É triste ver o estado que chegamos, percebo que o Brasil se ajuda em momentos de crise, como essa que vemos nos noticiários da tv.
O que deveriámos realmente ver nesse momento é que estamos a um passo de destruir a única coisa que nos resta, nossa própria vida.
No dia que passou pela cabeça de algum cientista maluco que o homem, o in...significante homem, poderia destruir o mundo, o mesmo se achou um deus, o que não somos.
Não há como lutar contra a natureza e ela vem nos dando provas, como se precisasse, há anos, há milhares de anos.
De tempos em tempos a natureza mostra seu poder e aí vemos crianças sem lar e familiares chorando suas perdas materiais. Onde já se viu um morro destruir uma vida inteira de consumisto exacerbado! Pobres mortais que se acham donos do planeta...
O que me deixa triste é saber que em abril o lixo estará entupindo bueiros novamente, estaremos jogando lixo nas ruas, comprando o que não precisamos, destruindo a natureza para construir arranha-céus, comprando carros para andarmos sozinhos nas noites de sábado enquanto bebemos, fumamos e cheiramos, sem sequer pensarmos onde jogamos a bituca de cigarro ou mesmo a latinha de cerveja.
Quem se preocupa em ajudar os desabrigados nesse momento deveria também lembrar-se que durante o ano, cada vez que eles jogarem lixo nas ruas, estarão provocando suas próprias mortes no verão seguinte.
Temos que nos ajudar nesse momento difícil, mas temos a obrigação de nos lembrarmos que isso é nossa culpa, só nossa, não dos menos informados, não dos menos favorecidos, mas de todos, todos que circulam arrotando suas façanhas, todos que se julgam melhores que os que moram lá nas areas da tragédia.
A tragédia se mostra com a nossa cara, com o nosso sofrimento, mas principalmente com a nossa falta de responsabilidade, não podemos achar que o fato de mandar uma cesta básica ou alguns litros de água a quem precisa nos isenta da responsabilidade de um todo, somos parte de um ciclo que está prestes a acabar, como já acabou algumas vezes.
Aos que não se acham na necessidade de ler esse texto, não o faça, não se sinta responsável, durma tranquilamente em seu apartamento com circuito interno de vigilância e seu carro de luxo, volte pra sua vida maravilhosa, porque quando tudo der errado você terá pra onde fugir. Recicle seu lixo, não o jogue no chão, lembre sempre que a vida é um ciclo e pense nas próximas gerações.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Quando o asfalto chegar
Quando Leonel chegou à Barra, o vilarejo ainda não pertencia ao exército, apesar de muitos não acreditarem nisso. Seu Leonel comprou, a muito custo, um pedaço de terra na única rua que ligava o vilarejo ao resto do mundo, pelo menos por terra era só esse caminho. Com a chegada de novos moradores, pescadores e milicos, o vilarejo cresceu, não muito, mas o suficiente para que muitos carros e caminhões passassem quase que diariamente na frente da casa de seu Leonel.
A família de seu Jorge chegou pelo rio e por conta do valor baixo do terreno, foi morar no lado da casa de seu Leonel, tornaram-se vizinhos. Seu Leonel era agricultor e seu Jorge pescador. A família de seu Jorge foi crescendo com a chegada dos gêmeos e depois da pequena Nina, já a família de seu Leonel não prosperava tanto, mas também seguia seu rumo natural. As pedras e a poeira que subia todo santo dia na frente das casas, não estava sendo um problema, até o dia em que seu Leonel teve que levar sua mulher ao posto de saúde com falta de ar. Chegando ao posto, a enfermeira foi enfática:
- Acho melhor o senhor levar sua mulher no hospital, não temos recursos suficientes para atendê-la.
Com a ajuda de vizinhos e alguns parentes, seu Leonel conseguiu pagar um enterro descente para sua esposa, que partiu vítima de enfisema pulmonar. Em casa tudo tinha mudado, havia silêncio onde antes havia murmúrio, havia frio onde nunca houve nada, mas a tristeza de seu Leonel era grande. Sua lavoura não andava bem, uma seca massacrava cada sabugo que conseguia respirar mais de uma semana, sua vaca estava magra demais para dar leite, até para o seu café da manhã. A menos de dois metros dali, na casa ao lado, se ouvia a família de seu Jorge comemorando e sorrindo quase que diariamente. Pescador de talento, seu Jorge nunca voltou para casa de mãos abanando, era muito cordial e amigo de todos.
Os demais moradores da vila, não compraram os terrenos, acabaram invadindo as terras cobertas pelo matagal. A vila se organizou, chamaram a companhia de energia elétrica e mandaram fazer a instalação de luz. A prefeitura, muito esperta, arrumou “ligeirinho” a rede de esgotos e de água encanada para poder ganhar sua parte através do imposto. Agora, até caminhão de lixo seletivo passava, mas a poeira maldita, que levou o amor de seu Leonel, ah, essa continuava a deixar as janelas de todas as casas fechadas, tornando um segredo a vida de quem dentro delas habitava.
Seu Leonel, apesar da poeira, gostava de ficar nos finais de tarde tomando chimarrão e vendo a vida passar, pelo menos o que ele conseguia através da poeira. Os anos foram se passando e a cada dia, havia mais movimento no vilarejo. Todos os finais de semana, pessoas de cidades vizinhas vinham usufruir das cachoeiras e lagos da Barra. O rio já era famoso por ter os melhores viveiros de peixes da região, até mesmo seu Leonel pensou em virar pescador, mas a vaquinha engordou e a plantação voltou a crescer e prosperar. Seu Leonel acreditava que sua vida havia melhorado, mas ainda faltava alguma coisa para que ela se tornasse absoluta, uma vida digna de quem acordou por cinqüenta anos na beira de uma estrada de chão que ligava o rio da Barra ao asfalto da auto-estrada. Faltava a dignidade de deixar sua janela aberta durante os dias quentes de verão e nas noites, entre os mosquitos e o luar mais lindo do mundo.
Uma manhã, seu Jorge voltou mais cedo de sua pescaria. Recebeu a ligação de sua esposa lhe informando, aos berros, que sua pequena e única filha mulher, Nina, estava doente. Rapidamente levaram a menina ao hospital mais próximo onde foi diagnosticado o mesmo mal que levara a mulher de seu Leonel. Como a menina estava em estágio recente da doença, foi medicada e depois de alguns dias voltou para casa sã e salva. Na manhã seguinte, com a ajuda de seu Leonel e de outros moradores, houve um protesto diante da prefeitura contra aquela poeira maldita. O prefeito prometeu abrir uma licitação de caráter emergencial para resolver o problema dos moradores.
Seu Leonel, seu Jorge e os demais vizinhos, mediram a rua onde necessitava asfalto e enviaram a metragem ao prefeito, que assinou, na hora, o projeto de construção da via pública do vilarejo. Aquele dia foi marcante, todos faziam planos, havia boatos de que, com a chegada do asfalto, viriam comerciantes e um tal “crescimento absurdo” para aquele vilarejo modesto chamado “Barra”. Seu Leonel estava em êxtase, foi na vendinha de seu Romão e pagou, em leite, uma rodada de cachaça para todos. Seu Jorge brindou junto.
- É Leonel, tu vê como são as coisas, quando tua mulher morreu , “que Deus a tenha”, a gente nem pensava em se organizar para conseguir o que a gente queria. Faltou um pouco de atitude naquela época, mas quando minha filha quase morreu, não faltou uma mão para que essa idéia seguisse adiante.
Leonel lembrou da sua mulher e não conseguiu conter o choro, Jorge e Leonel abraçados choraram a vida e a morte no mesmo gole. Dois dias depois surgiram, ao longe, entre poeira e solidão, caminhões da empreiteira escolhida para a realização do que seria “o maior avanço da civilização”, depois da garrafa térmica para aqueles que adoravam chimarrão e odiavam a poeira. Era para mais de cinco caminhões e máquinas retro escavadeiras, os homens com seus uniformes e capacetes davam ao lugar a idéia de que ali o mundo estava prestes a mudar. O que tantas noites tirou o sono dos moradores, agora estava prestes a se tornar realidade.
Seu Leonel saiu à frente de seu terreno para receber com aplausos, juntos com os outros moradores, as máquinas da nova obra do vilarejo. A segunda maior, pois a primeira tinha sido o muro do cemitério. Esse muro servia não só para determinar onde começava e acabava o mesmo, como evitava que em dias de temporais muito fortes os corpos escorressem pelo morro abaixo e viessem parar na rua onde o asfalto não havia chegado. Mas seu Leonel não gostou quando ouviu a seguinte frase do encarregado da obra:
- Vamos começar lá por baixo, são quinhentos metros de asfalto e de boca de lobo, tenho certeza que assim terminaremos em três dias. Vamos lá pessoal!
Quinhentos metros, o número de alguma maneira deixou seu Leonel desconfortável, mas estava feliz pois via com seus próprios olhos o que o ser humano era capaz de fazer. Ele levava água gelada para os operários e a mulher do seu Jorge levava bolinhos e bolachas, tudo para que eles trabalhassem com amor e bem rápido. Dizem as más línguas que a mulher do seu Jorge adorava ouvir as histórias que os obreiros contavam, enquanto comiam tudo que ela tinha para dar. Ao final de uma semana, os olhares que haviam brilhado como a negra cor do asfalto, que tomava a rua e deixava as casas mais bonitas do que nunca, se transformaram em desconfiança, principalmente de seu Leonel. Ele percebia que a obra ainda não tinha chegado à frente de sua casa e, pior, dava a entender que nunca chegaria. Em um dia quente de sol escaldante, seu Leonel percebeu que algumas máquinas estavam de partida e saiu correndo atrás delas para tirar satisfação do que realmente estava acontecendo.
- Ei, ei, ei!! Voltem aqui, faltou a minha parte! Faltou terminar aqui na frente da minha casa! Voltem, voltem, por favor voltem!
