamente por aqueles caras de colarinho branco e sapato bico fino. Uma vez um sujeito chegou a cuspir na minha cara porque bem na hora que estava engraxando seu sapato Raquel passou, me tirando a concentração, terminei passando a graxa na suas meias. O homem indignado me fez essa agressão moral, não se cospe na cara de um homem.
Raquel sempre passava sozinha em direção ao escritório de seu pai. Um dia eu disse para mim mesmo que aquele seria o dia que pararia na frente dela e lhe falaria a verdade. Falaria que a amava e que faria de tudo para ficar com ela, mas o medo me impediu, imagina eu, um mero engraxate, atacando um bela mulher no centro da cidade para lhe dizer que a amava. Coisa mais ridícula! Então desisti. Nesse mesmo dia, dentro do ônibus, estava voltando para minha casa quando uma cega entrou vendendo um bilhete da loteria. Comprei o tal bilhete, meio sem esperança, mas ao mesmo tempo com uma puta vontade de mudar de vida e realizar meus sonhos, ao mesmo tempo estaria ajudando aquela mulher que não enxergava e realmente precisa mais do que eu.
Na manhã seguinte, quando entrei na padaria para tomar minha meia taça de café preto e comer um cacetinho, dei uma olhada no jornal, lá estavam os números 13-32-36-41-44-50. Por um instante não acreditei.... Oh, meu Deus ! Eu tinha acabado de ganhar na loteria. A partir daí minha vida mudou, me regularizei na vida, comprei um apartamento num bairro nobre, um carro bonito e tomei um banho de loja. Às vezes passava na frente do escritório para ver se conseguia ver Raquel, mas não tinha sorte. Então voltei a estudar e meu amor ficou em segundo plano, queria ser alguém especial para ela. Eu não sabia falar direito mas com meu dinheiro e um pouco de boa vontade em um ano me tornei uma pessoa influente. Qualquer um que tenha a minha grana é uma pessoa influente.
Numa manhã de sexta feira, comprei flores e fui ao escritório do pai de Raquel. Aquela seria a primeira vez que falaria com ela, não sabia o que dizer. Pensei em falar a verdade, que eu era o engraxate que trabalhava ali na frente e que estava apaixonado por ela há muito tempo e que nunca tive coragem de contar. Entrei no escritório e lá estava ela sentada atrás de uma mesa de vidro perto da janela. Olhava para fora como se estivesse esperando alguém, nem percebeu minha chegada com flores no braço. Toquei a campainha, ela olhou pra frente e deu um sorriso. Uma menina que estava próximo dela me perguntou o que eu queria, mas eu seguia Raquel com os olhos, seu sorriso não era pra mim, mas sim para um homem que, atrás de mim, apareceu no mesmo instante. Mais uma vez ela passou por mim sem me ver e o beijou com ardor. Respondi para a menina que não era nada, que havia me enganado e saí. Arrasado voltei para o meu apartamento, me revoltei comigo por não tê-la procurado antes. Como eu pude ser tão idiota.... como uma mulher linda como ela não teria outros pretendentes... idiota! Idiota!
Depois da culpa veio o desespero, era Raquel que eu queria, nenhuma mulher tinha o mesmo perfume que me fazia sair do chão. Eu não tinha amigos e não gostava de gente, gostava dela e vivia pensando como seria lindo a nossa vida juntos. Passado alguns meses, estava lendo o jornal no café da manhã quando me deparo com a seguinte manchete: “ Mulher encontrada semi nua com marcas de estrangulamento. A vítima se encontra em coma no HPS”, era Raquel, meu sangue ferveu, minhas mãos começaram a suar e o choro foi inevitável. Quem seria capaz de fazer aquilo com uma mulher tão doce como Raquel? Isso já não importava mais, estava decidido, iria me vingar!
A tecnologia foi minha grande aliada na vingança, o primeiro passo foi procurar Raquel nas redes sociais. Assim que encontrei –a, pesquisei seus amigos e últimos namorados, muito fácil essa parte, logo cheguei ao homem que a beijara na única vez que tive coragem de me aproximar de Raquel.
Com alguns trocados arrumei um advogado, um porta de cadeia qualquer, como não queria que ninguém soubesse da minha existência ,convidei o advogado para uma reunião. Nunca falei com ele por celular, nosso primeiro contato foi por telefone convencional, eu liguei de um orelhão e nos encontramos. Ele conseguiu cópias do processo, do boletim de ocorrência e a ficha completa do seu último namorado e possível agressor. O advogado me alertou que estava mexendo com peixe grande e que o valor teria que ser aumentado por motivos óbvios, eu disse que tudo bem, entendia. Para comemorar nossa parceria, levei-o no alto de um morro belíssimo, abri o porta malas e tirei uma champanhe. Brindamos e por um descuido, o advogado caiu do morro. Saí correndo dali, chamei uma ambulância para o local e no dia seguinte fiquei sabendo da sua morte pela TV. Dizia que um advogado caiu bêbado de um morro e quebrou o pescoço, que possivelmente fora vítima de traficantes já que ele representava vários bandidos, lamentei mas segui no meu objetivo.
Estava em minhas mãos à ficha de um homem chamado Carlos Neves. Filho de um político importante na cidade, rico e bem nascido, estudou nas melhores escolas da região, morou fora do país e tinha histórico de pessoa violenta. Usuário de drogas, havia saído de uma clínica há seis meses e namorava Raquel há um ano e meio. Ele estava desaparecido e era considerado o possível agressor , por ser filho de pessoa influente não estava nas páginas dos jornais. Seu pai arrumou um jeito de parecer que a moça tivesse sido vítima de um assaltante ou mesmo de um tarado. O pior é que todos pareciam acreditar nisso, menos eu.
