Hoje no Correio do Povo está estampado uma foto do Mc Donalds da Andradas fechado por ter entre seus frequentadores, nada mais nada menos que baratas e ratos, sendo que esse são mais que clientes, são moradores, não só do prédio onde fica a lanchonete, mas de todo centro de Porto Alegre.
O fato do Mc Donalds ter baratas e ratos não me ...surpreende, pois a baixa qualidade das coisas de algumas franquias é absurda, o que mostra mais uma vez que merda de sociedade maluca que temos aqui na capital. Lembro quando abriu o Mc do Rua da Praia Shopping, eu mesmo procurei emprego, tinha uns quatorze anos de idade e a resposta não poderia ser pior: como eu morava longe não entrava nos planos da multinacional. Percebi que naquela época não haviam muitos negros também, coisa que foi mudando com o passar do tempo. Nos Estados Unidos o Mc é uma rango "chinelo" que praticamente só tem nos guetos, não muito diferente do Habbib's, que em São Paulo é outra chinelagem. Onde eu quero chegar com todo esse papo? Nós temos o costume de dar uma importância tão grande a tudo que vem de fora, e aí falo de tudo ou quase tudo que possamos imaginar. O Mc Donalds chegou aqui com uma pompa de multinacional, mas ninguém fez questão de fazer um estudo sobre os males que poderia fazer a saúde, assim como não fizeram um estudo para saber que males poderiam nos fazer as músicas enlatadas que recebíamos nos anos oitenta, assim como a moda e outras tantas coisas que todos podem e devem me ajudar a lembrar.
O que me deixa muito chateado é com a nossa sociedade gaúcha que sempre teve orgulho de não ter virado uma São Paulo, quando dizia que "aqui pro sul não vinha nordestino", mas vem tênis coreano e Mc Donalds, a prova viva do nosso bairrismo. O comercial da Oi é um exemplo vivo disso, aceitamos tudo que vem de fora do país, como se fosse realmente acrescentar alguma coisa em nossas vidas e menosprezamos o resto do país e às vezes até mesmo o nosso próprio povo, por que é interiorano. Não lutamos na guerra e damos mais valor a Argentina. Somos todos preconceituosos, cada um de nós, pior, somos metidos a besta, basta olhar nas publicações, onde cada um arrota mais grandeza que o outro. Sei que vou criar alguns inimigos, mas a vida é assim mesmo, tenho certeza que muitos voltarão a comer no Mc e vão se achar pessoas especiais por comerem um rango de americano, ou vão passear na Goethe para comer no Habbib's, mas convenhamos, eu prefiro muito mais o xis da Lancheria do Parque, pois se aparecer uma barata tenho certeza que o B.A. mata.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Entre o Céu e o Inferno
Tem coisas que foram implantadas nas nossas cabeças que, às vezes, demoramos uma vida inteira pra desmistificá-las do cérebro.
Coisas que não combinam como melancia com leite, comida doce com salgada e por aí vai. Sexo é um tabu na vida da maioria das pessoas e uma das tantas coisas que afligem raça humana, mas nada se compara a relig...ião. Por religião já se matou, se roubou e se traiu, claro que motivados pela ganância, dinheiro e poder.
A religião tem na sua força maior a fé e o medo, dizem que a fé move montanhas, mas todos nós sabemos que o medo também, o covarde é mais perigoso que o valente.
Há séculos atrás, o medo da ciência fez com que a religião matasse em nome da fé, o que é um absurdo. Mas não era bem em nome da fé que a religião estava sendo usada e sim em nome da tal ganância e do poder.
A religião católica que nos dias de hoje perde espaço para outras religiões, foi uma assassina sem escrúpulos e sem alma durante anos, matando pessoas que acreditavam em outras religiões ou que não acreditavam em nada. Transformando pessoas simples em alvos de fogueiras e tudo em nome de um Cristo, meu Deus! Hoje com a globalização e os contatos diários com seitas, crenças e tudo mais, percebo que a fé se tornou um mercado que mexe com milhões e com a vida de outros milhões de pessoas.
Pessoas dizendo para se colocar um copo d'água em cima da televisão para ser abençoada... abençoada por quem?
Nós transformamos a religião em negócio e a fé em moeda. Não se compra paz, não se compra fé.
Um dia me perguntaram o que todas as religiões tem em comum, respondi que só poderia ser a fé, pois é nisso que acredito. Aos católicos e evangélicos que acreditam em vida após a morte, lamento por essas pessoas, aos que acreditam em padres e pastores, lamento por elas também. Padres fazem sexo com crianças, pastores fazem orgias em hotéis com devotas, que participam daquilo porque são humanos, não há nada de errado em não acreditar nessas religiões, o que não podemos perder é a fé, o que não podemos é deixar de acreditar.
O ser humano consegue colocar-se em uma posição tal que acredita ser a melhor coisa que existe na terra, e não é! Não somos melhores que um cachorro e os que acreditam que são, vai um lembrete, quando se morre vira-se adubo, igual a tudo o que é vivo e esse é o seu legado, morrer e dar origem a outra vida em forma de adubo.
Não posso deixar de falar de religião, por mais que muitas pessoas possam achar que estou blasfemando, não me importo com isso, igrejas não pagam impostos, eu pago.
Celibato é uma idiotice, que não nos leva a lugar algum, a religião católica atrasou a humanidade de um crescimento notório. Os incas e os astecas são os mais evoluídos, eles não eram católicos. Lutero largou de mão a religião católica por não concordar com os abusos, a França bateu de frente com os católicos e assim, muitos outros o fizeram.
Hoje a religião católica, que perde força a cada dia que passa, volta atrás em relação a coisas que ela mesmo dizia serem "palavras de deus", coisas como usar camisinha, aborto, estupro, homosexualismo. Isso tudo era tabu na religião e veja hoje, até na internet:eles tem página no Facebook e agora tem um programa para que tu, através do celular, comece a guardar teus pecados para depois ter ideia de quantos fez durante o tempo que não se confessou... Quem se confessa hoje em dia?
Meus amigos, assistam o filme " O Crime do Padre Amaro", leiam "O Santo Inquerito" de Dias Gomes, não posso admitir que mais e mais pessoas passem uma vida sobre um manto de mentiras da fé, que é a esperança em forma de energia, pois é isso que somos, energia.
Minha fé na ciência é maior do que minha fé nas pessoas que se dizem religiosos, sigo firme nas palavras de Gilberto Gil, parodiada na língua do povo...
"Uma com fé eu dou, a segunda custuma falha"
Coisas que não combinam como melancia com leite, comida doce com salgada e por aí vai. Sexo é um tabu na vida da maioria das pessoas e uma das tantas coisas que afligem raça humana, mas nada se compara a relig...ião. Por religião já se matou, se roubou e se traiu, claro que motivados pela ganância, dinheiro e poder.
A religião tem na sua força maior a fé e o medo, dizem que a fé move montanhas, mas todos nós sabemos que o medo também, o covarde é mais perigoso que o valente.
Há séculos atrás, o medo da ciência fez com que a religião matasse em nome da fé, o que é um absurdo. Mas não era bem em nome da fé que a religião estava sendo usada e sim em nome da tal ganância e do poder.
A religião católica que nos dias de hoje perde espaço para outras religiões, foi uma assassina sem escrúpulos e sem alma durante anos, matando pessoas que acreditavam em outras religiões ou que não acreditavam em nada. Transformando pessoas simples em alvos de fogueiras e tudo em nome de um Cristo, meu Deus! Hoje com a globalização e os contatos diários com seitas, crenças e tudo mais, percebo que a fé se tornou um mercado que mexe com milhões e com a vida de outros milhões de pessoas.
Pessoas dizendo para se colocar um copo d'água em cima da televisão para ser abençoada... abençoada por quem?
Nós transformamos a religião em negócio e a fé em moeda. Não se compra paz, não se compra fé.
Um dia me perguntaram o que todas as religiões tem em comum, respondi que só poderia ser a fé, pois é nisso que acredito. Aos católicos e evangélicos que acreditam em vida após a morte, lamento por essas pessoas, aos que acreditam em padres e pastores, lamento por elas também. Padres fazem sexo com crianças, pastores fazem orgias em hotéis com devotas, que participam daquilo porque são humanos, não há nada de errado em não acreditar nessas religiões, o que não podemos perder é a fé, o que não podemos é deixar de acreditar.
O ser humano consegue colocar-se em uma posição tal que acredita ser a melhor coisa que existe na terra, e não é! Não somos melhores que um cachorro e os que acreditam que são, vai um lembrete, quando se morre vira-se adubo, igual a tudo o que é vivo e esse é o seu legado, morrer e dar origem a outra vida em forma de adubo.
Não posso deixar de falar de religião, por mais que muitas pessoas possam achar que estou blasfemando, não me importo com isso, igrejas não pagam impostos, eu pago.
Celibato é uma idiotice, que não nos leva a lugar algum, a religião católica atrasou a humanidade de um crescimento notório. Os incas e os astecas são os mais evoluídos, eles não eram católicos. Lutero largou de mão a religião católica por não concordar com os abusos, a França bateu de frente com os católicos e assim, muitos outros o fizeram.
Hoje a religião católica, que perde força a cada dia que passa, volta atrás em relação a coisas que ela mesmo dizia serem "palavras de deus", coisas como usar camisinha, aborto, estupro, homosexualismo. Isso tudo era tabu na religião e veja hoje, até na internet:eles tem página no Facebook e agora tem um programa para que tu, através do celular, comece a guardar teus pecados para depois ter ideia de quantos fez durante o tempo que não se confessou... Quem se confessa hoje em dia?
Meus amigos, assistam o filme " O Crime do Padre Amaro", leiam "O Santo Inquerito" de Dias Gomes, não posso admitir que mais e mais pessoas passem uma vida sobre um manto de mentiras da fé, que é a esperança em forma de energia, pois é isso que somos, energia.
Minha fé na ciência é maior do que minha fé nas pessoas que se dizem religiosos, sigo firme nas palavras de Gilberto Gil, parodiada na língua do povo...
"Uma com fé eu dou, a segunda custuma falha"
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Assim caminha a humanidade
É triste ver o estado que chegamos, percebo que o Brasil se ajuda em momentos de crise, como essa que vemos nos noticiários da tv.
O que deveriámos realmente ver nesse momento é que estamos a um passo de destruir a única coisa que nos resta, nossa própria vida.