Seu Leonel olhou para trás e viu todos os outros moradores festejando diante de suas residências as maravilhas do asfalto. Ao perceberem a tristeza de seu Leonel, foram condescendentes com ele e começaram a chamar os caminhões, tudo sem sucesso. Na manhã seguinte, seu Jorge e seu Leonel foram à prefeitura para reclamar e se depararam com uma situação no mínimo constrangedora: a medida que eles mesmos haviam mandado para a prefeitura, não incluía a última casa que havia sido construída dias antes, fruto de mais uma invasão. Como os engenheiros mediram de baixo para cima, a casa do seu Leonel estava fora dos quinhentos metros de asfalto, sendo assim, não havia erro por parte da empreiteira e muito menos da prefeitura.
- Veja bem seu Leonel, não sei realmente o que eu poderia fazer para resolver o seu caso, uma nova licitação dependeria de aprovação dos vereadores que nesse exato momento estão resolvendo problemas de outras regiões. Sua demanda voltaria para o final da fila, sendo assim, levaríamos mais ou menos uns dez anos para resolver o seu problema. Mas quero que o senhor saiba que estou aqui para ajudá-lo no que for possível!
- Estou vendo! Mas deve haver alguma coisa que possamos fazer para amenizar esse problema secretário. - respondeu seu Leonel.
- Claro que sim, vou ver isso com meu pessoal e amanhã ligamos para dar um retorno, ok¿ Agora, se me derem licença, tenho outras pessoas para atender. – disse, conduzindo-os até a porta.
Nas semanas seguintes, diariamente, às oito da manhã e às cinco da tarde, passava o caminhão pipa para molhar o pedaço da rua que não tinha asfalto. Ao final da segunda semana isso não aconteceu mais, seu Leonel tentou organizar um grupo que fosse conversar com o prefeito, mas infelizmente a única parte que não tinha asfalto era onde ele morava. Isso desmotivou os moradores que já usufruíam da rua sem poeira.
Seu Leonel se tornou um homem de cara fechada, achou que tinha sido traído. Um dia, bêbado, bateu no rapaz que invadiu o último terreno que tinha na rua, o primeiro a ser asfaltado, causando péssima impressão nos outros moradores que começaram a enxergá-lo como um velho ranzinza. Ele, por sua vez, terminou por acolher o estigma. Hoje, quem vai à prainha da Barra, pega muita poeira pela estrada, são mais de dez quilômetros de estrada de chão e quinhentos metros de asfalto. Logo depois da curva a prefeitura colocou pedras de paralelepípedo, imaginando que estavam fazendo para o lado certo, mas infelizmente erraram o lado novamente. Dessa forma a casa do seu Leonel se tornou referência para os turistas:
“ Para chegar na prainha da barra é simples: segue pela estrada de terra até a casa do véio Leonel, que é a ultima com poeira, depois começa o asfalto.”
O tão esperado “crescimento absurdo”, com comércio e lojas, não chegou, preservando boa parte da história do vilarejo. Seu Jorge, hoje, líder comunitário e guia turístico, segue feliz da vida e volta e meia faz umas festas para celebrar as suas conquistas, sempre convida seu Leonel, mas esse não quer saber de nada. Quando convidado para qualquer coisa, a resposta é sempre a mesma:
- Vai pra puta que te pariu.
Fim.
A família de seu Jorge chegou pelo rio e por conta do valor baixo do terreno, foi morar no lado da casa de seu Leonel, tornaram-se vizinhos. Seu Leonel era agricultor e seu Jorge pescador. A família de seu Jorge foi crescendo com a chegada dos gêmeos e depois da pequena Nina, já a família de seu Leonel não prosperava tanto, mas também seguia seu rumo natural. As pedras e a poeira que subia todo santo dia na frente das casas, não estava sendo um problema, até o dia em que seu Leonel teve que levar sua mulher ao posto de saúde com falta de ar. Chegando ao posto, a enfermeira foi enfática:
- Acho melhor o senhor levar sua mulher no hospital, não temos recursos suficientes para atendê-la.
Com a ajuda de vizinhos e alguns parentes, seu Leonel conseguiu pagar um enterro descente para sua esposa, que partiu vítima de enfisema pulmonar. Em casa tudo tinha mudado, havia silêncio onde antes havia murmúrio, havia frio onde nunca houve nada, mas a tristeza de seu Leonel era grande. Sua lavoura não andava bem, uma seca massacrava cada sabugo que conseguia respirar mais de uma semana, sua vaca estava magra demais para dar leite, até para o seu café da manhã. A menos de dois metros dali, na casa ao lado, se ouvia a família de seu Jorge comemorando e sorrindo quase que diariamente. Pescador de talento, seu Jorge nunca voltou para casa de mãos abanando, era muito cordial e amigo de todos.
Os demais moradores da vila, não compraram os terrenos, acabaram invadindo as terras cobertas pelo matagal. A vila se organizou, chamaram a companhia de energia elétrica e mandaram fazer a instalação de luz. A prefeitura, muito esperta, arrumou “ligeirinho” a rede de esgotos e de água encanada para poder ganhar sua parte através do imposto. Agora, até caminhão de lixo seletivo passava, mas a poeira maldita, que levou o amor de seu Leonel, ah, essa continuava a deixar as janelas de todas as casas fechadas, tornando um segredo a vida de quem dentro delas habitava.
Seu Leonel, apesar da poeira, gostava de ficar nos finais de tarde tomando chimarrão e vendo a vida passar, pelo menos o que ele conseguia através da poeira. Os anos foram se passando e a cada dia, havia mais movimento no vilarejo. Todos os finais de semana, pessoas de cidades vizinhas vinham usufruir das cachoeiras e lagos da Barra. O rio já era famoso por ter os melhores viveiros de peixes da região, até mesmo seu Leonel pensou em virar pescador, mas a vaquinha engordou e a plantação voltou a crescer e prosperar. Seu Leonel acreditava que sua vida havia melhorado, mas ainda faltava alguma coisa para que ela se tornasse absoluta, uma vida digna de quem acordou por cinqüenta anos na beira de uma estrada de chão que ligava o rio da Barra ao asfalto da auto-estrada. Faltava a dignidade de deixar sua janela aberta durante os dias quentes de verão e nas noites, entre os mosquitos e o luar mais lindo do mundo.
Uma manhã, seu Jorge voltou mais cedo de sua pescaria. Recebeu a ligação de sua esposa lhe informando, aos berros, que sua pequena e única filha mulher, Nina, estava doente. Rapidamente levaram a menina ao hospital mais próximo onde foi diagnosticado o mesmo mal que levara a mulher de seu Leonel. Como a menina estava em estágio recente da doença, foi medicada e depois de alguns dias voltou para casa sã e salva. Na manhã seguinte, com a ajuda de seu Leonel e de outros moradores, houve um protesto diante da prefeitura contra aquela poeira maldita. O prefeito prometeu abrir uma licitação de caráter emergencial para resolver o problema dos moradores.
Seu Leonel, seu Jorge e os demais vizinhos, mediram a rua onde necessitava asfalto e enviaram a metragem ao prefeito, que assinou, na hora, o projeto de construção da via pública do vilarejo. Aquele dia foi marcante, todos faziam planos, havia boatos de que, com a chegada do asfalto, viriam comerciantes e um tal “crescimento absurdo” para aquele vilarejo modesto chamado “Barra”. Seu Leonel estava em êxtase, foi na vendinha de seu Romão e pagou, em leite, uma rodada de cachaça para todos. Seu Jorge brindou junto.
- É Leonel, tu vê como são as coisas, quando tua mulher morreu , “que Deus a tenha”, a gente nem pensava em se organizar para conseguir o que a gente queria. Faltou um pouco de atitude naquela época, mas quando minha filha quase morreu, não faltou uma mão para que essa idéia seguisse adiante.
Leonel lembrou da sua mulher e não conseguiu conter o choro, Jorge e Leonel abraçados choraram a vida e a morte no mesmo gole. Dois dias depois surgiram, ao longe, entre poeira e solidão, caminhões da empreiteira escolhida para a realização do que seria “o maior avanço da civilização”, depois da garrafa térmica para aqueles que adoravam chimarrão e odiavam a poeira. Era para mais de cinco caminhões e máquinas retro escavadeiras, os homens com seus uniformes e capacetes davam ao lugar a idéia de que ali o mundo estava prestes a mudar. O que tantas noites tirou o sono dos moradores, agora estava prestes a se tornar realidade.
Seu Leonel saiu à frente de seu terreno para receber com aplausos, juntos com os outros moradores, as máquinas da nova obra do vilarejo. A segunda maior, pois a primeira tinha sido o muro do cemitério. Esse muro servia não só para determinar onde começava e acabava o mesmo, como evitava que em dias de temporais muito fortes os corpos escorressem pelo morro abaixo e viessem parar na rua onde o asfalto não havia chegado. Mas seu Leonel não gostou quando ouviu a seguinte frase do encarregado da obra:
- Vamos começar lá por baixo, são quinhentos metros de asfalto e de boca de lobo, tenho certeza que assim terminaremos em três dias. Vamos lá pessoal!
Quinhentos metros, o número de alguma maneira deixou seu Leonel desconfortável, mas estava feliz pois via com seus próprios olhos o que o ser humano era capaz de fazer. Ele levava água gelada para os operários e a mulher do seu Jorge levava bolinhos e bolachas, tudo para que eles trabalhassem com amor e bem rápido. Dizem as más línguas que a mulher do seu Jorge adorava ouvir as histórias que os obreiros contavam, enquanto comiam tudo que ela tinha para dar. Ao final de uma semana, os olhares que haviam brilhado como a negra cor do asfalto, que tomava a rua e deixava as casas mais bonitas do que nunca, se transformaram em desconfiança, principalmente de seu Leonel. Ele percebia que a obra ainda não tinha chegado à frente de sua casa e, pior, dava a entender que nunca chegaria. Em um dia quente de sol escaldante, seu Leonel percebeu que algumas máquinas estavam de partida e saiu correndo atrás delas para tirar satisfação do que realmente estava acontecendo.