Um dia enquanto espreitava a casa de Carlos, percebi a movimentação de seguranças na rua. Uma mulher saiu da casa com uma sacola, segui-a , ela entrou em um táxi. Saímos do centro da cidade e chegamos a um bairro da periferia. Ela desceu do táxi, atravessou a rua e deixou um pacote em frente a porta de entrada de uma casa velha de madeira, depois saiu e foi embora. Fiquei ali de tocaia, esperando, quando uma viatura encostou atrás de mim. Pediram-me para descer do carro e colocar as mãos sobre o veículo. Expliquei que me perdi naquele lugar horrível, que meu GPS tinha estragado e que estava atrasado para um reunião. Eles pegaram meus dados, me mostraram o caminho e me disseram que uma senhora achou que se tratava de um carro roubado, sorrimos e voltei para casa. Mas antes de entrar no carro percebi que o pacote que a mulher tinha deixado não estava mais na porta de entrada daquela velha casa.
Agora eu tinha certeza que estava na cola do cara e que a polícia não seria um problema, por via das dúvidas resolvi seguir o plano B e ter o máximo de cuidado com tudo. Quando cheguei em casa liguei o meu computador e comprei uma passagem para outro Estado. Vôo no domingo às cinco da manhã, primeira classe. Fiz reserva em um hotel na beira da praia e comprei um carro velho num site de carros usados. Na sexta-feira, estacionei o carro velho há dez quadras de distância da minha casa, no lado de fora do estacionamento de um mercado onde sabia que não havia câmeras de vigilância. No sábado, peguei o carro velho, fui a um beco que conhecia e comprei cinqüenta gramas de cocaína. Na volta passei na frente da provável casa em que Carlos se escondia e deixei a droga num lugar perto da porta de entrada. Fiquei esperando e para a minha surpresa, Carlos apareceu na casa, achou a droga, entrou e apagou a luz. Isso era quase meia noite, meu plano corria bem. Voltei para casa e antes deixei o carro velho no mesmo lugar. Às cinco horas da manhã de domingo, peguei o avião, cheguei no Estado vizinho e fui para o hotel. Conversei com um rapaz que fazia a faxina nos quartos, com uma nota preta disse a ele que queria fazer uma surpresa para minha esposa e que precisava sair dali sem ser notado. Entre sorrisos de cumplicidade, ele me disse que topava. Às oito da manhã ele entrou no quarto para fazer a limpeza e eu sai dentro do carrinho, me deixou na porta dos fundos do hotel e me disse que às quatro da tarde estaria ali para me levar ao quarto novamente. Peguei um táxi e fui ao aeroporto. Voltei para a minha cidade, peguei o carro velho e me dirigi a periferia. No carro uma mochila me acompanhava. Cheguei, estacionei e com a mochila fui até a casa. Encontrei Carlos cheirando, estava na cozinha, um silêncio assustador dominava o ambiente. Carlos tinha os dentes trincados, rondei a casa e percebi que ele estava sozinho. Chutei a porta dos fundos e ele se escondeu embaixo da mesa. Peguei-o e com o sonífero fiz que ele apagasse. Quando recobrou a consciência estava amarrado a uma cadeira.
Eu vestia uma roupa branca e tinha nas mãos um bisturi, a meia luz deixava o ambiente mais estranho. Escolhi de trilha sonora uma bela música clássica, que abafava qualquer barulho e deixava um gosto de prazer naquela situação de desespero e vingança. Olhei Carlos nos olhos, ele chorava, tentava sair da cadeira, tentava se mexer. Quando percebi que ele tinha mijado nas calças, sorri, era engraçado ver o machão se mijando. Ele sabia que eu seria o último rosto de homem que ele veria naquela vida. Tudo que ele fazia era em vão, não havia como fugir, enquanto ele gemia e esperneava eu lembrava dos meus dias de engraxate. Quantos “Carlos” passaram pelo meu caminho e me destrataram de forma arrogante. Então eu lhe disse ao pé do ouvido:
- Oi Carlos! Eu disse: oi! Que triste a tua situação, todo mijado, que nojo!
Cuspi em seu rosto, sentia nojo dele, cadê aquele cara forte, o fodão, o gostosão. Carlos muito assustado grunhia alguma coisa e eu voltei a falar:
- Deve ser estranho estar na tua situação, na real até posso imaginar, já vivi assim, preso a um lugar que não queria estar.
Então sorri. Peguei uma foto da Raquel e lhe mostrei:
- Sabe quem é ela não é?
Ele me olhava e dizia “não”, movimentando a cabeça. Que idiota, claro que ele conhecia. Seu corpo tremia, seu suor escorria e se misturava às lágrimas e meu coração naquele momento era uma montanha de gelo em erupção. Eu poderia cortá-lo em pedacinhos e espalhar pelos quatro cantos da cidade, poderia fazer uma sopa e dar aos pobres nas esquinas, poderia sumir com ele do jeito que eu quisesse. Mas o que eu queria naquele momento era vê-lo sofrer, vê-lo chorar, vê-lo suplicar ajuda para que eu poupasse sua vida. Não vou poupar nada, quero vê-lo se humilhar, rastejar e sucumbir ao meu poder de dizer sim ou não, de decidir quem vive e quem morre.
- Não deveria ter feito isso que tu fez seu viciadinho de merda, mas já que tu fez, agora não vamos chorar o leite derramado,não é?