No dia que passou pela cabeça de algum cientista maluco que o homem, o in...significante homem, poderia destruir o mundo, o mesmo se achou um deus, o que não somos.
Não há como lutar contra a natureza e ela vem nos dando provas, como se precisasse, há anos, há milhares de anos.
De tempos em tempos a natureza mostra seu poder e aí vemos crianças sem lar e familiares chorando suas perdas materiais. Onde já se viu um morro destruir uma vida inteira de consumisto exacerbado! Pobres mortais que se acham donos do planeta...
O que me deixa triste é saber que em abril o lixo estará entupindo bueiros novamente, estaremos jogando lixo nas ruas, comprando o que não precisamos, destruindo a natureza para construir arranha-céus, comprando carros para andarmos sozinhos nas noites de sábado enquanto bebemos, fumamos e cheiramos, sem sequer pensarmos onde jogamos a bituca de cigarro ou mesmo a latinha de cerveja.
Quem se preocupa em ajudar os desabrigados nesse momento deveria também lembrar-se que durante o ano, cada vez que eles jogarem lixo nas ruas, estarão provocando suas próprias mortes no verão seguinte.
Temos que nos ajudar nesse momento difícil, mas temos a obrigação de nos lembrarmos que isso é nossa culpa, só nossa, não dos menos informados, não dos menos favorecidos, mas de todos, todos que circulam arrotando suas façanhas, todos que se julgam melhores que os que moram lá nas areas da tragédia.
A tragédia se mostra com a nossa cara, com o nosso sofrimento, mas principalmente com a nossa falta de responsabilidade, não podemos achar que o fato de mandar uma cesta básica ou alguns litros de água a quem precisa nos isenta da responsabilidade de um todo, somos parte de um ciclo que está prestes a acabar, como já acabou algumas vezes.
Aos que não se acham na necessidade de ler esse texto, não o faça, não se sinta responsável, durma tranquilamente em seu apartamento com circuito interno de vigilância e seu carro de luxo, volte pra sua vida maravilhosa, porque quando tudo der errado você terá pra onde fugir. Recicle seu lixo, não o jogue no chão, lembre sempre que a vida é um ciclo e pense nas próximas gerações.
O que deveriámos realmente ver nesse momento é que estamos a um passo de destruir a única coisa que nos resta, nossa própria vida.
No dia que passou pela cabeça de algum cientista maluco que o homem, o in...significante homem, poderia destruir o mundo, o mesmo se achou um deus, o que não somos.
Não há como lutar contra a natureza e ela vem nos dando provas, como se precisasse, há anos, há milhares de anos.
De tempos em tempos a natureza mostra seu poder e aí vemos crianças sem lar e familiares chorando suas perdas materiais. Onde já se viu um morro destruir uma vida inteira de consumisto exacerbado! Pobres mortais que se acham donos do planeta...
O que me deixa triste é saber que em abril o lixo estará entupindo bueiros novamente, estaremos jogando lixo nas ruas, comprando o que não precisamos, destruindo a natureza para construir arranha-céus, comprando carros para andarmos sozinhos nas noites de sábado enquanto bebemos, fumamos e cheiramos, sem sequer pensarmos onde jogamos a bituca de cigarro ou mesmo a latinha de cerveja.
Quem se preocupa em ajudar os desabrigados nesse momento deveria também lembrar-se que durante o ano, cada vez que eles jogarem lixo nas ruas, estarão provocando suas próprias mortes no verão seguinte.
Temos que nos ajudar nesse momento difícil, mas temos a obrigação de nos lembrarmos que isso é nossa culpa, só nossa, não dos menos informados, não dos menos favorecidos, mas de todos, todos que circulam arrotando suas façanhas, todos que se julgam melhores que os que moram lá nas areas da tragédia.
A tragédia se mostra com a nossa cara, com o nosso sofrimento, mas principalmente com a nossa falta de responsabilidade, não podemos achar que o fato de mandar uma cesta básica ou alguns litros de água a quem precisa nos isenta da responsabilidade de um todo, somos parte de um ciclo que está prestes a acabar, como já acabou algumas vezes.
Aos que não se acham na necessidade de ler esse texto, não o faça, não se sinta responsável, durma tranquilamente em seu apartamento com circuito interno de vigilância e seu carro de luxo, volte pra sua vida maravilhosa, porque quando tudo der errado você terá pra onde fugir. Recicle seu lixo, não o jogue no chão, lembre sempre que a vida é um ciclo e pense nas próximas gerações.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Quando o asfalto chegar
Quando Leonel chegou à Barra, o vilarejo ainda não pertencia ao exército, apesar de muitos não acreditarem nisso. Seu Leonel comprou, a muito custo, um pedaço de terra na única rua que ligava o vilarejo ao resto do mundo, pelo menos por terra era só esse caminho. Com a chegada de novos moradores, pescadores e milicos, o vilarejo cresceu, não muito, mas o suficiente para que muitos carros e caminhões passassem quase que diariamente na frente da casa de seu Leonel.
A família de seu Jorge chegou pelo rio e por conta do valor baixo do terreno, foi morar no lado da casa de seu Leonel, tornaram-se vizinhos. Seu Leonel era agricultor e seu Jorge pescador. A família de seu Jorge foi crescendo com a chegada dos gêmeos e depois da pequena Nina, já a família de seu Leonel não prosperava tanto, mas também seguia seu rumo natural. As pedras e a poeira que subia todo santo dia na frente das casas, não estava sendo um problema, até o dia em que seu Leonel teve que levar sua mulher ao posto de saúde com falta de ar. Chegando ao posto, a enfermeira foi enfática:
- Acho melhor o senhor levar sua mulher no hospital, não temos recursos suficientes para atendê-la.
Com a ajuda de vizinhos e alguns parentes, seu Leonel conseguiu pagar um enterro descente para sua esposa, que partiu vítima de enfisema pulmonar. Em casa tudo tinha mudado, havia silêncio onde antes havia murmúrio, havia frio onde nunca houve nada, mas a tristeza de seu Leonel era grande. Sua lavoura não andava bem, uma seca massacrava cada sabugo que conseguia respirar mais de uma semana, sua vaca estava magra demais para dar leite, até para o seu café da manhã. A menos de dois metros dali, na casa ao lado, se ouvia a família de seu Jorge comemorando e sorrindo quase que diariamente. Pescador de talento, seu Jorge nunca voltou para casa de mãos abanando, era muito cordial e amigo de todos.
Os demais moradores da vila, não compraram os terrenos, acabaram invadindo as terras cobertas pelo matagal. A vila se organizou, chamaram a companhia de energia elétrica e mandaram fazer a instalação de luz. A prefeitura, muito esperta, arrumou “ligeirinho” a rede de esgotos e de água encanada para poder ganhar sua parte através do imposto. Agora, até caminhão de lixo seletivo passava, mas a poeira maldita, que levou o amor de seu Leonel, ah, essa continuava a deixar as janelas de todas as casas fechadas, tornando um segredo a vida de quem dentro delas habitava.
Seu Leonel, apesar da poeira, gostava de ficar nos finais de tarde tomando chimarrão e vendo a vida passar, pelo menos o que ele conseguia através da poeira. Os anos foram se passando e a cada dia, havia mais movimento no vilarejo. Todos os finais de semana, pessoas de cidades vizinhas vinham usufruir das cachoeiras e lagos da Barra. O rio já era famoso por ter os melhores viveiros de peixes da região, até mesmo seu Leonel pensou em virar pescador, mas a vaquinha engordou e a plantação voltou a crescer e prosperar. Seu Leonel acreditava que sua vida havia melhorado, mas ainda faltava alguma coisa para que ela se tornasse absoluta, uma vida digna de quem acordou por cinqüenta anos na beira de uma estrada de chão que ligava o rio da Barra ao asfalto da auto-estrada. Faltava a dignidade de deixar sua janela aberta durante os dias quentes de verão e nas noites, entre os mosquitos e o luar mais lindo do mundo.
Uma manhã, seu Jorge voltou mais cedo de sua pescaria. Recebeu a ligação de sua esposa lhe informando, aos berros, que sua pequena e única filha mulher, Nina, estava doente. Rapidamente levaram a menina ao hospital mais próximo onde foi diagnosticado o mesmo mal que levara a mulher de seu Leonel. Como a menina estava em estágio recente da doença, foi medicada e depois de alguns dias voltou para casa sã e salva. Na manhã seguinte, com a ajuda de seu Leonel e de outros moradores, houve um protesto diante da prefeitura contra aquela poeira maldita. O prefeito prometeu abrir uma licitação de caráter emergencial para resolver o problema dos moradores.
Seu Leonel, seu Jorge e os demais vizinhos, mediram a rua onde necessitava asfalto e enviaram a metragem ao prefeito, que assinou, na hora, o projeto de construção da via pública do vilarejo. Aquele dia foi marcante, todos faziam planos, havia boatos de que, com a chegada do asfalto, viriam comerciantes e um tal “crescimento absurdo” para aquele vilarejo modesto chamado “Barra”. Seu Leonel estava em êxtase, foi na vendinha de seu Romão e pagou, em leite, uma rodada de cachaça para todos. Seu Jorge brindou junto.
- É Leonel, tu vê como são as coisas, quando tua mulher morreu , “que Deus a tenha”, a gente nem pensava em se organizar para conseguir o que a gente queria. Faltou um pouco de atitude naquela época, mas quando minha filha quase morreu, não faltou uma mão para que essa idéia seguisse adiante.
Leonel lembrou da sua mulher e não conseguiu conter o choro, Jorge e Leonel abraçados choraram a vida e a morte no mesmo gole. Dois dias depois surgiram, ao longe, entre poeira e solidão, caminhões da empreiteira escolhida para a realização do que seria “o maior avanço da civilização”, depois da garrafa térmica para aqueles que adoravam chimarrão e odiavam a poeira. Era para mais de cinco caminhões e máquinas retro escavadeiras, os homens com seus uniformes e capacetes davam ao lugar a idéia de que ali o mundo estava prestes a mudar. O que tantas noites tirou o sono dos moradores, agora estava prestes a se tornar realidade.