- Ei, ei, ei!! Voltem aqui, faltou a minha parte! Faltou terminar aqui na frente da minha casa! Voltem, voltem, por favor voltem!
Seu Leonel olhou para trás e viu todos os outros moradores festejando diante de suas residências as maravilhas do asfalto. Ao perceberem a tristeza de seu Leonel, foram condescendentes com ele e começaram a chamar os caminhões, tudo sem sucesso. Na manhã seguinte, seu Jorge e seu Leonel foram à prefeitura para reclamar e se depararam com uma situação no mínimo constrangedora: a medida que eles mesmos haviam mandado para a prefeitura, não incluía a última casa que havia sido construída dias antes, fruto de mais uma invasão. Como os engenheiros mediram de baixo para cima, a casa do seu Leonel estava fora dos quinhentos metros de asfalto, sendo assim, não havia erro por parte da empreiteira e muito menos da prefeitura.
- Veja bem seu Leonel, não sei realmente o que eu poderia fazer para resolver o seu caso, uma nova licitação dependeria de aprovação dos vereadores que nesse exato momento estão resolvendo problemas de outras regiões. Sua demanda voltaria para o final da fila, sendo assim, levaríamos mais ou menos uns dez anos para resolver o seu problema. Mas quero que o senhor saiba que estou aqui para ajudá-lo no que for possível!
- Estou vendo! Mas deve haver alguma coisa que possamos fazer para amenizar esse problema secretário. - respondeu seu Leonel.
- Claro que sim, vou ver isso com meu pessoal e amanhã ligamos para dar um retorno, ok¿ Agora, se me derem licença, tenho outras pessoas para atender. – disse, conduzindo-os até a porta.
Nas semanas seguintes, diariamente, às oito da manhã e às cinco da tarde, passava o caminhão pipa para molhar o pedaço da rua que não tinha asfalto. Ao final da segunda semana isso não aconteceu mais, seu Leonel tentou organizar um grupo que fosse conversar com o prefeito, mas infelizmente a única parte que não tinha asfalto era onde ele morava. Isso desmotivou os moradores que já usufruíam da rua sem poeira.
Seu Leonel se tornou um homem de cara fechada, achou que tinha sido traído. Um dia, bêbado, bateu no rapaz que invadiu o último terreno que tinha na rua, o primeiro a ser asfaltado, causando péssima impressão nos outros moradores que começaram a enxergá-lo como um velho ranzinza. Ele, por sua vez, terminou por acolher o estigma. Hoje, quem vai à prainha da Barra, pega muita poeira pela estrada, são mais de dez quilômetros de estrada de chão e quinhentos metros de asfalto. Logo depois da curva a prefeitura colocou pedras de paralelepípedo, imaginando que estavam fazendo para o lado certo, mas infelizmente erraram o lado novamente. Dessa forma a casa do seu Leonel se tornou referência para os turistas:
“ Para chegar na prainha da barra é simples: segue pela estrada de terra até a casa do véio Leonel, que é a ultima com poeira, depois começa o asfalto.”
O tão esperado “crescimento absurdo”, com comércio e lojas, não chegou, preservando boa parte da história do vilarejo. Seu Jorge, hoje, líder comunitário e guia turístico, segue feliz da vida e volta e meia faz umas festas para celebrar as suas conquistas, sempre convida seu Leonel, mas esse não quer saber de nada. Quando convidado para qualquer coisa, a resposta é sempre a mesma:
- Vai pra puta que te pariu.
Fim.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
O Escritor e a Atriz
Uma simples carta pode mudar a vida dos que não esperam mais nada dela...
Olá sou escritor do interior e me disseram que a senhorita poderia me ajudar na carreira.
Meu nome é Raul, sou um homem desiludido com a profissão, não tenho filhos e nem onde morar, não tenho amigos nem mesmo um cachorro a quem chorar minhas mágoas.
Moro no fundo de um terreno baldio. Me alimento quando tenho fome e o que estiver disponível.
Meu talento, ah esse nunca me abandonou, diferente das milhares de mulheres que tive e que não acreditavam nele.
Sempre quis conhecer mais pessoas que trabalham com arte. Um dia vi num recorte de jornal o retrato de uma linda mulher, parecia um copo de leite. Era uma atriz somente de teatro, apesar de achar que atores são de tudo, de tudo onde se precisa de interpretação, mas entendi quando li sobre ser atriz somente de teatro.
Gosto de escrever e tenho alguma habilidade para isso, nunca soube se o que escrevia era bom ou ruim, como não tenho amigos e as pessoas que conhecia eram todas analfabetas, não tive esse feedback das minhas escritas.
Espero que me desculpe por aparecer assim sem avisar, mas tenho certeza que se a senhorita me der um segundo de atenção verá em mim mais que um homem. Sou bem mais que isso, sou um ser que pensa, que ama e que sofre.
Como estava lhe falando, quando vi aquele recorte de jornal e aquela mulher que nele repousava, meus olhos brilharam, mas isso foi há muito tempo atrás, nunca mais vi ela em lugar algum.
Certa vez, anos mais tarde, enquanto tentava comprar uma tv, o vendendor trocava de canal e de repente ela surgiu como um anjo, seu rosto branco parecia mais branco que de costume. Suas roupas eram infantis, bem diferente da primeira vez que a vi, mas seu olhar era o mesmo, o que dispertou em mim novamente a paixão.
Sei que minhas desculpas para me aproximar dela não são as melhores, mas também não tenho porque me desculpar. Nunca vi ela, mas sempre lhe amei, do meu jeito, a distância, com paciência de quem sabe que o que é seu, está guardado.
Sabia que o dia iria chegar e junto com esse dia minha sorte mudaria, não seria mais visto como um qualquer, não seria mais um a passar pela fome de vida que rege os seres humanos sem alma.
Sabia que a paixão e o eterno amor estariam ao meu lado em forma de uma bela e branca mulher de olhos pequenos e coração grande, de amores impossíveis e de sexo vibrante, sei que estou sendo chato com a senhorita e mais uma vez queria me desculpar, prometo ser mais objetivo daqui pra frente, apesar de não saber como dizer isso normalmente, acredito que sim é possível e por isso venho a sua procura, da senhorita, apesar de todo seu conhecimento, não quero nada de trabalho, quero apenas saber que na minha vida um dia conheci e conversei com uma diva, uma musa do teatro, não saberia terminar essa conversa de outra maneira a não ser a que lhe direi agora
Senhorita Carlota Back aceitar casar comigo para todo sempre até que a morte nos separe?
Beijo Te Amo
Resposta:
Prezado Sr. Raul, tua sinceridade me toca, como tocado somos todos os que trabalham com arte e que vêem no coração humano mais que veias e sangue. Vemos um combustível de vida, de arte, de beleza, de sentimento, de ar, de pulsar, de respiração... Tuas palavras me tocaram.
Sou um ser humano cheio de erros, incompreensões, chatice, egoísmo, mas com uma sensibilidade ímpar para perceber um ser humano talentoso, sensível, interessante, vibrante e pelo jeito com enorme capacidade de escrita como percebo em vossa senhoria.
Adoraria crescer ao seu lado, me tornar uma pessoa melhor, mais iluminada, mais feliz..... Temo que isso possa acontecer quando o frente a frente surgir,
também já esperei pacientemente a chegada daquele que meu intímo suspeitava ser uma pessoa pra lá de especial, acalentei esse momento por anos.
Vendo-o de perto, respirando informações, acalentando sonhos, hoje ISTO surgiu.
Aceito seu pedido de casamento e prometo que ele não será só especial
será uma beleza semelhante a arte que a gente acredita e para o qual a gente vive. Meu amor a arte se equipara ao amor que posso lhe oferecer pois ambos andarão juntos.
Estou indo ao teu encontro nesse momento, me aguarde.
Estou de blusa com flores e bermuda branca.
Só peço que me ame sempre que eu sempre te amarei.
Olá sou escritor do interior e me disseram que a senhorita poderia me ajudar na carreira.
Meu nome é Raul, sou um homem desiludido com a profissão, não tenho filhos e nem onde morar, não tenho amigos nem mesmo um cachorro a quem chorar minhas mágoas.
Moro no fundo de um terreno baldio. Me alimento quando tenho fome e o que estiver disponível.
Meu talento, ah esse nunca me abandonou, diferente das milhares de mulheres que tive e que não acreditavam nele.
Sempre quis conhecer mais pessoas que trabalham com arte. Um dia vi num recorte de jornal o retrato de uma linda mulher, parecia um copo de leite. Era uma atriz somente de teatro, apesar de achar que atores são de tudo, de tudo onde se precisa de interpretação, mas entendi quando li sobre ser atriz somente de teatro.
Gosto de escrever e tenho alguma habilidade para isso, nunca soube se o que escrevia era bom ou ruim, como não tenho amigos e as pessoas que conhecia eram todas analfabetas, não tive esse feedback das minhas escritas.
Espero que me desculpe por aparecer assim sem avisar, mas tenho certeza que se a senhorita me der um segundo de atenção verá em mim mais que um homem. Sou bem mais que isso, sou um ser que pensa, que ama e que sofre.
Como estava lhe falando, quando vi aquele recorte de jornal e aquela mulher que nele repousava, meus olhos brilharam, mas isso foi há muito tempo atrás, nunca mais vi ela em lugar algum.
Certa vez, anos mais tarde, enquanto tentava comprar uma tv, o vendendor trocava de canal e de repente ela surgiu como um anjo, seu rosto branco parecia mais branco que de costume. Suas roupas eram infantis, bem diferente da primeira vez que a vi, mas seu olhar era o mesmo, o que dispertou em mim novamente a paixão.