Nesse momento rasguei-lhe a camiseta e levantei o bisturi. Seus olhos se arregalaram, começou a se debater na cadeira. Eu o peguei pelo queixo e lhe disse:
- Sabe Carlos, eu sempre tive vontade de ter algumas coisas. Como eu queria tê-la beijado, como eu sonhei em possuí-la , como eu desejei -a, mas tudo isso ficou no passado. E antes que tu apague, queria te avisar que há um vazio na minha alma e a culpa é tua seu play boy de merda, temos algumas coisas para colocar em dia, um sentimento tão intenso e perverso, um ódio acumulado por tudo que vivi e presenciei durante esse tempo todo, meus pensamentos te mataram há muito tempo, minha raiva transborda e me cega.
Encostei o bisturi em seu peito e fiz um corte na altura do coração, ele grunhia como um animal pronto para o abate, eu sorria e depositava ali todas as minhas mágoas com a sociedade que me tratara tão mal no passado. Peguei um afastador e abri-lhe o peito, podia ver seu coração bater por causa da cocaína que em seu sangue corria, senti prazer em ver seu coração batendo, então mais uma vez me aproximei
- Tu levou o meu amor, nada mais justo que eu levar teu coração.
E de uma vez só arranquei o coração do seu peito.
Coloquei aquele órgão quente numa sacola de plástico. Troquei de roupa, coloquei as brancas na mochila e queimei tudo na estrada. Peguei o carro e voltei ao hotel. Às quatro da tarde o funcionário do hotel me esperava, entrei no carrinho e ele me levou ao quarto, chamei algumas prostitutas e comemorei. Voltei para casa no dia seguinte e pela Tv soube que foi encontrado o corpo de Carlos pela mãe. Na casa havia muito sangue e resquícios de cocaína. Carlos e Raquel foram enterrados no mesmo cemitério e junto com eles foi o meu amor. Nunca mais amei ninguém, nem poderia ,sou um monstro, mas monstros com dinheiro são diferentes . Monstros com dinheiro são protegidos pelos mesmos monstros que criaram a sociedade moderna, nada simples de conviver, afinal de contas quando olho pra trás não sei dizer quem são os bandidos e quem são os homens maus.
sábado, 20 de novembro de 2010
Morte aos goles
Roberto tinha uma vida simples, buscava trabalhar honestamente numa cidade sem lei, onde cada um cuidava da sua vida e o resto era somente o resto. Era um homem sozinho, só tinha a esposa no mundo para lhe fazer companhia. Vivia tranqüilo no seu dia a dia de trabalhador. Nas esquinas daquela cidade, Roberto ganhava seu dinheiro vendendo doces. Não era um homem alto, nem era gordo e sua pele parda carregava uma cor de cuia. Tinha o semblante de alguém que trabalhava de sol a sol nas sinaleiras de uma grande capital, sujeito a qualquer situação que um lugar de trabalho como esse pode proporcionar.
Naquele dia, Roberto saiu de casa feliz, estava casado com uma mulher maravilhosa, zelosa e paciente com todas as adversidades que a vida lhe mostrava quase que diariamente. Ao atravessar a rua, quase foi atropelado. Sua cabeça não estava ali. Olhou para o lado, ainda sob os xingamentos do motorista do carro que quase o pegou, desculpou-se e seguiu andando. Mais do que driblar um carro, ele driblava pela primeira vez a morte.
Já era quase meio dia quando Roberto entrou no banco para depositar o dinheiro que juntou vendendo doces na sinaleira. Pensativo, ele lembrou do acidente e da sorte que teve ao conseguir desviar daquele carro, nesse momento dois homens armados invadiram a agência e anunciaram o assalto. Os dois homens poderiam facilmente ser confundidos com crianças, estavam nervosos. Possivelmente era o primeiro assalto da vida daqueles moleques, todos percebiam pelas vozes finas e gestos forçados, a infância perdida naqueles ladrões. O primeiro menino que, apesar da pouca idade, carregava uma arma, ordenou que o segundo passasse com um saco de lixo preto e recolhesse celulares e carteiras. Estava bem assustado, com uma mão segurava o saco e na outra uma arma prateada. O homem foi passando e recolhendo os pertences das pessoas. Quando chegou a vez de Roberto, ele colocou a mão no bolso e inesperadamente o assaltante puxou o gatilho, o disparo foi ouvido de longe, apesar do movimento daquela área da cidade. Os ladrões saíram correndo, levando o que tinham roubado. Quando a polícia chegou Roberto estava estático, com os olhos vidrados. Não havia marca de sangue, quase como um milagre o tiro a queima roupa havia acertado em cheio a máquina de dinheiro a trinta centímetros de distância de Roberto. Fora muita sorte ele não ter morrido. Roberto lembrou do carro e sorriu, tinha um brilho em seu olhar, havia fugido da morte pela segunda vez.
Roberto saiu introspectivo do banco, ainda sob o impacto do que havia acontecido. Andou mais alguns metros e entrou num bar onde tomou algumas cervejas. Na saída, caminhava numa avenida movimentada, já havia caído a noite. Parou para dar uma mijada, ali mesmo na rua, escorado em um muro velho. Debruçado no muro, ouviu um barulho, deu uma passo para trás e viu aquela parede de tijolos cair aos seus pés. Um novo milagre fazia ele escapar ileso. Parecia que a morte lhe queria, mas a vontade de voltar para casa e ver sua mulher era maior que a sorte da morte que perdeu pela terceira vez.
Uma hora mais tarde Roberto descia do ônibus perto da sua casa, em um bairro afastado do centro da cidade. Caminhou por alguns minutos, atravessou um matagal e alguns terrenos baldios, quando ouviu o anúncio de um novo assalto. Como não tinha nada em seu poder o ladrão, irritado, disparou duas vezes contra Roberto e mais uma vez a bala não o acertou mortalmente. Sangrando com um tiro de raspão no braço, Roberto gritou por socorro. Um homem muito estranho, parecendo um zumbi se aproximou. O tal homem era um viciado em crack e tentou roubar Roberto que, ferido, ainda lutou para que o viciado não levasse um pedaço de carne que trazia do mercado. O homem deu algumas pauladas em Roberto que lutou ferozmente. O cansaço enorme quase o matou, mas ele fugiu da “dita”, mais uma vez.