Seu Leonel saiu à frente de seu terreno para receber com aplausos, juntos com os outros moradores, as máquinas da nova obra do vilarejo. A segunda maior, pois a primeira tinha sido o muro do cemitério. Esse muro servia não só para determinar onde começava e acabava o mesmo, como evitava que em dias de temporais muito fortes os corpos escorressem pelo morro abaixo e viessem parar na rua onde o asfalto não havia chegado. Mas seu Leonel não gostou quando ouviu a seguinte frase do encarregado da obra:
- Vamos começar lá por baixo, são quinhentos metros de asfalto e de boca de lobo, tenho certeza que assim terminaremos em três dias. Vamos lá pessoal!
Quinhentos metros, o número de alguma maneira deixou seu Leonel desconfortável, mas estava feliz pois via com seus próprios olhos o que o ser humano era capaz de fazer. Ele levava água gelada para os operários e a mulher do seu Jorge levava bolinhos e bolachas, tudo para que eles trabalhassem com amor e bem rápido. Dizem as más línguas que a mulher do seu Jorge adorava ouvir as histórias que os obreiros contavam, enquanto comiam tudo que ela tinha para dar. Ao final de uma semana, os olhares que haviam brilhado como a negra cor do asfalto, que tomava a rua e deixava as casas mais bonitas do que nunca, se transformaram em desconfiança, principalmente de seu Leonel. Ele percebia que a obra ainda não tinha chegado à frente de sua casa e, pior, dava a entender que nunca chegaria. Em um dia quente de sol escaldante, seu Leonel percebeu que algumas máquinas estavam de partida e saiu correndo atrás delas para tirar satisfação do que realmente estava acontecendo.
- Ei, ei, ei!! Voltem aqui, faltou a minha parte! Faltou terminar aqui na frente da minha casa! Voltem, voltem, por favor voltem!
Seu Leonel olhou para trás e viu todos os outros moradores festejando diante de suas residências as maravilhas do asfalto. Ao perceberem a tristeza de seu Leonel, foram condescendentes com ele e começaram a chamar os caminhões, tudo sem sucesso. Na manhã seguinte, seu Jorge e seu Leonel foram à prefeitura para reclamar e se depararam com uma situação no mínimo constrangedora: a medida que eles mesmos haviam mandado para a prefeitura, não incluía a última casa que havia sido construída dias antes, fruto de mais uma invasão. Como os engenheiros mediram de baixo para cima, a casa do seu Leonel estava fora dos quinhentos metros de asfalto, sendo assim, não havia erro por parte da empreiteira e muito menos da prefeitura.
- Veja bem seu Leonel, não sei realmente o que eu poderia fazer para resolver o seu caso, uma nova licitação dependeria de aprovação dos vereadores que nesse exato momento estão resolvendo problemas de outras regiões. Sua demanda voltaria para o final da fila, sendo assim, levaríamos mais ou menos uns dez anos para resolver o seu problema. Mas quero que o senhor saiba que estou aqui para ajudá-lo no que for possível!
- Estou vendo! Mas deve haver alguma coisa que possamos fazer para amenizar esse problema secretário. - respondeu seu Leonel.
- Claro que sim, vou ver isso com meu pessoal e amanhã ligamos para dar um retorno, ok¿ Agora, se me derem licença, tenho outras pessoas para atender. – disse, conduzindo-os até a porta.
Nas semanas seguintes, diariamente, às oito da manhã e às cinco da tarde, passava o caminhão pipa para molhar o pedaço da rua que não tinha asfalto. Ao final da segunda semana isso não aconteceu mais, seu Leonel tentou organizar um grupo que fosse conversar com o prefeito, mas infelizmente a única parte que não tinha asfalto era onde ele morava. Isso desmotivou os moradores que já usufruíam da rua sem poeira.
Seu Leonel se tornou um homem de cara fechada, achou que tinha sido traído. Um dia, bêbado, bateu no rapaz que invadiu o último terreno que tinha na rua, o primeiro a ser asfaltado, causando péssima impressão nos outros moradores que começaram a enxergá-lo como um velho ranzinza. Ele, por sua vez, terminou por acolher o estigma. Hoje, quem vai à prainha da Barra, pega muita poeira pela estrada, são mais de dez quilômetros de estrada de chão e quinhentos metros de asfalto. Logo depois da curva a prefeitura colocou pedras de paralelepípedo, imaginando que estavam fazendo para o lado certo, mas infelizmente erraram o lado novamente. Dessa forma a casa do seu Leonel se tornou referência para os turistas:
“ Para chegar na prainha da barra é simples: segue pela estrada de terra até a casa do véio Leonel, que é a ultima com poeira, depois começa o asfalto.”
O tão esperado “crescimento absurdo”, com comércio e lojas, não chegou, preservando boa parte da história do vilarejo. Seu Jorge, hoje, líder comunitário e guia turístico, segue feliz da vida e volta e meia faz umas festas para celebrar as suas conquistas, sempre convida seu Leonel, mas esse não quer saber de nada. Quando convidado para qualquer coisa, a resposta é sempre a mesma:
- Vai pra puta que te pariu.
Fim.
A família de seu Jorge chegou pelo rio e por conta do valor baixo do terreno, foi morar no lado da casa de seu Leonel, tornaram-se vizinhos. Seu Leonel era agricultor e seu Jorge pescador. A família de seu Jorge foi crescendo com a chegada dos gêmeos e depois da pequena Nina, já a família de seu Leonel não prosperava tanto, mas também seguia seu rumo natural. As pedras e a poeira que subia todo santo dia na frente das casas, não estava sendo um problema, até o dia em que seu Leonel teve que levar sua mulher ao posto de saúde com falta de ar. Chegando ao posto, a enfermeira foi enfática:
- Acho melhor o senhor levar sua mulher no hospital, não temos recursos suficientes para atendê-la.
Com a ajuda de vizinhos e alguns parentes, seu Leonel conseguiu pagar um enterro descente para sua esposa, que partiu vítima de enfisema pulmonar. Em casa tudo tinha mudado, havia silêncio onde antes havia murmúrio, havia frio onde nunca houve nada, mas a tristeza de seu Leonel era grande. Sua lavoura não andava bem, uma seca massacrava cada sabugo que conseguia respirar mais de uma semana, sua vaca estava magra demais para dar leite, até para o seu café da manhã. A menos de dois metros dali, na casa ao lado, se ouvia a família de seu Jorge comemorando e sorrindo quase que diariamente. Pescador de talento, seu Jorge nunca voltou para casa de mãos abanando, era muito cordial e amigo de todos.
Os demais moradores da vila, não compraram os terrenos, acabaram invadindo as terras cobertas pelo matagal. A vila se organizou, chamaram a companhia de energia elétrica e mandaram fazer a instalação de luz. A prefeitura, muito esperta, arrumou “ligeirinho” a rede de esgotos e de água encanada para poder ganhar sua parte através do imposto. Agora, até caminhão de lixo seletivo passava, mas a poeira maldita, que levou o amor de seu Leonel, ah, essa continuava a deixar as janelas de todas as casas fechadas, tornando um segredo a vida de quem dentro delas habitava.
Seu Leonel, apesar da poeira, gostava de ficar nos finais de tarde tomando chimarrão e vendo a vida passar, pelo menos o que ele conseguia através da poeira. Os anos foram se passando e a cada dia, havia mais movimento no vilarejo. Todos os finais de semana, pessoas de cidades vizinhas vinham usufruir das cachoeiras e lagos da Barra. O rio já era famoso por ter os melhores viveiros de peixes da região, até mesmo seu Leonel pensou em virar pescador, mas a vaquinha engordou e a plantação voltou a crescer e prosperar. Seu Leonel acreditava que sua vida havia melhorado, mas ainda faltava alguma coisa para que ela se tornasse absoluta, uma vida digna de quem acordou por cinqüenta anos na beira de uma estrada de chão que ligava o rio da Barra ao asfalto da auto-estrada. Faltava a dignidade de deixar sua janela aberta durante os dias quentes de verão e nas noites, entre os mosquitos e o luar mais lindo do mundo.
Uma manhã, seu Jorge voltou mais cedo de sua pescaria. Recebeu a ligação de sua esposa lhe informando, aos berros, que sua pequena e única filha mulher, Nina, estava doente. Rapidamente levaram a menina ao hospital mais próximo onde foi diagnosticado o mesmo mal que levara a mulher de seu Leonel. Como a menina estava em estágio recente da doença, foi medicada e depois de alguns dias voltou para casa sã e salva. Na manhã seguinte, com a ajuda de seu Leonel e de outros moradores, houve um protesto diante da prefeitura contra aquela poeira maldita. O prefeito prometeu abrir uma licitação de caráter emergencial para resolver o problema dos moradores.
Seu Leonel, seu Jorge e os demais vizinhos, mediram a rua onde necessitava asfalto e enviaram a metragem ao prefeito, que assinou, na hora, o projeto de construção da via pública do vilarejo. Aquele dia foi marcante, todos faziam planos, havia boatos de que, com a chegada do asfalto, viriam comerciantes e um tal “crescimento absurdo” para aquele vilarejo modesto chamado “Barra”. Seu Leonel estava em êxtase, foi na vendinha de seu Romão e pagou, em leite, uma rodada de cachaça para todos. Seu Jorge brindou junto.
- É Leonel, tu vê como são as coisas, quando tua mulher morreu , “que Deus a tenha”, a gente nem pensava em se organizar para conseguir o que a gente queria. Faltou um pouco de atitude naquela época, mas quando minha filha quase morreu, não faltou uma mão para que essa idéia seguisse adiante.
Leonel lembrou da sua mulher e não conseguiu conter o choro, Jorge e Leonel abraçados choraram a vida e a morte no mesmo gole. Dois dias depois surgiram, ao longe, entre poeira e solidão, caminhões da empreiteira escolhida para a realização do que seria “o maior avanço da civilização”, depois da garrafa térmica para aqueles que adoravam chimarrão e odiavam a poeira. Era para mais de cinco caminhões e máquinas retro escavadeiras, os homens com seus uniformes e capacetes davam ao lugar a idéia de que ali o mundo estava prestes a mudar. O que tantas noites tirou o sono dos moradores, agora estava prestes a se tornar realidade.