Sei que minhas desculpas para me aproximar dela não são as melhores, mas também não tenho porque me desculpar. Nunca vi ela, mas sempre lhe amei, do meu jeito, a distância, com paciência de quem sabe que o que é seu, está guardado.
Sabia que o dia iria chegar e junto com esse dia minha sorte mudaria, não seria mais visto como um qualquer, não seria mais um a passar pela fome de vida que rege os seres humanos sem alma.
Sabia que a paixão e o eterno amor estariam ao meu lado em forma de uma bela e branca mulher de olhos pequenos e coração grande, de amores impossíveis e de sexo vibrante, sei que estou sendo chato com a senhorita e mais uma vez queria me desculpar, prometo ser mais objetivo daqui pra frente, apesar de não saber como dizer isso normalmente, acredito que sim é possível e por isso venho a sua procura, da senhorita, apesar de todo seu conhecimento, não quero nada de trabalho, quero apenas saber que na minha vida um dia conheci e conversei com uma diva, uma musa do teatro, não saberia terminar essa conversa de outra maneira a não ser a que lhe direi agora
Senhorita Carlota Back aceitar casar comigo para todo sempre até que a morte nos separe?
Beijo Te Amo
Resposta:
Prezado Sr. Raul, tua sinceridade me toca, como tocado somos todos os que trabalham com arte e que vêem no coração humano mais que veias e sangue. Vemos um combustível de vida, de arte, de beleza, de sentimento, de ar, de pulsar, de respiração... Tuas palavras me tocaram.
Sou um ser humano cheio de erros, incompreensões, chatice, egoísmo, mas com uma sensibilidade ímpar para perceber um ser humano talentoso, sensível, interessante, vibrante e pelo jeito com enorme capacidade de escrita como percebo em vossa senhoria.
Adoraria crescer ao seu lado, me tornar uma pessoa melhor, mais iluminada, mais feliz..... Temo que isso possa acontecer quando o frente a frente surgir,
também já esperei pacientemente a chegada daquele que meu intímo suspeitava ser uma pessoa pra lá de especial, acalentei esse momento por anos.
Vendo-o de perto, respirando informações, acalentando sonhos, hoje ISTO surgiu.
Aceito seu pedido de casamento e prometo que ele não será só especial
será uma beleza semelhante a arte que a gente acredita e para o qual a gente vive. Meu amor a arte se equipara ao amor que posso lhe oferecer pois ambos andarão juntos.
Estou indo ao teu encontro nesse momento, me aguarde.
Estou de blusa com flores e bermuda branca.
Só peço que me ame sempre que eu sempre te amarei.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Desabafo do Palhaço
Aos que não se tornaram estrelas e vivem da arte como meras cigarras, meu desabafo! Esse vem da mágoa de ver a situação da Casa do Artista, onde um dia eu ou qualquer um que se diz “artista”, pode vir a morar. A classe não é unida e isso todo mundo sabe. A vergonha é do descaso de quem ri, chora e se emociona ao ver um ator ou uma atriz interpretando, ao escutar uma música de letra melancólica que fala da cidade e de seus mais obscuros sentimentos, do cara que pintava muros e hoje é um artista plástico, daqueles que pegam lixo e fazem arte moderna, de quem escreve e traduz em palavras os nossos sentimentos, de quem dança em cima dos palcos e por toda a gente que cria e recria a arte no Estado e nessa cidade linda que é Porto alegre, mas isso não condiz com a forma que a própria cidade nos trata.
O artista sai de casa e não sabe se volta com o leite e o pão de cada dia. O cara que não trabalha na Globo não é considerado artista pela grande maioria, para o público e para o poder público o artista é aquele que aparece nos finais de semana ou em comícios contratados por preço de banana ou até mesmo trabalhando de graça por acreditar nas propostas daqueles que nos enxergam como um simples produto guardado em armários, num canto de uma velha casa abandonada.
Minha mágoa com o público e com o poder público vai passar, mas e o lugar onde um dia os que não desistirem da profissão, mas forem derrotados por algo maior que a arte, o dinheiro, vão morar? Esse continua lá, caindo aos pedaços. É assim que a Casa do Artista está, caindo. Onde essas pessoas vão morar, onde eu vou morar se não me tornar uma estrela global? Um amigo músico escreveu em seu blog sobre a maneira que a sociedade vê o artista, o Diego Silva estava certo em cada vírgula que ele escreveu. Quando Mauricio Pereira escreveu a música “Um Dia Útil”, ele estava certo em cada palavra. Meu Deus! Chego a me emocionar escrevendo isso, fica difícil esconder minha vergonha por fazer parte de um mundo onde somos invisíveis aos olhos da sociedade. Minha mulher é atriz, meu maior orgulho e espelho de uma profissão tão glamourosa e de tamanho descaso. Trabalha em mil coisas ao mesmo tempo para conseguir sobreviver, mas quero ver se existem alguem em sã conciência se atreva a dizer que ela não tem talento. Não trabalhando na grande mídia, se resume a labutar no teatro gaúcho, fazendo bicos como a maioria de nós, sem férias, sem décimo terceiro, vale transporte, vale refeição. Um colega fica doente levando arte pelo mundo e nós temos que nos unir aqui para juntar grana pra ele poder se curar, onde está a organização da classe, cadê quem nos ampare? Onde o poder público entra nessas horas? Não entra. Já passou o momento eleitoral, não somos mais necessários. Queria que um único político se manifestasse contra o que escrevo, queria muito, mas sei que isso não vai acontecer, é uma vergonha a omissão dos políticos com a classe artística. Hoje entristeci ao constatar que somos tratados como bonecos nas mãos de quem tem o poder, mas maior que isso é nosso talento, do palhaço de rua ao artesão do Brique da Redenção, passando por egos dos que tiveram mais sorte na profissão.
Meu desabafo termina quando vejo que estamos sozinhos e preocupados em dar nossas vidas e nossa arte a um povo que não sabe e nem quer saber dos nossos problemas. O poder público deixa pra lá pois acredita que tem coisa melhor pra fazer e nos coloca em segundo plano, quando deveria investir na cultura. Minhas lágrimas são de tristeza por saber que estamos sozinhos, minhas lágrimas são de ver gente que nem eu praticamente sobrevivendo como animais em uma velha casa abandonada no Bairro Glória, nem mesmo eu sabia do estado da casa do artista riograndense. Que vergonha da minha classe, que vergonha de ser gaúcho nessas horas. Minha vergonha se espalha aos quatro cantos do Rio Grande e se multiplica ao ser lançado aos cantos do Brasil.
Até quando seremos tratados assim? Será que seremos obrigados a passar por uma peneira onde algum que não é artista irá decidir quem fica e quem vai ter que mudar de profissão?
Estamos numa situação ímpar, cadê as parcerias agora? No final de nossas vidas seremos jogados numa casa e esquecidos? Será que o poder público quer que os artistas acabem com uma caixinha de esmolas em frente aos sinais de trânsito?
“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”... Bullshit.
O artista sai de casa e não sabe se volta com o leite e o pão de cada dia. O cara que não trabalha na Globo não é considerado artista pela grande maioria, para o público e para o poder público o artista é aquele que aparece nos finais de semana ou em comícios contratados por preço de banana ou até mesmo trabalhando de graça por acreditar nas propostas daqueles que nos enxergam como um simples produto guardado em armários, num canto de uma velha casa abandonada.
Minha mágoa com o público e com o poder público vai passar, mas e o lugar onde um dia os que não desistirem da profissão, mas forem derrotados por algo maior que a arte, o dinheiro, vão morar? Esse continua lá, caindo aos pedaços. É assim que a Casa do Artista está, caindo. Onde essas pessoas vão morar, onde eu vou morar se não me tornar uma estrela global? Um amigo músico escreveu em seu blog sobre a maneira que a sociedade vê o artista, o Diego Silva estava certo em cada vírgula que ele escreveu. Quando Mauricio Pereira escreveu a música “Um Dia Útil”, ele estava certo em cada palavra. Meu Deus! Chego a me emocionar escrevendo isso, fica difícil esconder minha vergonha por fazer parte de um mundo onde somos invisíveis aos olhos da sociedade. Minha mulher é atriz, meu maior orgulho e espelho de uma profissão tão glamourosa e de tamanho descaso. Trabalha em mil coisas ao mesmo tempo para conseguir sobreviver, mas quero ver se existem alguem em sã conciência se atreva a dizer que ela não tem talento. Não trabalhando na grande mídia, se resume a labutar no teatro gaúcho, fazendo bicos como a maioria de nós, sem férias, sem décimo terceiro, vale transporte, vale refeição. Um colega fica doente levando arte pelo mundo e nós temos que nos unir aqui para juntar grana pra ele poder se curar, onde está a organização da classe, cadê quem nos ampare? Onde o poder público entra nessas horas? Não entra. Já passou o momento eleitoral, não somos mais necessários. Queria que um único político se manifestasse contra o que escrevo, queria muito, mas sei que isso não vai acontecer, é uma vergonha a omissão dos políticos com a classe artística. Hoje entristeci ao constatar que somos tratados como bonecos nas mãos de quem tem o poder, mas maior que isso é nosso talento, do palhaço de rua ao artesão do Brique da Redenção, passando por egos dos que tiveram mais sorte na profissão.
Meu desabafo termina quando vejo que estamos sozinhos e preocupados em dar nossas vidas e nossa arte a um povo que não sabe e nem quer saber dos nossos problemas. O poder público deixa pra lá pois acredita que tem coisa melhor pra fazer e nos coloca em segundo plano, quando deveria investir na cultura. Minhas lágrimas são de tristeza por saber que estamos sozinhos, minhas lágrimas são de ver gente que nem eu praticamente sobrevivendo como animais em uma velha casa abandonada no Bairro Glória, nem mesmo eu sabia do estado da casa do artista riograndense. Que vergonha da minha classe, que vergonha de ser gaúcho nessas horas. Minha vergonha se espalha aos quatro cantos do Rio Grande e se multiplica ao ser lançado aos cantos do Brasil.