Já cansado e perplexo com tudo que lhe havia acontecido, abriu o portão de sua casa, deu mais alguns passos e ouviu a risada de sua mulher. Seu rosto se iluminou, por quatro vezes quase havia morrido, mas a vontade de estar ali e contar tudo para Luisa era maior. Poder chegar em casa e beijá-la era uma vontade maior que a força da própria morte. Nesse momento seu sorriso se fechou, ouviu a risada de um homem. Pensou por alguns segundos quem poderia estar na sua casa, aquela hora. Olhando o relógio percebeu que faltava ainda três horas do horário normal que ele chegava em casa. Desejou morrer, não tinha coragem de entrar. Não podia acreditar que seu amor estava lhe traindo, não ela, não depois de tudo que ele havia passado. Dentro da casa um silêncio, Roberto espiava na janela e de repente um impacto o apagou.
Lentamente Roberto abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi sua mulher Luisa. Pensou que tudo fosse um sonho e sorriu, mas isso durou pouco, uma voz da cozinha lhe tirou o sorriso do rosto, era a voz do homem. Roberto ainda meio grogue, levantou, pegou uma faca que estava em cima da mesa e partiu para cima dele. Iniciaram uma briga feroz, aos gritos de “pára, pára” da sua mulher. Ela tentava conter a fúria do marido traído. O homem o dominou com facilidade, colocou-o no sofá e explicou o que estava acontecendo. Após algum tempo de conversa, ferido e completamente perdido, Roberto aceitou a traição da esposa, abatido e perplexo permitiu que ela partisse com seu novo amor. Enquanto ela arrumava suas coisas, Roberto refletiu sobre tudo que acontecerá com ele. Juntou todos os sinais: o carro, o assalto, o muro, o novo assalto, o viciado, o amante e percebeu que a morte tinha tentado livrá-lo da decepção daquela traição. Sentiu uma forte dor no peito, seu coração estava partido, não tinha mais motivos para sorrir, abriu a gaveta da pia e pegou um veneno de rato, colocou num copo com água e bebeu. A mulher e seu amante estavam saindo da casa quando olharam Roberto e se despediram. Agora Roberto sabia que encontraria alguém que o queria, tranqüilo, disse adeus.
FIM
Cesar Figueiredo
20-11-10
Naquele dia, Roberto saiu de casa feliz, estava casado com uma mulher maravilhosa, zelosa e paciente com todas as adversidades que a vida lhe mostrava quase que diariamente. Ao atravessar a rua, quase foi atropelado. Sua cabeça não estava ali. Olhou para o lado, ainda sob os xingamentos do motorista do carro que quase o pegou, desculpou-se e seguiu andando. Mais do que driblar um carro, ele driblava pela primeira vez a morte.
Já era quase meio dia quando Roberto entrou no banco para depositar o dinheiro que juntou vendendo doces na sinaleira. Pensativo, ele lembrou do acidente e da sorte que teve ao conseguir desviar daquele carro, nesse momento dois homens armados invadiram a agência e anunciaram o assalto. Os dois homens poderiam facilmente ser confundidos com crianças, estavam nervosos. Possivelmente era o primeiro assalto da vida daqueles moleques, todos percebiam pelas vozes finas e gestos forçados, a infância perdida naqueles ladrões. O primeiro menino que, apesar da pouca idade, carregava uma arma, ordenou que o segundo passasse com um saco de lixo preto e recolhesse celulares e carteiras. Estava bem assustado, com uma mão segurava o saco e na outra uma arma prateada. O homem foi passando e recolhendo os pertences das pessoas. Quando chegou a vez de Roberto, ele colocou a mão no bolso e inesperadamente o assaltante puxou o gatilho, o disparo foi ouvido de longe, apesar do movimento daquela área da cidade. Os ladrões saíram correndo, levando o que tinham roubado. Quando a polícia chegou Roberto estava estático, com os olhos vidrados. Não havia marca de sangue, quase como um milagre o tiro a queima roupa havia acertado em cheio a máquina de dinheiro a trinta centímetros de distância de Roberto. Fora muita sorte ele não ter morrido. Roberto lembrou do carro e sorriu, tinha um brilho em seu olhar, havia fugido da morte pela segunda vez.
Roberto saiu introspectivo do banco, ainda sob o impacto do que havia acontecido. Andou mais alguns metros e entrou num bar onde tomou algumas cervejas. Na saída, caminhava numa avenida movimentada, já havia caído a noite. Parou para dar uma mijada, ali mesmo na rua, escorado em um muro velho. Debruçado no muro, ouviu um barulho, deu uma passo para trás e viu aquela parede de tijolos cair aos seus pés. Um novo milagre fazia ele escapar ileso. Parecia que a morte lhe queria, mas a vontade de voltar para casa e ver sua mulher era maior que a sorte da morte que perdeu pela terceira vez.
Uma hora mais tarde Roberto descia do ônibus perto da sua casa, em um bairro afastado do centro da cidade. Caminhou por alguns minutos, atravessou um matagal e alguns terrenos baldios, quando ouviu o anúncio de um novo assalto. Como não tinha nada em seu poder o ladrão, irritado, disparou duas vezes contra Roberto e mais uma vez a bala não o acertou mortalmente. Sangrando com um tiro de raspão no braço, Roberto gritou por socorro. Um homem muito estranho, parecendo um zumbi se aproximou. O tal homem era um viciado em crack e tentou roubar Roberto que, ferido, ainda lutou para que o viciado não levasse um pedaço de carne que trazia do mercado. O homem deu algumas pauladas em Roberto que lutou ferozmente. O cansaço enorme quase o matou, mas ele fugiu da “dita”, mais uma vez.