Seu Leonel saiu à frente de seu terreno para receber com aplausos, juntos com os outros moradores, as máquinas da nova obra do vilarejo. A segunda maior, pois a primeira tinha sido o muro do cemitério. Esse muro servia não só para determinar onde começava e acabava o mesmo, como evitava que em dias de temporais muito fortes os corpos escorressem pelo morro abaixo e viessem parar na rua onde o asfalto não havia chegado. Mas seu Leonel não gostou quando ouviu a seguinte frase do encarregado da obra:
- Vamos começar lá por baixo, são quinhentos metros de asfalto e de boca de lobo, tenho certeza que assim terminaremos em três dias. Vamos lá pessoal!
Quinhentos metros, o número de alguma maneira deixou seu Leonel desconfortável, mas estava feliz pois via com seus próprios olhos o que o ser humano era capaz de fazer. Ele levava água gelada para os operários e a mulher do seu Jorge levava bolinhos e bolachas, tudo para que eles trabalhassem com amor e bem rápido. Dizem as más línguas que a mulher do seu Jorge adorava ouvir as histórias que os obreiros contavam, enquanto comiam tudo que ela tinha para dar. Ao final de uma semana, os olhares que haviam brilhado como a negra cor do asfalto, que tomava a rua e deixava as casas mais bonitas do que nunca, se transformaram em desconfiança, principalmente de seu Leonel. Ele percebia que a obra ainda não tinha chegado à frente de sua casa e, pior, dava a entender que nunca chegaria. Em um dia quente de sol escaldante, seu Leonel percebeu que algumas máquinas estavam de partida e saiu correndo atrás delas para tirar satisfação do que realmente estava acontecendo.
- Ei, ei, ei!! Voltem aqui, faltou a minha parte! Faltou terminar aqui na frente da minha casa! Voltem, voltem, por favor voltem!
Seu Leonel olhou para trás e viu todos os outros moradores festejando diante de suas residências as maravilhas do asfalto. Ao perceberem a tristeza de seu Leonel, foram condescendentes com ele e começaram a chamar os caminhões, tudo sem sucesso. Na manhã seguinte, seu Jorge e seu Leonel foram à prefeitura para reclamar e se depararam com uma situação no mínimo constrangedora: a medida que eles mesmos haviam mandado para a prefeitura, não incluía a última casa que havia sido construída dias antes, fruto de mais uma invasão. Como os engenheiros mediram de baixo para cima, a casa do seu Leonel estava fora dos quinhentos metros de asfalto, sendo assim, não havia erro por parte da empreiteira e muito menos da prefeitura.
- Veja bem seu Leonel, não sei realmente o que eu poderia fazer para resolver o seu caso, uma nova licitação dependeria de aprovação dos vereadores que nesse exato momento estão resolvendo problemas de outras regiões. Sua demanda voltaria para o final da fila, sendo assim, levaríamos mais ou menos uns dez anos para resolver o seu problema. Mas quero que o senhor saiba que estou aqui para ajudá-lo no que for possível!
- Estou vendo! Mas deve haver alguma coisa que possamos fazer para amenizar esse problema secretário. - respondeu seu Leonel.
- Claro que sim, vou ver isso com meu pessoal e amanhã ligamos para dar um retorno, ok¿ Agora, se me derem licença, tenho outras pessoas para atender. – disse, conduzindo-os até a porta.
Nas semanas seguintes, diariamente, às oito da manhã e às cinco da tarde, passava o caminhão pipa para molhar o pedaço da rua que não tinha asfalto. Ao final da segunda semana isso não aconteceu mais, seu Leonel tentou organizar um grupo que fosse conversar com o prefeito, mas infelizmente a única parte que não tinha asfalto era onde ele morava. Isso desmotivou os moradores que já usufruíam da rua sem poeira.
Seu Leonel se tornou um homem de cara fechada, achou que tinha sido traído. Um dia, bêbado, bateu no rapaz que invadiu o último terreno que tinha na rua, o primeiro a ser asfaltado, causando péssima impressão nos outros moradores que começaram a enxergá-lo como um velho ranzinza. Ele, por sua vez, terminou por acolher o estigma. Hoje, quem vai à prainha da Barra, pega muita poeira pela estrada, são mais de dez quilômetros de estrada de chão e quinhentos metros de asfalto. Logo depois da curva a prefeitura colocou pedras de paralelepípedo, imaginando que estavam fazendo para o lado certo, mas infelizmente erraram o lado novamente. Dessa forma a casa do seu Leonel se tornou referência para os turistas:
“ Para chegar na prainha da barra é simples: segue pela estrada de terra até a casa do véio Leonel, que é a ultima com poeira, depois começa o asfalto.”
O tão esperado “crescimento absurdo”, com comércio e lojas, não chegou, preservando boa parte da história do vilarejo. Seu Jorge, hoje, líder comunitário e guia turístico, segue feliz da vida e volta e meia faz umas festas para celebrar as suas conquistas, sempre convida seu Leonel, mas esse não quer saber de nada. Quando convidado para qualquer coisa, a resposta é sempre a mesma:
- Vai pra puta que te pariu.
Fim.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
O Escritor e a Atriz
Uma simples carta pode mudar a vida dos que não esperam mais nada dela...
Olá sou escritor do interior e me disseram que a senhorita poderia me ajudar na carreira.
Meu nome é Raul, sou um homem desiludido com a profissão, não tenho filhos e nem onde morar, não tenho amigos nem mesmo um cachorro a quem chorar minhas mágoas.
Moro no fundo de um terreno baldio. Me alimento quando tenho fome e o que estiver disponível.
Meu talento, ah esse nunca me abandonou, diferente das milhares de mulheres que tive e que não acreditavam nele.
Sempre quis conhecer mais pessoas que trabalham com arte. Um dia vi num recorte de jornal o retrato de uma linda mulher, parecia um copo de leite. Era uma atriz somente de teatro, apesar de achar que atores são de tudo, de tudo onde se precisa de interpretação, mas entendi quando li sobre ser atriz somente de teatro.
Gosto de escrever e tenho alguma habilidade para isso, nunca soube se o que escrevia era bom ou ruim, como não tenho amigos e as pessoas que conhecia eram todas analfabetas, não tive esse feedback das minhas escritas.
Espero que me desculpe por aparecer assim sem avisar, mas tenho certeza que se a senhorita me der um segundo de atenção verá em mim mais que um homem. Sou bem mais que isso, sou um ser que pensa, que ama e que sofre.
Como estava lhe falando, quando vi aquele recorte de jornal e aquela mulher que nele repousava, meus olhos brilharam, mas isso foi há muito tempo atrás, nunca mais vi ela em lugar algum.
Certa vez, anos mais tarde, enquanto tentava comprar uma tv, o vendendor trocava de canal e de repente ela surgiu como um anjo, seu rosto branco parecia mais branco que de costume. Suas roupas eram infantis, bem diferente da primeira vez que a vi, mas seu olhar era o mesmo, o que dispertou em mim novamente a paixão.
Sei que minhas desculpas para me aproximar dela não são as melhores, mas também não tenho porque me desculpar. Nunca vi ela, mas sempre lhe amei, do meu jeito, a distância, com paciência de quem sabe que o que é seu, está guardado.
Sabia que o dia iria chegar e junto com esse dia minha sorte mudaria, não seria mais visto como um qualquer, não seria mais um a passar pela fome de vida que rege os seres humanos sem alma.
Sabia que a paixão e o eterno amor estariam ao meu lado em forma de uma bela e branca mulher de olhos pequenos e coração grande, de amores impossíveis e de sexo vibrante, sei que estou sendo chato com a senhorita e mais uma vez queria me desculpar, prometo ser mais objetivo daqui pra frente, apesar de não saber como dizer isso normalmente, acredito que sim é possível e por isso venho a sua procura, da senhorita, apesar de todo seu conhecimento, não quero nada de trabalho, quero apenas saber que na minha vida um dia conheci e conversei com uma diva, uma musa do teatro, não saberia terminar essa conversa de outra maneira a não ser a que lhe direi agora
Senhorita Carlota Back aceitar casar comigo para todo sempre até que a morte nos separe?
Beijo Te Amo
Resposta:
Prezado Sr. Raul, tua sinceridade me toca, como tocado somos todos os que trabalham com arte e que vêem no coração humano mais que veias e sangue. Vemos um combustível de vida, de arte, de beleza, de sentimento, de ar, de pulsar, de respiração... Tuas palavras me tocaram.
Sou um ser humano cheio de erros, incompreensões, chatice, egoísmo, mas com uma sensibilidade ímpar para perceber um ser humano talentoso, sensível, interessante, vibrante e pelo jeito com enorme capacidade de escrita como percebo em vossa senhoria.
Adoraria crescer ao seu lado, me tornar uma pessoa melhor, mais iluminada, mais feliz..... Temo que isso possa acontecer quando o frente a frente surgir,
também já esperei pacientemente a chegada daquele que meu intímo suspeitava ser uma pessoa pra lá de especial, acalentei esse momento por anos.
Vendo-o de perto, respirando informações, acalentando sonhos, hoje ISTO surgiu.
Aceito seu pedido de casamento e prometo que ele não será só especial
será uma beleza semelhante a arte que a gente acredita e para o qual a gente vive. Meu amor a arte se equipara ao amor que posso lhe oferecer pois ambos andarão juntos.
Estou indo ao teu encontro nesse momento, me aguarde.
Estou de blusa com flores e bermuda branca.
Só peço que me ame sempre que eu sempre te amarei.
Olá sou escritor do interior e me disseram que a senhorita poderia me ajudar na carreira.
Meu nome é Raul, sou um homem desiludido com a profissão, não tenho filhos e nem onde morar, não tenho amigos nem mesmo um cachorro a quem chorar minhas mágoas.
Moro no fundo de um terreno baldio. Me alimento quando tenho fome e o que estiver disponível.
Meu talento, ah esse nunca me abandonou, diferente das milhares de mulheres que tive e que não acreditavam nele.
Sempre quis conhecer mais pessoas que trabalham com arte. Um dia vi num recorte de jornal o retrato de uma linda mulher, parecia um copo de leite. Era uma atriz somente de teatro, apesar de achar que atores são de tudo, de tudo onde se precisa de interpretação, mas entendi quando li sobre ser atriz somente de teatro.
Gosto de escrever e tenho alguma habilidade para isso, nunca soube se o que escrevia era bom ou ruim, como não tenho amigos e as pessoas que conhecia eram todas analfabetas, não tive esse feedback das minhas escritas.
Espero que me desculpe por aparecer assim sem avisar, mas tenho certeza que se a senhorita me der um segundo de atenção verá em mim mais que um homem. Sou bem mais que isso, sou um ser que pensa, que ama e que sofre.