Até quando seremos tratados assim? Será que seremos obrigados a passar por uma peneira onde algum que não é artista irá decidir quem fica e quem vai ter que mudar de profissão?
Estamos numa situação ímpar, cadê as parcerias agora? No final de nossas vidas seremos jogados numa casa e esquecidos? Será que o poder público quer que os artistas acabem com uma caixinha de esmolas em frente aos sinais de trânsito?
“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”... Bullshit.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Soluções milagrosas do amor
Hoje, mexendo em algumas fotos antigas, lembrei da minha infância, coisa boa ser criança! Pena que minha condição financeira naquela época tenha deixado marcas escuras em meu peito. Muitos acreditam que, para as crianças, o dinheiro não interfere, mas infelizmente isso não é verdade. Não vou justificar nada do que fiz na vida, mas o fato de estar contando essa história tem a ver com o fato de que o dinheiro compra tudo, e falo isso sem medo, pois calei todos que se atravessaram no meu caminho.
Não sou um homem vingativo. Mentira, sou sim, aliás sou mais que vingativo. De monstro a terra está cheia, é só olhar a televisão, os jornais, as revistas, escutar um rádio, prestar atenção nas conversar dos bares, das praças, das filas de hospitais. Onde existir a raça humana haverá o mal incrustado dentro dela.
Quando conheci Raquel me apaixonei, morena linda, de rosto fino e pernas grossas. Essa moça estudada e extremamente educada logo se tornou a mulher dos meus sonhos. Mas Raquel não me dava a menor atenção e talvez o fato de não ter coragem de conversar com ela tenha gerado essa loucura que aconteceu em nossas vidas. Antes que o caro leitor ache que a matei, gostaria de antecipar que nunca faria isso com alguém que amei tanto na vida.
Trabalhava de engraxate na frente do escritório do pai de Raquel durante alguns anos. Sempre que ela passava ficava no ar um perfume doce que me deixava louco, mas a vergonha de ser pobre me proibia o contato. Nunca troquei um olhar com ela, até porque ela nunca olhou para baixo onde eu sempre me encontrava lustrando sapatos.
Meus dias eram sempre os mesmos. Acordava num bairro distante do centro, numa casa velha onde dividia com ratos e baratas as migalhas que ganhava lustrando sapatos dos altos executivos da cidade. Demorava duas horas de ônibus até o centro, o que me dava tempo de sobra para pensar, não tinha outro pensamento a não ser ganhar um dia o coração de Raquel, aquilo sim era paixão, dessas que a gente sente que é para sempre sabe? Daqueles amores que podem ultrapassar a nossa própria existência. Quando chegava ao centro com minha caixa de engraxate, não vou negar, tinha vergonha, mas precisava comer e me vestir. Era humilhado quase que diariamente por aqueles caras de colarinho branco e sapato bico fino. Uma vez um sujeito chegou a cuspir na minha cara porque bem na hora que estava engraxando seu sapato Raquel passou, me tirando a concentração, terminei passando a graxa na suas meias. O homem indignado me fez essa agressão moral, não se cospe na cara de um homem.
Raquel sempre passava sozinha em direção ao escritório de seu pai. Um dia eu disse para mim mesmo que aquele seria o dia que pararia na frente dela e lhe falaria a verdade. Falaria que a amava e que faria de tudo para ficar com ela, mas o medo me impediu, imagina eu, um mero engraxate, atacando um bela mulher no centro da cidade para lhe dizer que a amava. Coisa mais ridícula! Então desisti. Nesse mesmo dia, dentro do ônibus, estava voltando para minha casa quando uma cega entrou vendendo um bilhete da loteria. Comprei o tal bilhete, meio sem esperança, mas ao mesmo tempo com uma puta vontade de mudar de vida e realizar meus sonhos, ao mesmo tempo estaria ajudando aquela mulher que não enxergava e realmente precisa mais do que eu.
Na manhã seguinte, quando entrei na padaria para tomar minha meia taça de café preto e comer um cacetinho, dei uma olhada no jornal, lá estavam os números 13-32-36-41-44-50. Por um instante não acreditei.... Oh, meu Deus ! Eu tinha acabado de ganhar na loteria. A partir daí minha vida mudou, me regularizei na vida, comprei um apartamento num bairro nobre, um carro bonito e tomei um banho de loja. Às vezes passava na frente do escritório para ver se conseguia ver Raquel, mas não tinha sorte. Então voltei a estudar e meu amor ficou em segundo plano, queria ser alguém especial para ela. Eu não sabia falar direito mas com meu dinheiro e um pouco de boa vontade em um ano me tornei uma pessoa influente. Qualquer um que tenha a minha grana é uma pessoa influente.
Numa manhã de sexta feira, comprei flores e fui ao escritório do pai de Raquel. Aquela seria a primeira vez que falaria com ela, não sabia o que dizer. Pensei em falar a verdade, que eu era o engraxate que trabalhava ali na frente e que estava apaixonado por ela há muito tempo e que nunca tive coragem de contar. Entrei no escritório e lá estava ela sentada atrás de uma mesa de vidro perto da janela. Olhava para fora como se estivesse esperando alguém, nem percebeu minha chegada com flores no braço. Toquei a campainha, ela olhou pra frente e deu um sorriso. Uma menina que estava próximo dela me perguntou o que eu queria, mas eu seguia Raquel com os olhos, seu sorriso não era pra mim, mas sim para um homem que, atrás de mim, apareceu no mesmo instante. Mais uma vez ela passou por mim sem me ver e o beijou com ardor. Respondi para a menina que não era nada, que havia me enganado e saí. Arrasado voltei para o meu apartamento, me revoltei comigo por não tê-la procurado antes. Como eu pude ser tão idiota.... como uma mulher linda como ela não teria outros pretendentes... idiota! Idiota!
Depois da culpa veio o desespero, era Raquel que eu queria, nenhuma mulher tinha o mesmo perfume que me fazia sair do chão. Eu não tinha amigos e não gostava de gente, gostava dela e vivia pensando como seria lindo a nossa vida juntos. Passado alguns meses, estava lendo o jornal no café da manhã quando me deparo com a seguinte manchete: “ Mulher encontrada semi nua com marcas de estrangulamento. A vítima se encontra em coma no HPS”, era Raquel, meu sangue ferveu, minhas mãos começaram a suar e o choro foi inevitável. Quem seria capaz de fazer aquilo com uma mulher tão doce como Raquel? Isso já não importava mais, estava decidido, iria me vingar!
A tecnologia foi minha grande aliada na vingança, o primeiro passo foi procurar Raquel nas redes sociais. Assim que encontrei –a, pesquisei seus amigos e últimos namorados, muito fácil essa parte, logo cheguei ao homem que a beijara na única vez que tive coragem de me aproximar de Raquel.
Com alguns trocados arrumei um advogado, um porta de cadeia qualquer, como não queria que ninguém soubesse da minha existência ,convidei o advogado para uma reunião. Nunca falei com ele por celular, nosso primeiro contato foi por telefone convencional, eu liguei de um orelhão e nos encontramos. Ele conseguiu cópias do processo, do boletim de ocorrência e a ficha completa do seu último namorado e possível agressor. O advogado me alertou que estava mexendo com peixe grande e que o valor teria que ser aumentado por motivos óbvios, eu disse que tudo bem, entendia. Para comemorar nossa parceria, levei-o no alto de um morro belíssimo, abri o porta malas e tirei uma champanhe. Brindamos e por um descuido, o advogado caiu do morro. Saí correndo dali, chamei uma ambulância para o local e no dia seguinte fiquei sabendo da sua morte pela TV. Dizia que um advogado caiu bêbado de um morro e quebrou o pescoço, que possivelmente fora vítima de traficantes já que ele representava vários bandidos, lamentei mas segui no meu objetivo.
Estava em minhas mãos à ficha de um homem chamado Carlos Neves. Filho de um político importante na cidade, rico e bem nascido, estudou nas melhores escolas da região, morou fora do país e tinha histórico de pessoa violenta. Usuário de drogas, havia saído de uma clínica há seis meses e namorava Raquel há um ano e meio. Ele estava desaparecido e era considerado o possível agressor , por ser filho de pessoa influente não estava nas páginas dos jornais. Seu pai arrumou um jeito de parecer que a moça tivesse sido vítima de um assaltante ou mesmo de um tarado. O pior é que todos pareciam acreditar nisso, menos eu.
Um dia enquanto espreitava a casa de Carlos, percebi a movimentação de seguranças na rua. Uma mulher saiu da casa com uma sacola, segui-a , ela entrou em um táxi. Saímos do centro da cidade e chegamos a um bairro da periferia. Ela desceu do táxi, atravessou a rua e deixou um pacote em frente a porta de entrada de uma casa velha de madeira, depois saiu e foi embora. Fiquei ali de tocaia, esperando, quando uma viatura encostou atrás de mim. Pediram-me para descer do carro e colocar as mãos sobre o veículo. Expliquei que me perdi naquele lugar horrível, que meu GPS tinha estragado e que estava atrasado para um reunião. Eles pegaram meus dados, me mostraram o caminho e me disseram que uma senhora achou que se tratava de um carro roubado, sorrimos e voltei para casa. Mas antes de entrar no carro percebi que o pacote que a mulher tinha deixado não estava mais na porta de entrada daquela velha casa.