Já cansado e perplexo com tudo que lhe havia acontecido, abriu o portão de sua casa, deu mais alguns passos e ouviu a risada de sua mulher. Seu rosto se iluminou, por quatro vezes quase havia morrido, mas a vontade de estar ali e contar tudo para Luisa era maior. Poder chegar em casa e beijá-la era uma vontade maior que a força da própria morte. Nesse momento seu sorriso se fechou, ouviu a risada de um homem. Pensou por alguns segundos quem poderia estar na sua casa, aquela hora. Olhando o relógio percebeu que faltava ainda três horas do horário normal que ele chegava em casa. Desejou morrer, não tinha coragem de entrar. Não podia acreditar que seu amor estava lhe traindo, não ela, não depois de tudo que ele havia passado. Dentro da casa um silêncio, Roberto espiava na janela e de repente um impacto o apagou.
Lentamente Roberto abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi sua mulher Luisa. Pensou que tudo fosse um sonho e sorriu, mas isso durou pouco, uma voz da cozinha lhe tirou o sorriso do rosto, era a voz do homem. Roberto ainda meio grogue, levantou, pegou uma faca que estava em cima da mesa e partiu para cima dele. Iniciaram uma briga feroz, aos gritos de “pára, pára” da sua mulher. Ela tentava conter a fúria do marido traído. O homem o dominou com facilidade, colocou-o no sofá e explicou o que estava acontecendo. Após algum tempo de conversa, ferido e completamente perdido, Roberto aceitou a traição da esposa, abatido e perplexo permitiu que ela partisse com seu novo amor. Enquanto ela arrumava suas coisas, Roberto refletiu sobre tudo que acontecerá com ele. Juntou todos os sinais: o carro, o assalto, o muro, o novo assalto, o viciado, o amante e percebeu que a morte tinha tentado livrá-lo da decepção daquela traição. Sentiu uma forte dor no peito, seu coração estava partido, não tinha mais motivos para sorrir, abriu a gaveta da pia e pegou um veneno de rato, colocou num copo com água e bebeu. A mulher e seu amante estavam saindo da casa quando olharam Roberto e se despediram. Agora Roberto sabia que encontraria alguém que o queria, tranqüilo, disse adeus.
FIM
Cesar Figueiredo
20-11-10
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
A partida
Nos melhores dias com ele eu sonhava que estava mais do que feliz, não saberia dizer o real sentimento que tomava conta de mim. Naqueles minutos maravilhosos que passávamos juntos, seu olhar era amigo e me passava confiança, coisa difícil nos dias de hoje. Quem realmente confia em alguém ?
Mais do que confiar é dividir e isso sim é fruto de uma construção interna de reabilitação com a convivência humana, por mais que pensasse que eles são inferiores a mim, não os via assim, porque cada segundo de vida que tenho penso em fazer o bem, não importa se acreditam em mim ou não, não faço para impressionar quem está ao meu lado.
Meus problemas começaram depois de dez anos vivendo juntos. Ele não falava e sendo assim, eu tentava adivinhar o que se passava naquela cabeça, que horas se comunicava, horas me deixava no ar com a possibilidade de estar pensando qualquer coisa.
Mas naquela manhã de inverno, ele nem sequer levantou do sofá, lugar que ele adorava. Chamei para comer, ele comia pouco , uma vez por dia no máximo, mas nem sinal, meu companheiro de dez anos não me via e nem me ouvia mais. Uma tristeza tomou conta de mim, pressenti que ele estava me deixando, um frio na barriga me provocou lágrimas nos olhos, uma sensação de vazio na alma, uma vontade de gritar para o mundo: “não me deixe aqui sozinha”. Mas o mundo e seus problemas não iriam me dar bola, não como ele me dava.
Sempre que chegava em casa cansada das horas intermináveis de trabalho, dia após dia trabalhando , sem nenhuma vontade de estar naquele ambiente de trabalho machista e vulgar, onde cada um cuida só do seu rabo e nem imaginam que sofremos e que temos problemas . Minha única alegria era voltar para casa e ser recebida com amor de alguém que realmente se preocupava comigo. Seu carinho era o meu eterno conforto. Não havia espaço para ciúmes, toda vez que conhecia alguém legal que pudesse haver algum interesse, ele se mostrava agregador sem espantar a nova companhia. Isso sim é um amigo, às vezes fazia cagadas, coisas comuns para quem passava o dia inteiro sozinho sem falar com ninguém, só esperando eu chegar cansada, estressada e carente. Pronto, ao abrir a porta minha vida mudava, as cores da casa mudavam. Agora estou aqui, prestes a ter que dar fim a coisa mais importante que já me aconteceu. Não vou ser egoísta nessa hora, claro que estou sofrendo, como poderia ser diferente, ele é tudo que eu tenho, mas não posso pensar assim. Seu tempo comigo está para acabar e tenho que respeitar sua decisão, sei que por ele ficaria mais cem anos comigo, mas a vida não funciona assim, cada um com seu tempo. Sobra nessas horas as lembranças e o sorriso que ele me fez sentir nesse tempo que estivemos juntos.