Como estava lhe falando, quando vi aquele recorte de jornal e aquela mulher que nele repousava, meus olhos brilharam, mas isso foi há muito tempo atrás, nunca mais vi ela em lugar algum.
Certa vez, anos mais tarde, enquanto tentava comprar uma tv, o vendendor trocava de canal e de repente ela surgiu como um anjo, seu rosto branco parecia mais branco que de costume. Suas roupas eram infantis, bem diferente da primeira vez que a vi, mas seu olhar era o mesmo, o que dispertou em mim novamente a paixão.
Sei que minhas desculpas para me aproximar dela não são as melhores, mas também não tenho porque me desculpar. Nunca vi ela, mas sempre lhe amei, do meu jeito, a distância, com paciência de quem sabe que o que é seu, está guardado.
Sabia que o dia iria chegar e junto com esse dia minha sorte mudaria, não seria mais visto como um qualquer, não seria mais um a passar pela fome de vida que rege os seres humanos sem alma.
Sabia que a paixão e o eterno amor estariam ao meu lado em forma de uma bela e branca mulher de olhos pequenos e coração grande, de amores impossíveis e de sexo vibrante, sei que estou sendo chato com a senhorita e mais uma vez queria me desculpar, prometo ser mais objetivo daqui pra frente, apesar de não saber como dizer isso normalmente, acredito que sim é possível e por isso venho a sua procura, da senhorita, apesar de todo seu conhecimento, não quero nada de trabalho, quero apenas saber que na minha vida um dia conheci e conversei com uma diva, uma musa do teatro, não saberia terminar essa conversa de outra maneira a não ser a que lhe direi agora
Senhorita Carlota Back aceitar casar comigo para todo sempre até que a morte nos separe?
Beijo Te Amo
Resposta:
Prezado Sr. Raul, tua sinceridade me toca, como tocado somos todos os que trabalham com arte e que vêem no coração humano mais que veias e sangue. Vemos um combustível de vida, de arte, de beleza, de sentimento, de ar, de pulsar, de respiração... Tuas palavras me tocaram.
Sou um ser humano cheio de erros, incompreensões, chatice, egoísmo, mas com uma sensibilidade ímpar para perceber um ser humano talentoso, sensível, interessante, vibrante e pelo jeito com enorme capacidade de escrita como percebo em vossa senhoria.
Adoraria crescer ao seu lado, me tornar uma pessoa melhor, mais iluminada, mais feliz..... Temo que isso possa acontecer quando o frente a frente surgir,
também já esperei pacientemente a chegada daquele que meu intímo suspeitava ser uma pessoa pra lá de especial, acalentei esse momento por anos.
Vendo-o de perto, respirando informações, acalentando sonhos, hoje ISTO surgiu.
Aceito seu pedido de casamento e prometo que ele não será só especial
será uma beleza semelhante a arte que a gente acredita e para o qual a gente vive. Meu amor a arte se equipara ao amor que posso lhe oferecer pois ambos andarão juntos.
Estou indo ao teu encontro nesse momento, me aguarde.
Estou de blusa com flores e bermuda branca.
Só peço que me ame sempre que eu sempre te amarei.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Desabafo do Palhaço
Aos que não se tornaram estrelas e vivem da arte como meras cigarras, meu desabafo! Esse vem da mágoa de ver a situação da Casa do Artista, onde um dia eu ou qualquer um que se diz “artista”, pode vir a morar. A classe não é unida e isso todo mundo sabe. A vergonha é do descaso de quem ri, chora e se emociona ao ver um ator ou uma atriz interpretando, ao escutar uma música de letra melancólica que fala da cidade e de seus mais obscuros sentimentos, do cara que pintava muros e hoje é um artista plástico, daqueles que pegam lixo e fazem arte moderna, de quem escreve e traduz em palavras os nossos sentimentos, de quem dança em cima dos palcos e por toda a gente que cria e recria a arte no Estado e nessa cidade linda que é Porto alegre, mas isso não condiz com a forma que a própria cidade nos trata.
O artista sai de casa e não sabe se volta com o leite e o pão de cada dia. O cara que não trabalha na Globo não é considerado artista pela grande maioria, para o público e para o poder público o artista é aquele que aparece nos finais de semana ou em comícios contratados por preço de banana ou até mesmo trabalhando de graça por acreditar nas propostas daqueles que nos enxergam como um simples produto guardado em armários, num canto de uma velha casa abandonada.
Minha mágoa com o público e com o poder público vai passar, mas e o lugar onde um dia os que não desistirem da profissão, mas forem derrotados por algo maior que a arte, o dinheiro, vão morar? Esse continua lá, caindo aos pedaços. É assim que a Casa do Artista está, caindo. Onde essas pessoas vão morar, onde eu vou morar se não me tornar uma estrela global? Um amigo músico escreveu em seu blog sobre a maneira que a sociedade vê o artista, o Diego Silva estava certo em cada vírgula que ele escreveu. Quando Mauricio Pereira escreveu a música “Um Dia Útil”, ele estava certo em cada palavra. Meu Deus! Chego a me emocionar escrevendo isso, fica difícil esconder minha vergonha por fazer parte de um mundo onde somos invisíveis aos olhos da sociedade. Minha mulher é atriz, meu maior orgulho e espelho de uma profissão tão glamourosa e de tamanho descaso. Trabalha em mil coisas ao mesmo tempo para conseguir sobreviver, mas quero ver se existem alguem em sã conciência se atreva a dizer que ela não tem talento. Não trabalhando na grande mídia, se resume a labutar no teatro gaúcho, fazendo bicos como a maioria de nós, sem férias, sem décimo terceiro, vale transporte, vale refeição. Um colega fica doente levando arte pelo mundo e nós temos que nos unir aqui para juntar grana pra ele poder se curar, onde está a organização da classe, cadê quem nos ampare? Onde o poder público entra nessas horas? Não entra. Já passou o momento eleitoral, não somos mais necessários. Queria que um único político se manifestasse contra o que escrevo, queria muito, mas sei que isso não vai acontecer, é uma vergonha a omissão dos políticos com a classe artística. Hoje entristeci ao constatar que somos tratados como bonecos nas mãos de quem tem o poder, mas maior que isso é nosso talento, do palhaço de rua ao artesão do Brique da Redenção, passando por egos dos que tiveram mais sorte na profissão.
Meu desabafo termina quando vejo que estamos sozinhos e preocupados em dar nossas vidas e nossa arte a um povo que não sabe e nem quer saber dos nossos problemas. O poder público deixa pra lá pois acredita que tem coisa melhor pra fazer e nos coloca em segundo plano, quando deveria investir na cultura. Minhas lágrimas são de tristeza por saber que estamos sozinhos, minhas lágrimas são de ver gente que nem eu praticamente sobrevivendo como animais em uma velha casa abandonada no Bairro Glória, nem mesmo eu sabia do estado da casa do artista riograndense. Que vergonha da minha classe, que vergonha de ser gaúcho nessas horas. Minha vergonha se espalha aos quatro cantos do Rio Grande e se multiplica ao ser lançado aos cantos do Brasil.
Até quando seremos tratados assim? Será que seremos obrigados a passar por uma peneira onde algum que não é artista irá decidir quem fica e quem vai ter que mudar de profissão?
Estamos numa situação ímpar, cadê as parcerias agora? No final de nossas vidas seremos jogados numa casa e esquecidos? Será que o poder público quer que os artistas acabem com uma caixinha de esmolas em frente aos sinais de trânsito?
“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”... Bullshit.
O artista sai de casa e não sabe se volta com o leite e o pão de cada dia. O cara que não trabalha na Globo não é considerado artista pela grande maioria, para o público e para o poder público o artista é aquele que aparece nos finais de semana ou em comícios contratados por preço de banana ou até mesmo trabalhando de graça por acreditar nas propostas daqueles que nos enxergam como um simples produto guardado em armários, num canto de uma velha casa abandonada.
Minha mágoa com o público e com o poder público vai passar, mas e o lugar onde um dia os que não desistirem da profissão, mas forem derrotados por algo maior que a arte, o dinheiro, vão morar? Esse continua lá, caindo aos pedaços. É assim que a Casa do Artista está, caindo. Onde essas pessoas vão morar, onde eu vou morar se não me tornar uma estrela global? Um amigo músico escreveu em seu blog sobre a maneira que a sociedade vê o artista, o Diego Silva estava certo em cada vírgula que ele escreveu. Quando Mauricio Pereira escreveu a música “Um Dia Útil”, ele estava certo em cada palavra. Meu Deus! Chego a me emocionar escrevendo isso, fica difícil esconder minha vergonha por fazer parte de um mundo onde somos invisíveis aos olhos da sociedade. Minha mulher é atriz, meu maior orgulho e espelho de uma profissão tão glamourosa e de tamanho descaso. Trabalha em mil coisas ao mesmo tempo para conseguir sobreviver, mas quero ver se existem alguem em sã conciência se atreva a dizer que ela não tem talento. Não trabalhando na grande mídia, se resume a labutar no teatro gaúcho, fazendo bicos como a maioria de nós, sem férias, sem décimo terceiro, vale transporte, vale refeição. Um colega fica doente levando arte pelo mundo e nós temos que nos unir aqui para juntar grana pra ele poder se curar, onde está a organização da classe, cadê quem nos ampare? Onde o poder público entra nessas horas? Não entra. Já passou o momento eleitoral, não somos mais necessários. Queria que um único político se manifestasse contra o que escrevo, queria muito, mas sei que isso não vai acontecer, é uma vergonha a omissão dos políticos com a classe artística. Hoje entristeci ao constatar que somos tratados como bonecos nas mãos de quem tem o poder, mas maior que isso é nosso talento, do palhaço de rua ao artesão do Brique da Redenção, passando por egos dos que tiveram mais sorte na profissão.
Meu desabafo termina quando vejo que estamos sozinhos e preocupados em dar nossas vidas e nossa arte a um povo que não sabe e nem quer saber dos nossos problemas. O poder público deixa pra lá pois acredita que tem coisa melhor pra fazer e nos coloca em segundo plano, quando deveria investir na cultura. Minhas lágrimas são de tristeza por saber que estamos sozinhos, minhas lágrimas são de ver gente que nem eu praticamente sobrevivendo como animais em uma velha casa abandonada no Bairro Glória, nem mesmo eu sabia do estado da casa do artista riograndense. Que vergonha da minha classe, que vergonha de ser gaúcho nessas horas. Minha vergonha se espalha aos quatro cantos do Rio Grande e se multiplica ao ser lançado aos cantos do Brasil.