Agora eu tinha certeza que estava na cola do cara e que a polícia não seria um problema, por via das dúvidas resolvi seguir o plano B e ter o máximo de cuidado com tudo. Quando cheguei em casa liguei o meu computador e comprei uma passagem para outro Estado. Vôo no domingo às cinco da manhã, primeira classe. Fiz reserva em um hotel na beira da praia e comprei um carro velho num site de carros usados. Na sexta-feira, estacionei o carro velho há dez quadras de distância da minha casa, no lado de fora do estacionamento de um mercado onde sabia que não havia câmeras de vigilância. No sábado, peguei o carro velho, fui a um beco que conhecia e comprei cinqüenta gramas de cocaína. Na volta passei na frente da provável casa em que Carlos se escondia e deixei a droga num lugar perto da porta de entrada. Fiquei esperando e para a minha surpresa, Carlos apareceu na casa, achou a droga, entrou e apagou a luz. Isso era quase meia noite, meu plano corria bem. Voltei para casa e antes deixei o carro velho no mesmo lugar. Às cinco horas da manhã de domingo, peguei o avião, cheguei no Estado vizinho e fui para o hotel. Conversei com um rapaz que fazia a faxina nos quartos, com uma nota preta disse a ele que queria fazer uma surpresa para minha esposa e que precisava sair dali sem ser notado. Entre sorrisos de cumplicidade, ele me disse que topava. Às oito da manhã ele entrou no quarto para fazer a limpeza e eu sai dentro do carrinho, me deixou na porta dos fundos do hotel e me disse que às quatro da tarde estaria ali para me levar ao quarto novamente. Peguei um táxi e fui ao aeroporto. Voltei para a minha cidade, peguei o carro velho e me dirigi a periferia. No carro uma mochila me acompanhava. Cheguei, estacionei e com a mochila fui até a casa. Encontrei Carlos cheirando, estava na cozinha, um silêncio assustador dominava o ambiente. Carlos tinha os dentes trincados, rondei a casa e percebi que ele estava sozinho. Chutei a porta dos fundos e ele se escondeu embaixo da mesa. Peguei-o e com o sonífero fiz que ele apagasse. Quando recobrou a consciência estava amarrado a uma cadeira.
Eu vestia uma roupa branca e tinha nas mãos um bisturi, a meia luz deixava o ambiente mais estranho. Escolhi de trilha sonora uma bela música clássica, que abafava qualquer barulho e deixava um gosto de prazer naquela situação de desespero e vingança. Olhei Carlos nos olhos, ele chorava, tentava sair da cadeira, tentava se mexer. Quando percebi que ele tinha mijado nas calças, sorri, era engraçado ver o machão se mijando. Ele sabia que eu seria o último rosto de homem que ele veria naquela vida. Tudo que ele fazia era em vão, não havia como fugir, enquanto ele gemia e esperneava eu lembrava dos meus dias de engraxate. Quantos “Carlos” passaram pelo meu caminho e me destrataram de forma arrogante. Então eu lhe disse ao pé do ouvido:
- Oi Carlos! Eu disse: oi! Que triste a tua situação, todo mijado, que nojo!
Cuspi em seu rosto, sentia nojo dele, cadê aquele cara forte, o fodão, o gostosão. Carlos muito assustado grunhia alguma coisa e eu voltei a falar:
- Deve ser estranho estar na tua situação, na real até posso imaginar, já vivi assim, preso a um lugar que não queria estar.
Então sorri. Peguei uma foto da Raquel e lhe mostrei:
- Sabe quem é ela não é?
Ele me olhava e dizia “não”, movimentando a cabeça. Que idiota, claro que ele conhecia. Seu corpo tremia, seu suor escorria e se misturava às lágrimas e meu coração naquele momento era uma montanha de gelo em erupção. Eu poderia cortá-lo em pedacinhos e espalhar pelos quatro cantos da cidade, poderia fazer uma sopa e dar aos pobres nas esquinas, poderia sumir com ele do jeito que eu quisesse. Mas o que eu queria naquele momento era vê-lo sofrer, vê-lo chorar, vê-lo suplicar ajuda para que eu poupasse sua vida. Não vou poupar nada, quero vê-lo se humilhar, rastejar e sucumbir ao meu poder de dizer sim ou não, de decidir quem vive e quem morre.
- Não deveria ter feito isso que tu fez seu viciadinho de merda, mas já que tu fez, agora não vamos chorar o leite derramado,não é?
Nesse momento rasguei-lhe a camiseta e levantei o bisturi. Seus olhos se arregalaram, começou a se debater na cadeira. Eu o peguei pelo queixo e lhe disse:
- Sabe Carlos, eu sempre tive vontade de ter algumas coisas. Como eu queria tê-la beijado, como eu sonhei em possuí-la , como eu desejei -a, mas tudo isso ficou no passado. E antes que tu apague, queria te avisar que há um vazio na minha alma e a culpa é tua seu play boy de merda, temos algumas coisas para colocar em dia, um sentimento tão intenso e perverso, um ódio acumulado por tudo que vivi e presenciei durante esse tempo todo, meus pensamentos te mataram há muito tempo, minha raiva transborda e me cega.
Encostei o bisturi em seu peito e fiz um corte na altura do coração, ele grunhia como um animal pronto para o abate, eu sorria e depositava ali todas as minhas mágoas com a sociedade que me tratara tão mal no passado. Peguei um afastador e abri-lhe o peito, podia ver seu coração bater por causa da cocaína que em seu sangue corria, senti prazer em ver seu coração batendo, então mais uma vez me aproximei
- Tu levou o meu amor, nada mais justo que eu levar teu coração.
E de uma vez só arranquei o coração do seu peito.
Coloquei aquele órgão quente numa sacola de plástico. Troquei de roupa, coloquei as brancas na mochila e queimei tudo na estrada. Peguei o carro e voltei ao hotel. Às quatro da tarde o funcionário do hotel me esperava, entrei no carrinho e ele me levou ao quarto, chamei algumas prostitutas e comemorei. Voltei para casa no dia seguinte e pela Tv soube que foi encontrado o corpo de Carlos pela mãe. Na casa havia muito sangue e resquícios de cocaína. Carlos e Raquel foram enterrados no mesmo cemitério e junto com eles foi o meu amor. Nunca mais amei ninguém, nem poderia ,sou um monstro, mas monstros com dinheiro são diferentes . Monstros com dinheiro são protegidos pelos mesmos monstros que criaram a sociedade moderna, nada simples de conviver, afinal de contas quando olho pra trás não sei dizer quem são os bandidos e quem são os homens maus.
Não sou um homem vingativo. Mentira, sou sim, aliás sou mais que vingativo. De monstro a terra está cheia, é só olhar a televisão, os jornais, as revistas, escutar um rádio, prestar atenção nas conversar dos bares, das praças, das filas de hospitais. Onde existir a raça humana haverá o mal incrustado dentro dela.
Quando conheci Raquel me apaixonei, morena linda, de rosto fino e pernas grossas. Essa moça estudada e extremamente educada logo se tornou a mulher dos meus sonhos. Mas Raquel não me dava a menor atenção e talvez o fato de não ter coragem de conversar com ela tenha gerado essa loucura que aconteceu em nossas vidas. Antes que o caro leitor ache que a matei, gostaria de antecipar que nunca faria isso com alguém que amei tanto na vida.
Trabalhava de engraxate na frente do escritório do pai de Raquel durante alguns anos. Sempre que ela passava ficava no ar um perfume doce que me deixava louco, mas a vergonha de ser pobre me proibia o contato. Nunca troquei um olhar com ela, até porque ela nunca olhou para baixo onde eu sempre me encontrava lustrando sapatos.
Meus dias eram sempre os mesmos. Acordava num bairro distante do centro, numa casa velha onde dividia com ratos e baratas as migalhas que ganhava lustrando sapatos dos altos executivos da cidade. Demorava duas horas de ônibus até o centro, o que me dava tempo de sobra para pensar, não tinha outro pensamento a não ser ganhar um dia o coração de Raquel, aquilo sim era paixão, dessas que a gente sente que é para sempre sabe? Daqueles amores que podem ultrapassar a nossa própria existência. Quando chegava ao centro com minha caixa de engraxate, não vou negar, tinha vergonha, mas precisava comer e me vestir. Era humilhado quase que diariamente por aqueles caras de colarinho branco e sapato bico fino. Uma vez um sujeito chegou a cuspir na minha cara porque bem na hora que estava engraxando seu sapato Raquel passou, me tirando a concentração, terminei passando a graxa na suas meias. O homem indignado me fez essa agressão moral, não se cospe na cara de um homem.
Raquel sempre passava sozinha em direção ao escritório de seu pai. Um dia eu disse para mim mesmo que aquele seria o dia que pararia na frente dela e lhe falaria a verdade. Falaria que a amava e que faria de tudo para ficar com ela, mas o medo me impediu, imagina eu, um mero engraxate, atacando um bela mulher no centro da cidade para lhe dizer que a amava. Coisa mais ridícula! Então desisti. Nesse mesmo dia, dentro do ônibus, estava voltando para minha casa quando uma cega entrou vendendo um bilhete da loteria. Comprei o tal bilhete, meio sem esperança, mas ao mesmo tempo com uma puta vontade de mudar de vida e realizar meus sonhos, ao mesmo tempo estaria ajudando aquela mulher que não enxergava e realmente precisa mais do que eu.
Na manhã seguinte, quando entrei na padaria para tomar minha meia taça de café preto e comer um cacetinho, dei uma olhada no jornal, lá estavam os números 13-32-36-41-44-50. Por um instante não acreditei.... Oh, meu Deus ! Eu tinha acabado de ganhar na loteria. A partir daí minha vida mudou, me regularizei na vida, comprei um apartamento num bairro nobre, um carro bonito e tomei um banho de loja. Às vezes passava na frente do escritório para ver se conseguia ver Raquel, mas não tinha sorte. Então voltei a estudar e meu amor ficou em segundo plano, queria ser alguém especial para ela. Eu não sabia falar direito mas com meu dinheiro e um pouco de boa vontade em um ano me tornei uma pessoa influente. Qualquer um que tenha a minha grana é uma pessoa influente.