Quando ajudei –o a sair do sofá, tadinho, ele estava tão mal que mal conseguia respirar, mas ainda demonstrava carinho com aquele seu jeito meio estabanado. Da minha casa até a clinica ele chorava, eu chorava, foi quando em um ato sublime eu lhe disse: “meu amor por ti é o maior e único que tive até hoje, para onde tu for agora, saiba que um dia a gente vai se encontrar. Só descobri o que realmente significa amor depois que te conheci”. Naquele momento senti que ele me ouviu novamente. Entramos em uma sala, a doutora o levou de mim e depois de algum tempo ela me disse: “a senhora fez o certo, ele descansou”. Assim me despedi de alguém especial, meu cachorro Bozó. Estranho isso, não é¿ Pensei que ele tinha só dez anos de idade, mas ele me enganou direitinho, morreu com 70 anos de muitas alegrias.
Mais do que confiar é dividir e isso sim é fruto de uma construção interna de reabilitação com a convivência humana, por mais que pensasse que eles são inferiores a mim, não os via assim, porque cada segundo de vida que tenho penso em fazer o bem, não importa se acreditam em mim ou não, não faço para impressionar quem está ao meu lado.
Meus problemas começaram depois de dez anos vivendo juntos. Ele não falava e sendo assim, eu tentava adivinhar o que se passava naquela cabeça, que horas se comunicava, horas me deixava no ar com a possibilidade de estar pensando qualquer coisa.
Mas naquela manhã de inverno, ele nem sequer levantou do sofá, lugar que ele adorava. Chamei para comer, ele comia pouco , uma vez por dia no máximo, mas nem sinal, meu companheiro de dez anos não me via e nem me ouvia mais. Uma tristeza tomou conta de mim, pressenti que ele estava me deixando, um frio na barriga me provocou lágrimas nos olhos, uma sensação de vazio na alma, uma vontade de gritar para o mundo: “não me deixe aqui sozinha”. Mas o mundo e seus problemas não iriam me dar bola, não como ele me dava.
Sempre que chegava em casa cansada das horas intermináveis de trabalho, dia após dia trabalhando , sem nenhuma vontade de estar naquele ambiente de trabalho machista e vulgar, onde cada um cuida só do seu rabo e nem imaginam que sofremos e que temos problemas . Minha única alegria era voltar para casa e ser recebida com amor de alguém que realmente se preocupava comigo. Seu carinho era o meu eterno conforto. Não havia espaço para ciúmes, toda vez que conhecia alguém legal que pudesse haver algum interesse, ele se mostrava agregador sem espantar a nova companhia. Isso sim é um amigo, às vezes fazia cagadas, coisas comuns para quem passava o dia inteiro sozinho sem falar com ninguém, só esperando eu chegar cansada, estressada e carente. Pronto, ao abrir a porta minha vida mudava, as cores da casa mudavam. Agora estou aqui, prestes a ter que dar fim a coisa mais importante que já me aconteceu. Não vou ser egoísta nessa hora, claro que estou sofrendo, como poderia ser diferente, ele é tudo que eu tenho, mas não posso pensar assim. Seu tempo comigo está para acabar e tenho que respeitar sua decisão, sei que por ele ficaria mais cem anos comigo, mas a vida não funciona assim, cada um com seu tempo. Sobra nessas horas as lembranças e o sorriso que ele me fez sentir nesse tempo que estivemos juntos.
Quando ajudei –o a sair do sofá, tadinho, ele estava tão mal que mal conseguia respirar, mas ainda demonstrava carinho com aquele seu jeito meio estabanado. Da minha casa até a clinica ele chorava, eu chorava, foi quando em um ato sublime eu lhe disse: “meu amor por ti é o maior e único que tive até hoje, para onde tu for agora, saiba que um dia a gente vai se encontrar. Só descobri o que realmente significa amor depois que te conheci”. Naquele momento senti que ele me ouviu novamente. Entramos em uma sala, a doutora o levou de mim e depois de algum tempo ela me disse: “a senhora fez o certo, ele descansou”. Assim me despedi de alguém especial, meu cachorro Bozó. Estranho isso, não é¿ Pensei que ele tinha só dez anos de idade, mas ele me enganou direitinho, morreu com 70 anos de muitas alegrias.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Um dia inesquecível.
Têm muitos assuntos que giram em torno dos seres humanos, mas um que eu nunca vou esquecer: a primeira vez (pelo menos que eu tenha conhecimento), que fui corno.
As coisas não andavam muito bem pro meu lado naquela época, meados de 95/96.
Lembro que era frio, eu viajava muito por conta da banda que eu tocava, namorava uma mina sinistra mas que sempre se mostrava séria, pelo menos até aquele dia triste de inverno.
Eu sempre fui muito ciumento, mas até então EU era ciumento, não tinha convivido com uma mulher ciumenta. Dizem que as mulheres são horríveis quando pensam em trair, tu pode trancá-las no guarda roupa que elas te traem com o cabide.
Pois bem, naquele sábado frio eu saí de casa no final da tarde para tocar no interior, fiz o show, distribuí alguns autógrafos e voltei para Porto Alegre, minha querida terra natal. Quando cheguei em casa notei que não tinha ninguém, o que não era muito difícil de perceber, afinal de contas eu morava sozinho. Então resolvi tomar uma ceva em um bar próximo a minha casa e foi quando eu encontrei um amigo que me deu a seguinte informação:
- Aí Padeiro, tu abre o olho com a tua mina...
Eu estranhei e retruquei.
- Como assim, mano? - eu sempre chamo todo mundo de mano.
Ele tava meio bêbado, tentou desconversar, mas eu não aceitei e o joguei contra a parede.
- Ah não, começou agora termina...
Sem pestanejar ele olhou nos meus olhos e me disse a pior coisa que um homem pode ouvir, depois de “teu pau é pequeno”.
- Bah Padeiro! Desculpa mesmo mano, mas eu vi tua mina de beijo com um cara agora há pouco, ali na Cidade Baixa.