Até quando seremos tratados assim? Será que seremos obrigados a passar por uma peneira onde algum que não é artista irá decidir quem fica e quem vai ter que mudar de profissão?
Estamos numa situação ímpar, cadê as parcerias agora? No final de nossas vidas seremos jogados numa casa e esquecidos? Será que o poder público quer que os artistas acabem com uma caixinha de esmolas em frente aos sinais de trânsito?
“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”... Bullshit.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Soluções milagrosas do amor
Hoje, mexendo em algumas fotos antigas, lembrei da minha infância, coisa boa ser criança! Pena que minha condição financeira naquela época tenha deixado marcas escuras em meu peito. Muitos acreditam que, para as crianças, o dinheiro não interfere, mas infelizmente isso não é verdade. Não vou justificar nada do que fiz na vida, mas o fato de estar contando essa história tem a ver com o fato de que o dinheiro compra tudo, e falo isso sem medo, pois calei todos que se atravessaram no meu caminho.
Não sou um homem vingativo. Mentira, sou sim, aliás sou mais que vingativo. De monstro a terra está cheia, é só olhar a televisão, os jornais, as revistas, escutar um rádio, prestar atenção nas conversar dos bares, das praças, das filas de hospitais. Onde existir a raça humana haverá o mal incrustado dentro dela.
Quando conheci Raquel me apaixonei, morena linda, de rosto fino e pernas grossas. Essa moça estudada e extremamente educada logo se tornou a mulher dos meus sonhos. Mas Raquel não me dava a menor atenção e talvez o fato de não ter coragem de conversar com ela tenha gerado essa loucura que aconteceu em nossas vidas. Antes que o caro leitor ache que a matei, gostaria de antecipar que nunca faria isso com alguém que amei tanto na vida.
Trabalhava de engraxate na frente do escritório do pai de Raquel durante alguns anos. Sempre que ela passava ficava no ar um perfume doce que me deixava louco, mas a vergonha de ser pobre me proibia o contato. Nunca troquei um olhar com ela, até porque ela nunca olhou para baixo onde eu sempre me encontrava lustrando sapatos.
Meus dias eram sempre os mesmos. Acordava num bairro distante do centro, numa casa velha onde dividia com ratos e baratas as migalhas que ganhava lustrando sapatos dos altos executivos da cidade. Demorava duas horas de ônibus até o centro, o que me dava tempo de sobra para pensar, não tinha outro pensamento a não ser ganhar um dia o coração de Raquel, aquilo sim era paixão, dessas que a gente sente que é para sempre sabe? Daqueles amores que podem ultrapassar a nossa própria existência. Quando chegava ao centro com minha caixa de engraxate, não vou negar, tinha vergonha, mas precisava comer e me vestir. Era humilhado quase que diariamente por aqueles caras de colarinho branco e sapato bico fino. Uma vez um sujeito chegou a cuspir na minha cara porque bem na hora que estava engraxando seu sapato Raquel passou, me tirando a concentração, terminei passando a graxa na suas meias. O homem indignado me fez essa agressão moral, não se cospe na cara de um homem.
Raquel sempre passava sozinha em direção ao escritório de seu pai. Um dia eu disse para mim mesmo que aquele seria o dia que pararia na frente dela e lhe falaria a verdade. Falaria que a amava e que faria de tudo para ficar com ela, mas o medo me impediu, imagina eu, um mero engraxate, atacando um bela mulher no centro da cidade para lhe dizer que a amava. Coisa mais ridícula! Então desisti. Nesse mesmo dia, dentro do ônibus, estava voltando para minha casa quando uma cega entrou vendendo um bilhete da loteria. Comprei o tal bilhete, meio sem esperança, mas ao mesmo tempo com uma puta vontade de mudar de vida e realizar meus sonhos, ao mesmo tempo estaria ajudando aquela mulher que não enxergava e realmente precisa mais do que eu.
Na manhã seguinte, quando entrei na padaria para tomar minha meia taça de café preto e comer um cacetinho, dei uma olhada no jornal, lá estavam os números 13-32-36-41-44-50. Por um instante não acreditei.... Oh, meu Deus ! Eu tinha acabado de ganhar na loteria. A partir daí minha vida mudou, me regularizei na vida, comprei um apartamento num bairro nobre, um carro bonito e tomei um banho de loja. Às vezes passava na frente do escritório para ver se conseguia ver Raquel, mas não tinha sorte. Então voltei a estudar e meu amor ficou em segundo plano, queria ser alguém especial para ela. Eu não sabia falar direito mas com meu dinheiro e um pouco de boa vontade em um ano me tornei uma pessoa influente. Qualquer um que tenha a minha grana é uma pessoa influente.
Numa manhã de sexta feira, comprei flores e fui ao escritório do pai de Raquel. Aquela seria a primeira vez que falaria com ela, não sabia o que dizer. Pensei em falar a verdade, que eu era o engraxate que trabalhava ali na frente e que estava apaixonado por ela há muito tempo e que nunca tive coragem de contar. Entrei no escritório e lá estava ela sentada atrás de uma mesa de vidro perto da janela. Olhava para fora como se estivesse esperando alguém, nem percebeu minha chegada com flores no braço. Toquei a campainha, ela olhou pra frente e deu um sorriso. Uma menina que estava próximo dela me perguntou o que eu queria, mas eu seguia Raquel com os olhos, seu sorriso não era pra mim, mas sim para um homem que, atrás de mim, apareceu no mesmo instante. Mais uma vez ela passou por mim sem me ver e o beijou com ardor. Respondi para a menina que não era nada, que havia me enganado e saí. Arrasado voltei para o meu apartamento, me revoltei comigo por não tê-la procurado antes. Como eu pude ser tão idiota.... como uma mulher linda como ela não teria outros pretendentes... idiota! Idiota!
Depois da culpa veio o desespero, era Raquel que eu queria, nenhuma mulher tinha o mesmo perfume que me fazia sair do chão. Eu não tinha amigos e não gostava de gente, gostava dela e vivia pensando como seria lindo a nossa vida juntos. Passado alguns meses, estava lendo o jornal no café da manhã quando me deparo com a seguinte manchete: “ Mulher encontrada semi nua com marcas de estrangulamento. A vítima se encontra em coma no HPS”, era Raquel, meu sangue ferveu, minhas mãos começaram a suar e o choro foi inevitável. Quem seria capaz de fazer aquilo com uma mulher tão doce como Raquel? Isso já não importava mais, estava decidido, iria me vingar!
A tecnologia foi minha grande aliada na vingança, o primeiro passo foi procurar Raquel nas redes sociais. Assim que encontrei –a, pesquisei seus amigos e últimos namorados, muito fácil essa parte, logo cheguei ao homem que a beijara na única vez que tive coragem de me aproximar de Raquel.
Com alguns trocados arrumei um advogado, um porta de cadeia qualquer, como não queria que ninguém soubesse da minha existência ,convidei o advogado para uma reunião. Nunca falei com ele por celular, nosso primeiro contato foi por telefone convencional, eu liguei de um orelhão e nos encontramos. Ele conseguiu cópias do processo, do boletim de ocorrência e a ficha completa do seu último namorado e possível agressor. O advogado me alertou que estava mexendo com peixe grande e que o valor teria que ser aumentado por motivos óbvios, eu disse que tudo bem, entendia. Para comemorar nossa parceria, levei-o no alto de um morro belíssimo, abri o porta malas e tirei uma champanhe. Brindamos e por um descuido, o advogado caiu do morro. Saí correndo dali, chamei uma ambulância para o local e no dia seguinte fiquei sabendo da sua morte pela TV. Dizia que um advogado caiu bêbado de um morro e quebrou o pescoço, que possivelmente fora vítima de traficantes já que ele representava vários bandidos, lamentei mas segui no meu objetivo.
Estava em minhas mãos à ficha de um homem chamado Carlos Neves. Filho de um político importante na cidade, rico e bem nascido, estudou nas melhores escolas da região, morou fora do país e tinha histórico de pessoa violenta. Usuário de drogas, havia saído de uma clínica há seis meses e namorava Raquel há um ano e meio. Ele estava desaparecido e era considerado o possível agressor , por ser filho de pessoa influente não estava nas páginas dos jornais. Seu pai arrumou um jeito de parecer que a moça tivesse sido vítima de um assaltante ou mesmo de um tarado. O pior é que todos pareciam acreditar nisso, menos eu.
Um dia enquanto espreitava a casa de Carlos, percebi a movimentação de seguranças na rua. Uma mulher saiu da casa com uma sacola, segui-a , ela entrou em um táxi. Saímos do centro da cidade e chegamos a um bairro da periferia. Ela desceu do táxi, atravessou a rua e deixou um pacote em frente a porta de entrada de uma casa velha de madeira, depois saiu e foi embora. Fiquei ali de tocaia, esperando, quando uma viatura encostou atrás de mim. Pediram-me para descer do carro e colocar as mãos sobre o veículo. Expliquei que me perdi naquele lugar horrível, que meu GPS tinha estragado e que estava atrasado para um reunião. Eles pegaram meus dados, me mostraram o caminho e me disseram que uma senhora achou que se tratava de um carro roubado, sorrimos e voltei para casa. Mas antes de entrar no carro percebi que o pacote que a mulher tinha deixado não estava mais na porta de entrada daquela velha casa.