Numa manhã de sexta feira, comprei flores e fui ao escritório do pai de Raquel. Aquela seria a primeira vez que falaria com ela, não sabia o que dizer. Pensei em falar a verdade, que eu era o engraxate que trabalhava ali na frente e que estava apaixonado por ela há muito tempo e que nunca tive coragem de contar. Entrei no escritório e lá estava ela sentada atrás de uma mesa de vidro perto da janela. Olhava para fora como se estivesse esperando alguém, nem percebeu minha chegada com flores no braço. Toquei a campainha, ela olhou pra frente e deu um sorriso. Uma menina que estava próximo dela me perguntou o que eu queria, mas eu seguia Raquel com os olhos, seu sorriso não era pra mim, mas sim para um homem que, atrás de mim, apareceu no mesmo instante. Mais uma vez ela passou por mim sem me ver e o beijou com ardor. Respondi para a menina que não era nada, que havia me enganado e saí. Arrasado voltei para o meu apartamento, me revoltei comigo por não tê-la procurado antes. Como eu pude ser tão idiota.... como uma mulher linda como ela não teria outros pretendentes... idiota! Idiota!
Depois da culpa veio o desespero, era Raquel que eu queria, nenhuma mulher tinha o mesmo perfume que me fazia sair do chão. Eu não tinha amigos e não gostava de gente, gostava dela e vivia pensando como seria lindo a nossa vida juntos. Passado alguns meses, estava lendo o jornal no café da manhã quando me deparo com a seguinte manchete: “ Mulher encontrada semi nua com marcas de estrangulamento. A vítima se encontra em coma no HPS”, era Raquel, meu sangue ferveu, minhas mãos começaram a suar e o choro foi inevitável. Quem seria capaz de fazer aquilo com uma mulher tão doce como Raquel? Isso já não importava mais, estava decidido, iria me vingar!
A tecnologia foi minha grande aliada na vingança, o primeiro passo foi procurar Raquel nas redes sociais. Assim que encontrei –a, pesquisei seus amigos e últimos namorados, muito fácil essa parte, logo cheguei ao homem que a beijara na única vez que tive coragem de me aproximar de Raquel.
Com alguns trocados arrumei um advogado, um porta de cadeia qualquer, como não queria que ninguém soubesse da minha existência ,convidei o advogado para uma reunião. Nunca falei com ele por celular, nosso primeiro contato foi por telefone convencional, eu liguei de um orelhão e nos encontramos. Ele conseguiu cópias do processo, do boletim de ocorrência e a ficha completa do seu último namorado e possível agressor. O advogado me alertou que estava mexendo com peixe grande e que o valor teria que ser aumentado por motivos óbvios, eu disse que tudo bem, entendia. Para comemorar nossa parceria, levei-o no alto de um morro belíssimo, abri o porta malas e tirei uma champanhe. Brindamos e por um descuido, o advogado caiu do morro. Saí correndo dali, chamei uma ambulância para o local e no dia seguinte fiquei sabendo da sua morte pela TV. Dizia que um advogado caiu bêbado de um morro e quebrou o pescoço, que possivelmente fora vítima de traficantes já que ele representava vários bandidos, lamentei mas segui no meu objetivo.
Estava em minhas mãos à ficha de um homem chamado Carlos Neves. Filho de um político importante na cidade, rico e bem nascido, estudou nas melhores escolas da região, morou fora do país e tinha histórico de pessoa violenta. Usuário de drogas, havia saído de uma clínica há seis meses e namorava Raquel há um ano e meio. Ele estava desaparecido e era considerado o possível agressor , por ser filho de pessoa influente não estava nas páginas dos jornais. Seu pai arrumou um jeito de parecer que a moça tivesse sido vítima de um assaltante ou mesmo de um tarado. O pior é que todos pareciam acreditar nisso, menos eu.
Um dia enquanto espreitava a casa de Carlos, percebi a movimentação de seguranças na rua. Uma mulher saiu da casa com uma sacola, segui-a , ela entrou em um táxi. Saímos do centro da cidade e chegamos a um bairro da periferia. Ela desceu do táxi, atravessou a rua e deixou um pacote em frente a porta de entrada de uma casa velha de madeira, depois saiu e foi embora. Fiquei ali de tocaia, esperando, quando uma viatura encostou atrás de mim. Pediram-me para descer do carro e colocar as mãos sobre o veículo. Expliquei que me perdi naquele lugar horrível, que meu GPS tinha estragado e que estava atrasado para um reunião. Eles pegaram meus dados, me mostraram o caminho e me disseram que uma senhora achou que se tratava de um carro roubado, sorrimos e voltei para casa. Mas antes de entrar no carro percebi que o pacote que a mulher tinha deixado não estava mais na porta de entrada daquela velha casa.
Agora eu tinha certeza que estava na cola do cara e que a polícia não seria um problema, por via das dúvidas resolvi seguir o plano B e ter o máximo de cuidado com tudo. Quando cheguei em casa liguei o meu computador e comprei uma passagem para outro Estado. Vôo no domingo às cinco da manhã, primeira classe. Fiz reserva em um hotel na beira da praia e comprei um carro velho num site de carros usados. Na sexta-feira, estacionei o carro velho há dez quadras de distância da minha casa, no lado de fora do estacionamento de um mercado onde sabia que não havia câmeras de vigilância. No sábado, peguei o carro velho, fui a um beco que conhecia e comprei cinqüenta gramas de cocaína. Na volta passei na frente da provável casa em que Carlos se escondia e deixei a droga num lugar perto da porta de entrada. Fiquei esperando e para a minha surpresa, Carlos apareceu na casa, achou a droga, entrou e apagou a luz. Isso era quase meia noite, meu plano corria bem. Voltei para casa e antes deixei o carro velho no mesmo lugar. Às cinco horas da manhã de domingo, peguei o avião, cheguei no Estado vizinho e fui para o hotel. Conversei com um rapaz que fazia a faxina nos quartos, com uma nota preta disse a ele que queria fazer uma surpresa para minha esposa e que precisava sair dali sem ser notado. Entre sorrisos de cumplicidade, ele me disse que topava. Às oito da manhã ele entrou no quarto para fazer a limpeza e eu sai dentro do carrinho, me deixou na porta dos fundos do hotel e me disse que às quatro da tarde estaria ali para me levar ao quarto novamente. Peguei um táxi e fui ao aeroporto. Voltei para a minha cidade, peguei o carro velho e me dirigi a periferia. No carro uma mochila me acompanhava. Cheguei, estacionei e com a mochila fui até a casa. Encontrei Carlos cheirando, estava na cozinha, um silêncio assustador dominava o ambiente. Carlos tinha os dentes trincados, rondei a casa e percebi que ele estava sozinho. Chutei a porta dos fundos e ele se escondeu embaixo da mesa. Peguei-o e com o sonífero fiz que ele apagasse. Quando recobrou a consciência estava amarrado a uma cadeira.
Eu vestia uma roupa branca e tinha nas mãos um bisturi, a meia luz deixava o ambiente mais estranho. Escolhi de trilha sonora uma bela música clássica, que abafava qualquer barulho e deixava um gosto de prazer naquela situação de desespero e vingança. Olhei Carlos nos olhos, ele chorava, tentava sair da cadeira, tentava se mexer. Quando percebi que ele tinha mijado nas calças, sorri, era engraçado ver o machão se mijando. Ele sabia que eu seria o último rosto de homem que ele veria naquela vida. Tudo que ele fazia era em vão, não havia como fugir, enquanto ele gemia e esperneava eu lembrava dos meus dias de engraxate. Quantos “Carlos” passaram pelo meu caminho e me destrataram de forma arrogante. Então eu lhe disse ao pé do ouvido:
- Oi Carlos! Eu disse: oi! Que triste a tua situação, todo mijado, que nojo!
Cuspi em seu rosto, sentia nojo dele, cadê aquele cara forte, o fodão, o gostosão. Carlos muito assustado grunhia alguma coisa e eu voltei a falar:
- Deve ser estranho estar na tua situação, na real até posso imaginar, já vivi assim, preso a um lugar que não queria estar.
Então sorri. Peguei uma foto da Raquel e lhe mostrei:
- Sabe quem é ela não é?
Ele me olhava e dizia “não”, movimentando a cabeça. Que idiota, claro que ele conhecia. Seu corpo tremia, seu suor escorria e se misturava às lágrimas e meu coração naquele momento era uma montanha de gelo em erupção. Eu poderia cortá-lo em pedacinhos e espalhar pelos quatro cantos da cidade, poderia fazer uma sopa e dar aos pobres nas esquinas, poderia sumir com ele do jeito que eu quisesse. Mas o que eu queria naquele momento era vê-lo sofrer, vê-lo chorar, vê-lo suplicar ajuda para que eu poupasse sua vida. Não vou poupar nada, quero vê-lo se humilhar, rastejar e sucumbir ao meu poder de dizer sim ou não, de decidir quem vive e quem morre.
- Não deveria ter feito isso que tu fez seu viciadinho de merda, mas já que tu fez, agora não vamos chorar o leite derramado,não é?
Nesse momento rasguei-lhe a camiseta e levantei o bisturi. Seus olhos se arregalaram, começou a se debater na cadeira. Eu o peguei pelo queixo e lhe disse:
- Sabe Carlos, eu sempre tive vontade de ter algumas coisas. Como eu queria tê-la beijado, como eu sonhei em possuí-la , como eu desejei -a, mas tudo isso ficou no passado. E antes que tu apague, queria te avisar que há um vazio na minha alma e a culpa é tua seu play boy de merda, temos algumas coisas para colocar em dia, um sentimento tão intenso e perverso, um ódio acumulado por tudo que vivi e presenciei durante esse tempo todo, meus pensamentos te mataram há muito tempo, minha raiva transborda e me cega.