Eu estava no Bom Fim, sentei na cadeira novamente, tomei um copo de cerveja como se fosse água, minhas mãos esquentaram, comecei a suar.
- Como assim? – eu disse, e meu amigo respondeu:
- Sabe quando tem uma mina e um cara se beijando? Imagina que a mina era a tua!
Eu fiquei cego, saí do bar e voltei pra casa, meio sem saber o que fazer, até então isso nunca tinha acontecido comigo, eu chorava de raiva e não parava de ligar a cobrar pro celular dela. Como ela em nenhum momento atendeu, eu praticamente não dormi.
No domingo à tarde minha cabeça doía de tanto pensar na possibilidades de não ser ela, logo depois minha cabeça doía ainda mais com a possibilidade de ser ela, mais tarde minha cabeça doía tanto com o fato de ser corno que eu fiz o que todo corno faz: bebi! Comecei a beber em um bar ali pela Goethe.
Não demorou para aparecer algum conhecido, nessas horas sempre aparece alguém com no mínimo dois objetivos: ou te ajuda a superar a dor, o que é bem mais difícil ou pra rir da tua cara, o que é bem mais comum.
Nesse caso era para me dar uma força.
- E aí, Padeiro! Que cara é essa brother?
Eu, meio desanimado, pensei em inventar alguma história do tipo, “não passei no vestibular”, mas não ia funcionar, ninguém, fora os C.D.Fs de plantão, tomam porre e choram que nem criança porque não passaram no vestibular.
Então achei melhor contar o que tinha me acontecido.
Vendo meu estado, esse amigo abriu a carteira e puxou um talão, tipo talão de cheque, esse talão era a entrada para um pagode bem pegado, pra burguês, no Veneza.
Ele olhou nos meus olhos e me falou:
- Porra Padeiro, levanta essa moral! Um cara bonito que nem tu, cheio da chinfra, toca em banda, tem um monte de mulher babando...
Por um segundo eu achei que fosse uma cantada, mas fazer o que, né!
- Porra mano, pega essas entradas, vai em casa, coloca uma roupa legal e vai lá comer uma mulher diferente, mano.
Eu limpei as lágrimas da cara, agradeci e guardei as entradas. Terminei minha cerveja e voltei para casa. No meio do caminho, na Vasco da Gama, eu mesmo vi, ninguém me contou, ela, aquela a quem eu tinha jurado amor eterno (veja bem, jurado amor eterno, não fidelidade) com outro cara no outro lado da rua. Tudo voltou na minha cabeça, menos o par de guampas, pois esse já estava lá há mais de 24 horas. Olhei pra baixo e segui até minha casa. Coloquei a melhor roupa que eu tinha, não era bem o que eu queria, mas era a única que eu tinha...
Depois de algum tempo cheguei ao Veneza, já estava se formando uma fila, devia ter umas vinte pessoas, mas eu, como sempre, me recusei a ficar na fila, acreditava que sairia algum amigo músico e eu passaria na frente daquele bando de mauricinho e patricinha com roupa de verão. Mas a única coisa que passou foi o tempo.
Duas horas mais tarde eu continuava escorado no mesmo carro e as vinte pessoas que estavam na fila, como num passe de mágica haviam se transformado em mais de quarenta, que agora estavam me olhando como se estivessem rindo da minha cara.
Mas eu sempre fui um cara de muita fé e sabia que alguma coisa estava para acontecer... Minutos depois desse pensamento eu levantei a cabeça e olhei para a fila, que estava maior, e olhei para a porta do bar, a porta era daquelas portas vai-e-vem, tipo de caubói, sabe?
Pois nesse exato instante aquela porta se abriu. Devido ao frio que estava lá fora ou ao calor que estava lá dentro, quando a porta se abriu saiu uma fumaça branca e do meio dessa fumaça surgiu uma loira linda, um metro e oitenta, de mini saia branca com cinta-liga da mesma cor e sapatos combinando. Eu continuava escorado no carro, seu olhar era tão penetrante que eu senti a mesma coisa que as mais de quarenta pessoas que estavam na fila. Ela começou a vir na minha direção como se eu fosse o único homem da terra. E o melhor de tudo, ela era muito, mas muito mais linda que minha ex-namorada.
Ela vinha se aproximando e eu com um olho fixo nela e o outro fixo na fila, conforme ela andava e a fila a seguia com os olhos, eu comecei a gostar daquilo, comecei a me sentir homem novamente. Eu sentia as guampas diminuindo na minha cabeça, eu sentia que o mundo era pequeno demais para mim naquele momento, meu ego transbordou e eu quase me afoguei nele. Então, quando o mundo inteiro tinha parado para ver a cena mais linda de amor daquele dia, quando até o frio deu uma trégua, quando as cores e as coisas ficaram mais lentas, ela parou na minha frente e, lentamente, retirou um real da bolsa, me deu, entrou no carro e foi embora.
César Figueiredo
As coisas não andavam muito bem pro meu lado naquela época, meados de 95/96.
Lembro que era frio, eu viajava muito por conta da banda que eu tocava, namorava uma mina sinistra mas que sempre se mostrava séria, pelo menos até aquele dia triste de inverno.
Eu sempre fui muito ciumento, mas até então EU era ciumento, não tinha convivido com uma mulher ciumenta. Dizem que as mulheres são horríveis quando pensam em trair, tu pode trancá-las no guarda roupa que elas te traem com o cabide.