Agora eu tinha certeza que estava na cola do cara e que a polícia não seria um problema, por via das dúvidas resolvi seguir o plano B e ter o máximo de cuidado com tudo. Quando cheguei em casa liguei o meu computador e comprei uma passagem para outro Estado. Vôo no domingo às cinco da manhã, primeira classe. Fiz reserva em um hotel na beira da praia e comprei um carro velho num site de carros usados. Na sexta-feira, estacionei o carro velho há dez quadras de distância da minha casa, no lado de fora do estacionamento de um mercado onde sabia que não havia câmeras de vigilância. No sábado, peguei o carro velho, fui a um beco que conhecia e comprei cinqüenta gramas de cocaína. Na volta passei na frente da provável casa em que Carlos se escondia e deixei a droga num lugar perto da porta de entrada. Fiquei esperando e para a minha surpresa, Carlos apareceu na casa, achou a droga, entrou e apagou a luz. Isso era quase meia noite, meu plano corria bem. Voltei para casa e antes deixei o carro velho no mesmo lugar. Às cinco horas da manhã de domingo, peguei o avião, cheguei no Estado vizinho e fui para o hotel. Conversei com um rapaz que fazia a faxina nos quartos, com uma nota preta disse a ele que queria fazer uma surpresa para minha esposa e que precisava sair dali sem ser notado. Entre sorrisos de cumplicidade, ele me disse que topava. Às oito da manhã ele entrou no quarto para fazer a limpeza e eu sai dentro do carrinho, me deixou na porta dos fundos do hotel e me disse que às quatro da tarde estaria ali para me levar ao quarto novamente. Peguei um táxi e fui ao aeroporto. Voltei para a minha cidade, peguei o carro velho e me dirigi a periferia. No carro uma mochila me acompanhava. Cheguei, estacionei e com a mochila fui até a casa. Encontrei Carlos cheirando, estava na cozinha, um silêncio assustador dominava o ambiente. Carlos tinha os dentes trincados, rondei a casa e percebi que ele estava sozinho. Chutei a porta dos fundos e ele se escondeu embaixo da mesa. Peguei-o e com o sonífero fiz que ele apagasse. Quando recobrou a consciência estava amarrado a uma cadeira.
Eu vestia uma roupa branca e tinha nas mãos um bisturi, a meia luz deixava o ambiente mais estranho. Escolhi de trilha sonora uma bela música clássica, que abafava qualquer barulho e deixava um gosto de prazer naquela situação de desespero e vingança. Olhei Carlos nos olhos, ele chorava, tentava sair da cadeira, tentava se mexer. Quando percebi que ele tinha mijado nas calças, sorri, era engraçado ver o machão se mijando. Ele sabia que eu seria o último rosto de homem que ele veria naquela vida. Tudo que ele fazia era em vão, não havia como fugir, enquanto ele gemia e esperneava eu lembrava dos meus dias de engraxate. Quantos “Carlos” passaram pelo meu caminho e me destrataram de forma arrogante. Então eu lhe disse ao pé do ouvido:
- Oi Carlos! Eu disse: oi! Que triste a tua situação, todo mijado, que nojo!
Cuspi em seu rosto, sentia nojo dele, cadê aquele cara forte, o fodão, o gostosão. Carlos muito assustado grunhia alguma coisa e eu voltei a falar:
- Deve ser estranho estar na tua situação, na real até posso imaginar, já vivi assim, preso a um lugar que não queria estar.
Então sorri. Peguei uma foto da Raquel e lhe mostrei:
- Sabe quem é ela não é?
Ele me olhava e dizia “não”, movimentando a cabeça. Que idiota, claro que ele conhecia. Seu corpo tremia, seu suor escorria e se misturava às lágrimas e meu coração naquele momento era uma montanha de gelo em erupção. Eu poderia cortá-lo em pedacinhos e espalhar pelos quatro cantos da cidade, poderia fazer uma sopa e dar aos pobres nas esquinas, poderia sumir com ele do jeito que eu quisesse. Mas o que eu queria naquele momento era vê-lo sofrer, vê-lo chorar, vê-lo suplicar ajuda para que eu poupasse sua vida. Não vou poupar nada, quero vê-lo se humilhar, rastejar e sucumbir ao meu poder de dizer sim ou não, de decidir quem vive e quem morre.
- Não deveria ter feito isso que tu fez seu viciadinho de merda, mas já que tu fez, agora não vamos chorar o leite derramado,não é?
Nesse momento rasguei-lhe a camiseta e levantei o bisturi. Seus olhos se arregalaram, começou a se debater na cadeira. Eu o peguei pelo queixo e lhe disse:
- Sabe Carlos, eu sempre tive vontade de ter algumas coisas. Como eu queria tê-la beijado, como eu sonhei em possuí-la , como eu desejei -a, mas tudo isso ficou no passado. E antes que tu apague, queria te avisar que há um vazio na minha alma e a culpa é tua seu play boy de merda, temos algumas coisas para colocar em dia, um sentimento tão intenso e perverso, um ódio acumulado por tudo que vivi e presenciei durante esse tempo todo, meus pensamentos te mataram há muito tempo, minha raiva transborda e me cega.
Encostei o bisturi em seu peito e fiz um corte na altura do coração, ele grunhia como um animal pronto para o abate, eu sorria e depositava ali todas as minhas mágoas com a sociedade que me tratara tão mal no passado. Peguei um afastador e abri-lhe o peito, podia ver seu coração bater por causa da cocaína que em seu sangue corria, senti prazer em ver seu coração batendo, então mais uma vez me aproximei
- Tu levou o meu amor, nada mais justo que eu levar teu coração.
E de uma vez só arranquei o coração do seu peito.
Coloquei aquele órgão quente numa sacola de plástico. Troquei de roupa, coloquei as brancas na mochila e queimei tudo na estrada. Peguei o carro e voltei ao hotel. Às quatro da tarde o funcionário do hotel me esperava, entrei no carrinho e ele me levou ao quarto, chamei algumas prostitutas e comemorei. Voltei para casa no dia seguinte e pela Tv soube que foi encontrado o corpo de Carlos pela mãe. Na casa havia muito sangue e resquícios de cocaína. Carlos e Raquel foram enterrados no mesmo cemitério e junto com eles foi o meu amor. Nunca mais amei ninguém, nem poderia ,sou um monstro, mas monstros com dinheiro são diferentes . Monstros com dinheiro são protegidos pelos mesmos monstros que criaram a sociedade moderna, nada simples de conviver, afinal de contas quando olho pra trás não sei dizer quem são os bandidos e quem são os homens maus.
Não sou um homem vingativo. Mentira, sou sim, aliás sou mais que vingativo. De monstro a terra está cheia, é só olhar a televisão, os jornais, as revistas, escutar um rádio, prestar atenção nas conversar dos bares, das praças, das filas de hospitais. Onde existir a raça humana haverá o mal incrustado dentro dela.
Quando conheci Raquel me apaixonei, morena linda, de rosto fino e pernas grossas. Essa moça estudada e extremamente educada logo se tornou a mulher dos meus sonhos. Mas Raquel não me dava a menor atenção e talvez o fato de não ter coragem de conversar com ela tenha gerado essa loucura que aconteceu em nossas vidas. Antes que o caro leitor ache que a matei, gostaria de antecipar que nunca faria isso com alguém que amei tanto na vida.
Trabalhava de engraxate na frente do escritório do pai de Raquel durante alguns anos. Sempre que ela passava ficava no ar um perfume doce que me deixava louco, mas a vergonha de ser pobre me proibia o contato. Nunca troquei um olhar com ela, até porque ela nunca olhou para baixo onde eu sempre me encontrava lustrando sapatos.
Meus dias eram sempre os mesmos. Acordava num bairro distante do centro, numa casa velha onde dividia com ratos e baratas as migalhas que ganhava lustrando sapatos dos altos executivos da cidade. Demorava duas horas de ônibus até o centro, o que me dava tempo de sobra para pensar, não tinha outro pensamento a não ser ganhar um dia o coração de Raquel, aquilo sim era paixão, dessas que a gente sente que é para sempre sabe? Daqueles amores que podem ultrapassar a nossa própria existência. Quando chegava ao centro com minha caixa de engraxate, não vou negar, tinha vergonha, mas precisava comer e me vestir. Era humilhado quase que diariamente por aqueles caras de colarinho branco e sapato bico fino. Uma vez um sujeito chegou a cuspir na minha cara porque bem na hora que estava engraxando seu sapato Raquel passou, me tirando a concentração, terminei passando a graxa na suas meias. O homem indignado me fez essa agressão moral, não se cospe na cara de um homem.
Raquel sempre passava sozinha em direção ao escritório de seu pai. Um dia eu disse para mim mesmo que aquele seria o dia que pararia na frente dela e lhe falaria a verdade. Falaria que a amava e que faria de tudo para ficar com ela, mas o medo me impediu, imagina eu, um mero engraxate, atacando um bela mulher no centro da cidade para lhe dizer que a amava. Coisa mais ridícula! Então desisti. Nesse mesmo dia, dentro do ônibus, estava voltando para minha casa quando uma cega entrou vendendo um bilhete da loteria. Comprei o tal bilhete, meio sem esperança, mas ao mesmo tempo com uma puta vontade de mudar de vida e realizar meus sonhos, ao mesmo tempo estaria ajudando aquela mulher que não enxergava e realmente precisa mais do que eu.
Na manhã seguinte, quando entrei na padaria para tomar minha meia taça de café preto e comer um cacetinho, dei uma olhada no jornal, lá estavam os números 13-32-36-41-44-50. Por um instante não acreditei.... Oh, meu Deus ! Eu tinha acabado de ganhar na loteria. A partir daí minha vida mudou, me regularizei na vida, comprei um apartamento num bairro nobre, um carro bonito e tomei um banho de loja. Às vezes passava na frente do escritório para ver se conseguia ver Raquel, mas não tinha sorte. Então voltei a estudar e meu amor ficou em segundo plano, queria ser alguém especial para ela. Eu não sabia falar direito mas com meu dinheiro e um pouco de boa vontade em um ano me tornei uma pessoa influente. Qualquer um que tenha a minha grana é uma pessoa influente.
Numa manhã de sexta feira, comprei flores e fui ao escritório do pai de Raquel. Aquela seria a primeira vez que falaria com ela, não sabia o que dizer. Pensei em falar a verdade, que eu era o engraxate que trabalhava ali na frente e que estava apaixonado por ela há muito tempo e que nunca tive coragem de contar. Entrei no escritório e lá estava ela sentada atrás de uma mesa de vidro perto da janela. Olhava para fora como se estivesse esperando alguém, nem percebeu minha chegada com flores no braço. Toquei a campainha, ela olhou pra frente e deu um sorriso. Uma menina que estava próximo dela me perguntou o que eu queria, mas eu seguia Raquel com os olhos, seu sorriso não era pra mim, mas sim para um homem que, atrás de mim, apareceu no mesmo instante. Mais uma vez ela passou por mim sem me ver e o beijou com ardor. Respondi para a menina que não era nada, que havia me enganado e saí. Arrasado voltei para o meu apartamento, me revoltei comigo por não tê-la procurado antes. Como eu pude ser tão idiota.... como uma mulher linda como ela não teria outros pretendentes... idiota! Idiota!
Depois da culpa veio o desespero, era Raquel que eu queria, nenhuma mulher tinha o mesmo perfume que me fazia sair do chão. Eu não tinha amigos e não gostava de gente, gostava dela e vivia pensando como seria lindo a nossa vida juntos. Passado alguns meses, estava lendo o jornal no café da manhã quando me deparo com a seguinte manchete: “ Mulher encontrada semi nua com marcas de estrangulamento. A vítima se encontra em coma no HPS”, era Raquel, meu sangue ferveu, minhas mãos começaram a suar e o choro foi inevitável. Quem seria capaz de fazer aquilo com uma mulher tão doce como Raquel? Isso já não importava mais, estava decidido, iria me vingar!
A tecnologia foi minha grande aliada na vingança, o primeiro passo foi procurar Raquel nas redes sociais. Assim que encontrei –a, pesquisei seus amigos e últimos namorados, muito fácil essa parte, logo cheguei ao homem que a beijara na única vez que tive coragem de me aproximar de Raquel.
Com alguns trocados arrumei um advogado, um porta de cadeia qualquer, como não queria que ninguém soubesse da minha existência ,convidei o advogado para uma reunião. Nunca falei com ele por celular, nosso primeiro contato foi por telefone convencional, eu liguei de um orelhão e nos encontramos. Ele conseguiu cópias do processo, do boletim de ocorrência e a ficha completa do seu último namorado e possível agressor. O advogado me alertou que estava mexendo com peixe grande e que o valor teria que ser aumentado por motivos óbvios, eu disse que tudo bem, entendia. Para comemorar nossa parceria, levei-o no alto de um morro belíssimo, abri o porta malas e tirei uma champanhe. Brindamos e por um descuido, o advogado caiu do morro. Saí correndo dali, chamei uma ambulância para o local e no dia seguinte fiquei sabendo da sua morte pela TV. Dizia que um advogado caiu bêbado de um morro e quebrou o pescoço, que possivelmente fora vítima de traficantes já que ele representava vários bandidos, lamentei mas segui no meu objetivo.
Estava em minhas mãos à ficha de um homem chamado Carlos Neves. Filho de um político importante na cidade, rico e bem nascido, estudou nas melhores escolas da região, morou fora do país e tinha histórico de pessoa violenta. Usuário de drogas, havia saído de uma clínica há seis meses e namorava Raquel há um ano e meio. Ele estava desaparecido e era considerado o possível agressor , por ser filho de pessoa influente não estava nas páginas dos jornais. Seu pai arrumou um jeito de parecer que a moça tivesse sido vítima de um assaltante ou mesmo de um tarado. O pior é que todos pareciam acreditar nisso, menos eu.
Um dia enquanto espreitava a casa de Carlos, percebi a movimentação de seguranças na rua. Uma mulher saiu da casa com uma sacola, segui-a , ela entrou em um táxi. Saímos do centro da cidade e chegamos a um bairro da periferia. Ela desceu do táxi, atravessou a rua e deixou um pacote em frente a porta de entrada de uma casa velha de madeira, depois saiu e foi embora. Fiquei ali de tocaia, esperando, quando uma viatura encostou atrás de mim. Pediram-me para descer do carro e colocar as mãos sobre o veículo. Expliquei que me perdi naquele lugar horrível, que meu GPS tinha estragado e que estava atrasado para um reunião. Eles pegaram meus dados, me mostraram o caminho e me disseram que uma senhora achou que se tratava de um carro roubado, sorrimos e voltei para casa. Mas antes de entrar no carro percebi que o pacote que a mulher tinha deixado não estava mais na porta de entrada daquela velha casa.
Agora eu tinha certeza que estava na cola do cara e que a polícia não seria um problema, por via das dúvidas resolvi seguir o plano B e ter o máximo de cuidado com tudo. Quando cheguei em casa liguei o meu computador e comprei uma passagem para outro Estado. Vôo no domingo às cinco da manhã, primeira classe. Fiz reserva em um hotel na beira da praia e comprei um carro velho num site de carros usados. Na sexta-feira, estacionei o carro velho há dez quadras de distância da minha casa, no lado de fora do estacionamento de um mercado onde sabia que não havia câmeras de vigilância. No sábado, peguei o carro velho, fui a um beco que conhecia e comprei cinqüenta gramas de cocaína. Na volta passei na frente da provável casa em que Carlos se escondia e deixei a droga num lugar perto da porta de entrada. Fiquei esperando e para a minha surpresa, Carlos apareceu na casa, achou a droga, entrou e apagou a luz. Isso era quase meia noite, meu plano corria bem. Voltei para casa e antes deixei o carro velho no mesmo lugar. Às cinco horas da manhã de domingo, peguei o avião, cheguei no Estado vizinho e fui para o hotel. Conversei com um rapaz que fazia a faxina nos quartos, com uma nota preta disse a ele que queria fazer uma surpresa para minha esposa e que precisava sair dali sem ser notado. Entre sorrisos de cumplicidade, ele me disse que topava. Às oito da manhã ele entrou no quarto para fazer a limpeza e eu sai dentro do carrinho, me deixou na porta dos fundos do hotel e me disse que às quatro da tarde estaria ali para me levar ao quarto novamente. Peguei um táxi e fui ao aeroporto. Voltei para a minha cidade, peguei o carro velho e me dirigi a periferia. No carro uma mochila me acompanhava. Cheguei, estacionei e com a mochila fui até a casa. Encontrei Carlos cheirando, estava na cozinha, um silêncio assustador dominava o ambiente. Carlos tinha os dentes trincados, rondei a casa e percebi que ele estava sozinho. Chutei a porta dos fundos e ele se escondeu embaixo da mesa. Peguei-o e com o sonífero fiz que ele apagasse. Quando recobrou a consciência estava amarrado a uma cadeira.
Eu vestia uma roupa branca e tinha nas mãos um bisturi, a meia luz deixava o ambiente mais estranho. Escolhi de trilha sonora uma bela música clássica, que abafava qualquer barulho e deixava um gosto de prazer naquela situação de desespero e vingança. Olhei Carlos nos olhos, ele chorava, tentava sair da cadeira, tentava se mexer. Quando percebi que ele tinha mijado nas calças, sorri, era engraçado ver o machão se mijando. Ele sabia que eu seria o último rosto de homem que ele veria naquela vida. Tudo que ele fazia era em vão, não havia como fugir, enquanto ele gemia e esperneava eu lembrava dos meus dias de engraxate. Quantos “Carlos” passaram pelo meu caminho e me destrataram de forma arrogante. Então eu lhe disse ao pé do ouvido:
- Oi Carlos! Eu disse: oi! Que triste a tua situação, todo mijado, que nojo!
Cuspi em seu rosto, sentia nojo dele, cadê aquele cara forte, o fodão, o gostosão. Carlos muito assustado grunhia alguma coisa e eu voltei a falar:
- Deve ser estranho estar na tua situação, na real até posso imaginar, já vivi assim, preso a um lugar que não queria estar.
Então sorri. Peguei uma foto da Raquel e lhe mostrei:
- Sabe quem é ela não é?
Ele me olhava e dizia “não”, movimentando a cabeça. Que idiota, claro que ele conhecia. Seu corpo tremia, seu suor escorria e se misturava às lágrimas e meu coração naquele momento era uma montanha de gelo em erupção. Eu poderia cortá-lo em pedacinhos e espalhar pelos quatro cantos da cidade, poderia fazer uma sopa e dar aos pobres nas esquinas, poderia sumir com ele do jeito que eu quisesse. Mas o que eu queria naquele momento era vê-lo sofrer, vê-lo chorar, vê-lo suplicar ajuda para que eu poupasse sua vida. Não vou poupar nada, quero vê-lo se humilhar, rastejar e sucumbir ao meu poder de dizer sim ou não, de decidir quem vive e quem morre.
- Não deveria ter feito isso que tu fez seu viciadinho de merda, mas já que tu fez, agora não vamos chorar o leite derramado,não é?
Nesse momento rasguei-lhe a camiseta e levantei o bisturi. Seus olhos se arregalaram, começou a se debater na cadeira. Eu o peguei pelo queixo e lhe disse:
- Sabe Carlos, eu sempre tive vontade de ter algumas coisas. Como eu queria tê-la beijado, como eu sonhei em possuí-la , como eu desejei -a, mas tudo isso ficou no passado. E antes que tu apague, queria te avisar que há um vazio na minha alma e a culpa é tua seu play boy de merda, temos algumas coisas para colocar em dia, um sentimento tão intenso e perverso, um ódio acumulado por tudo que vivi e presenciei durante esse tempo todo, meus pensamentos te mataram há muito tempo, minha raiva transborda e me cega.
Encostei o bisturi em seu peito e fiz um corte na altura do coração, ele grunhia como um animal pronto para o abate, eu sorria e depositava ali todas as minhas mágoas com a sociedade que me tratara tão mal no passado. Peguei um afastador e abri-lhe o peito, podia ver seu coração bater por causa da cocaína que em seu sangue corria, senti prazer em ver seu coração batendo, então mais uma vez me aproximei
- Tu levou o meu amor, nada mais justo que eu levar teu coração.
E de uma vez só arranquei o coração do seu peito.
Coloquei aquele órgão quente numa sacola de plástico. Troquei de roupa, coloquei as brancas na mochila e queimei tudo na estrada. Peguei o carro e voltei ao hotel. Às quatro da tarde o funcionário do hotel me esperava, entrei no carrinho e ele me levou ao quarto, chamei algumas prostitutas e comemorei. Voltei para casa no dia seguinte e pela Tv soube que foi encontrado o corpo de Carlos pela mãe. Na casa havia muito sangue e resquícios de cocaína. Carlos e Raquel foram enterrados no mesmo cemitério e junto com eles foi o meu amor. Nunca mais amei ninguém, nem poderia ,sou um monstro, mas monstros com dinheiro são diferentes . Monstros com dinheiro são protegidos pelos mesmos monstros que criaram a sociedade moderna, nada simples de conviver, afinal de contas quando olho pra trás não sei dizer quem são os bandidos e quem são os homens maus.
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