Pois bem, naquele sábado frio eu saí de casa no final da tarde para tocar no interior, fiz o show, distribuí alguns autógrafos e voltei para Porto Alegre, minha querida terra natal. Quando cheguei em casa notei que não tinha ninguém, o que não era muito difícil de perceber, afinal de contas eu morava sozinho. Então resolvi tomar uma ceva em um bar próximo a minha casa e foi quando eu encontrei um amigo que me deu a seguinte informação:
- Aí Padeiro, tu abre o olho com a tua mina...
Eu estranhei e retruquei.
- Como assim, mano? - eu sempre chamo todo mundo de mano.
Ele tava meio bêbado, tentou desconversar, mas eu não aceitei e o joguei contra a parede.
- Ah não, começou agora termina...
Sem pestanejar ele olhou nos meus olhos e me disse a pior coisa que um homem pode ouvir, depois de “teu pau é pequeno”.
- Bah Padeiro! Desculpa mesmo mano, mas eu vi tua mina de beijo com um cara agora há pouco, ali na Cidade Baixa.
Eu estava no Bom Fim, sentei na cadeira novamente, tomei um copo de cerveja como se fosse água, minhas mãos esquentaram, comecei a suar.
- Como assim? – eu disse, e meu amigo respondeu:
- Sabe quando tem uma mina e um cara se beijando? Imagina que a mina era a tua!
Eu fiquei cego, saí do bar e voltei pra casa, meio sem saber o que fazer, até então isso nunca tinha acontecido comigo, eu chorava de raiva e não parava de ligar a cobrar pro celular dela. Como ela em nenhum momento atendeu, eu praticamente não dormi.
No domingo à tarde minha cabeça doía de tanto pensar na possibilidades de não ser ela, logo depois minha cabeça doía ainda mais com a possibilidade de ser ela, mais tarde minha cabeça doía tanto com o fato de ser corno que eu fiz o que todo corno faz: bebi! Comecei a beber em um bar ali pela Goethe.
Não demorou para aparecer algum conhecido, nessas horas sempre aparece alguém com no mínimo dois objetivos: ou te ajuda a superar a dor, o que é bem mais difícil ou pra rir da tua cara, o que é bem mais comum.
Nesse caso era para me dar uma força.
- E aí, Padeiro! Que cara é essa brother?
Eu, meio desanimado, pensei em inventar alguma história do tipo, “não passei no vestibular”, mas não ia funcionar, ninguém, fora os C.D.Fs de plantão, tomam porre e choram que nem criança porque não passaram no vestibular.
Então achei melhor contar o que tinha me acontecido.
Vendo meu estado, esse amigo abriu a carteira e puxou um talão, tipo talão de cheque, esse talão era a entrada para um pagode bem pegado, pra burguês, no Veneza.
Ele olhou nos meus olhos e me falou:
- Porra Padeiro, levanta essa moral! Um cara bonito que nem tu, cheio da chinfra, toca em banda, tem um monte de mulher babando...
Por um segundo eu achei que fosse uma cantada, mas fazer o que, né!
- Porra mano, pega essas entradas, vai em casa, coloca uma roupa legal e vai lá comer uma mulher diferente, mano.
Eu limpei as lágrimas da cara, agradeci e guardei as entradas. Terminei minha cerveja e voltei para casa. No meio do caminho, na Vasco da Gama, eu mesmo vi, ninguém me contou, ela, aquela a quem eu tinha jurado amor eterno (veja bem, jurado amor eterno, não fidelidade) com outro cara no outro lado da rua. Tudo voltou na minha cabeça, menos o par de guampas, pois esse já estava lá há mais de 24 horas. Olhei pra baixo e segui até minha casa. Coloquei a melhor roupa que eu tinha, não era bem o que eu queria, mas era a única que eu tinha...
Depois de algum tempo cheguei ao Veneza, já estava se formando uma fila, devia ter umas vinte pessoas, mas eu, como sempre, me recusei a ficar na fila, acreditava que sairia algum amigo músico e eu passaria na frente daquele bando de mauricinho e patricinha com roupa de verão. Mas a única coisa que passou foi o tempo.
Duas horas mais tarde eu continuava escorado no mesmo carro e as vinte pessoas que estavam na fila, como num passe de mágica haviam se transformado em mais de quarenta, que agora estavam me olhando como se estivessem rindo da minha cara.
Mas eu sempre fui um cara de muita fé e sabia que alguma coisa estava para acontecer... Minutos depois desse pensamento eu levantei a cabeça e olhei para a fila, que estava maior, e olhei para a porta do bar, a porta era daquelas portas vai-e-vem, tipo de caubói, sabe?
Pois nesse exato instante aquela porta se abriu. Devido ao frio que estava lá fora ou ao calor que estava lá dentro, quando a porta se abriu saiu uma fumaça branca e do meio dessa fumaça surgiu uma loira linda, um metro e oitenta, de mini saia branca com cinta-liga da mesma cor e sapatos combinando. Eu continuava escorado no carro, seu olhar era tão penetrante que eu senti a mesma coisa que as mais de quarenta pessoas que estavam na fila. Ela começou a vir na minha direção como se eu fosse o único homem da terra. E o melhor de tudo, ela era muito, mas muito mais linda que minha ex-namorada.
Ela vinha se aproximando e eu com um olho fixo nela e o outro fixo na fila, conforme ela andava e a fila a seguia com os olhos, eu comecei a gostar daquilo, comecei a me sentir homem novamente. Eu sentia as guampas diminuindo na minha cabeça, eu sentia que o mundo era pequeno demais para mim naquele momento, meu ego transbordou e eu quase me afoguei nele. Então, quando o mundo inteiro tinha parado para ver a cena mais linda de amor daquele dia, quando até o frio deu uma trégua, quando as cores e as coisas ficaram mais lentas, ela parou na minha frente e, lentamente, retirou um real da bolsa, me deu, entrou no carro e foi embora.
César Figueiredo
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