Encostei o bisturi em seu peito e fiz um corte na altura do coração, ele grunhia como um animal pronto para o abate, eu sorria e depositava ali todas as minhas mágoas com a sociedade que me tratara tão mal no passado. Peguei um afastador e abri-lhe o peito, podia ver seu coração bater por causa da cocaína que em seu sangue corria, senti prazer em ver seu coração batendo, então mais uma vez me aproximei
- Tu levou o meu amor, nada mais justo que eu levar teu coração.
E de uma vez só arranquei o coração do seu peito.
Coloquei aquele órgão quente numa sacola de plástico. Troquei de roupa, coloquei as brancas na mochila e queimei tudo na estrada. Peguei o carro e voltei ao hotel. Às quatro da tarde o funcionário do hotel me esperava, entrei no carrinho e ele me levou ao quarto, chamei algumas prostitutas e comemorei. Voltei para casa no dia seguinte e pela Tv soube que foi encontrado o corpo de Carlos pela mãe. Na casa havia muito sangue e resquícios de cocaína. Carlos e Raquel foram enterrados no mesmo cemitério e junto com eles foi o meu amor. Nunca mais amei ninguém, nem poderia ,sou um monstro, mas monstros com dinheiro são diferentes . Monstros com dinheiro são protegidos pelos mesmos monstros que criaram a sociedade moderna, nada simples de conviver, afinal de contas quando olho pra trás não sei dizer quem são os bandidos e quem são os homens maus.
sábado, 20 de novembro de 2010
Morte aos goles
Roberto tinha uma vida simples, buscava trabalhar honestamente numa cidade sem lei, onde cada um cuidava da sua vida e o resto era somente o resto. Era um homem sozinho, só tinha a esposa no mundo para lhe fazer companhia. Vivia tranqüilo no seu dia a dia de trabalhador. Nas esquinas daquela cidade, Roberto ganhava seu dinheiro vendendo doces. Não era um homem alto, nem era gordo e sua pele parda carregava uma cor de cuia. Tinha o semblante de alguém que trabalhava de sol a sol nas sinaleiras de uma grande capital, sujeito a qualquer situação que um lugar de trabalho como esse pode proporcionar.
Naquele dia, Roberto saiu de casa feliz, estava casado com uma mulher maravilhosa, zelosa e paciente com todas as adversidades que a vida lhe mostrava quase que diariamente. Ao atravessar a rua, quase foi atropelado. Sua cabeça não estava ali. Olhou para o lado, ainda sob os xingamentos do motorista do carro que quase o pegou, desculpou-se e seguiu andando. Mais do que driblar um carro, ele driblava pela primeira vez a morte.
Já era quase meio dia quando Roberto entrou no banco para depositar o dinheiro que juntou vendendo doces na sinaleira. Pensativo, ele lembrou do acidente e da sorte que teve ao conseguir desviar daquele carro, nesse momento dois homens armados invadiram a agência e anunciaram o assalto. Os dois homens poderiam facilmente ser confundidos com crianças, estavam nervosos. Possivelmente era o primeiro assalto da vida daqueles moleques, todos percebiam pelas vozes finas e gestos forçados, a infância perdida naqueles ladrões. O primeiro menino que, apesar da pouca idade, carregava uma arma, ordenou que o segundo passasse com um saco de lixo preto e recolhesse celulares e carteiras. Estava bem assustado, com uma mão segurava o saco e na outra uma arma prateada. O homem foi passando e recolhendo os pertences das pessoas. Quando chegou a vez de Roberto, ele colocou a mão no bolso e inesperadamente o assaltante puxou o gatilho, o disparo foi ouvido de longe, apesar do movimento daquela área da cidade. Os ladrões saíram correndo, levando o que tinham roubado. Quando a polícia chegou Roberto estava estático, com os olhos vidrados. Não havia marca de sangue, quase como um milagre o tiro a queima roupa havia acertado em cheio a máquina de dinheiro a trinta centímetros de distância de Roberto. Fora muita sorte ele não ter morrido. Roberto lembrou do carro e sorriu, tinha um brilho em seu olhar, havia fugido da morte pela segunda vez.
Roberto saiu introspectivo do banco, ainda sob o impacto do que havia acontecido. Andou mais alguns metros e entrou num bar onde tomou algumas cervejas. Na saída, caminhava numa avenida movimentada, já havia caído a noite. Parou para dar uma mijada, ali mesmo na rua, escorado em um muro velho. Debruçado no muro, ouviu um barulho, deu uma passo para trás e viu aquela parede de tijolos cair aos seus pés. Um novo milagre fazia ele escapar ileso. Parecia que a morte lhe queria, mas a vontade de voltar para casa e ver sua mulher era maior que a sorte da morte que perdeu pela terceira vez.
Uma hora mais tarde Roberto descia do ônibus perto da sua casa, em um bairro afastado do centro da cidade. Caminhou por alguns minutos, atravessou um matagal e alguns terrenos baldios, quando ouviu o anúncio de um novo assalto. Como não tinha nada em seu poder o ladrão, irritado, disparou duas vezes contra Roberto e mais uma vez a bala não o acertou mortalmente. Sangrando com um tiro de raspão no braço, Roberto gritou por socorro. Um homem muito estranho, parecendo um zumbi se aproximou. O tal homem era um viciado em crack e tentou roubar Roberto que, ferido, ainda lutou para que o viciado não levasse um pedaço de carne que trazia do mercado. O homem deu algumas pauladas em Roberto que lutou ferozmente. O cansaço enorme quase o matou, mas ele fugiu da “dita”, mais uma vez.
Já cansado e perplexo com tudo que lhe havia acontecido, abriu o portão de sua casa, deu mais alguns passos e ouviu a risada de sua mulher. Seu rosto se iluminou, por quatro vezes quase havia morrido, mas a vontade de estar ali e contar tudo para Luisa era maior. Poder chegar em casa e beijá-la era uma vontade maior que a força da própria morte. Nesse momento seu sorriso se fechou, ouviu a risada de um homem. Pensou por alguns segundos quem poderia estar na sua casa, aquela hora. Olhando o relógio percebeu que faltava ainda três horas do horário normal que ele chegava em casa. Desejou morrer, não tinha coragem de entrar. Não podia acreditar que seu amor estava lhe traindo, não ela, não depois de tudo que ele havia passado. Dentro da casa um silêncio, Roberto espiava na janela e de repente um impacto o apagou.
Lentamente Roberto abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi sua mulher Luisa. Pensou que tudo fosse um sonho e sorriu, mas isso durou pouco, uma voz da cozinha lhe tirou o sorriso do rosto, era a voz do homem. Roberto ainda meio grogue, levantou, pegou uma faca que estava em cima da mesa e partiu para cima dele. Iniciaram uma briga feroz, aos gritos de “pára, pára” da sua mulher. Ela tentava conter a fúria do marido traído. O homem o dominou com facilidade, colocou-o no sofá e explicou o que estava acontecendo. Após algum tempo de conversa, ferido e completamente perdido, Roberto aceitou a traição da esposa, abatido e perplexo permitiu que ela partisse com seu novo amor. Enquanto ela arrumava suas coisas, Roberto refletiu sobre tudo que acontecerá com ele. Juntou todos os sinais: o carro, o assalto, o muro, o novo assalto, o viciado, o amante e percebeu que a morte tinha tentado livrá-lo da decepção daquela traição. Sentiu uma forte dor no peito, seu coração estava partido, não tinha mais motivos para sorrir, abriu a gaveta da pia e pegou um veneno de rato, colocou num copo com água e bebeu. A mulher e seu amante estavam saindo da casa quando olharam Roberto e se despediram. Agora Roberto sabia que encontraria alguém que o queria, tranqüilo, disse adeus.
FIM
Cesar Figueiredo
20-11-10
Naquele dia, Roberto saiu de casa feliz, estava casado com uma mulher maravilhosa, zelosa e paciente com todas as adversidades que a vida lhe mostrava quase que diariamente. Ao atravessar a rua, quase foi atropelado. Sua cabeça não estava ali. Olhou para o lado, ainda sob os xingamentos do motorista do carro que quase o pegou, desculpou-se e seguiu andando. Mais do que driblar um carro, ele driblava pela primeira vez a morte.
Já era quase meio dia quando Roberto entrou no banco para depositar o dinheiro que juntou vendendo doces na sinaleira. Pensativo, ele lembrou do acidente e da sorte que teve ao conseguir desviar daquele carro, nesse momento dois homens armados invadiram a agência e anunciaram o assalto. Os dois homens poderiam facilmente ser confundidos com crianças, estavam nervosos. Possivelmente era o primeiro assalto da vida daqueles moleques, todos percebiam pelas vozes finas e gestos forçados, a infância perdida naqueles ladrões. O primeiro menino que, apesar da pouca idade, carregava uma arma, ordenou que o segundo passasse com um saco de lixo preto e recolhesse celulares e carteiras. Estava bem assustado, com uma mão segurava o saco e na outra uma arma prateada. O homem foi passando e recolhendo os pertences das pessoas. Quando chegou a vez de Roberto, ele colocou a mão no bolso e inesperadamente o assaltante puxou o gatilho, o disparo foi ouvido de longe, apesar do movimento daquela área da cidade. Os ladrões saíram correndo, levando o que tinham roubado. Quando a polícia chegou Roberto estava estático, com os olhos vidrados. Não havia marca de sangue, quase como um milagre o tiro a queima roupa havia acertado em cheio a máquina de dinheiro a trinta centímetros de distância de Roberto. Fora muita sorte ele não ter morrido. Roberto lembrou do carro e sorriu, tinha um brilho em seu olhar, havia fugido da morte pela segunda vez.
Roberto saiu introspectivo do banco, ainda sob o impacto do que havia acontecido. Andou mais alguns metros e entrou num bar onde tomou algumas cervejas. Na saída, caminhava numa avenida movimentada, já havia caído a noite. Parou para dar uma mijada, ali mesmo na rua, escorado em um muro velho. Debruçado no muro, ouviu um barulho, deu uma passo para trás e viu aquela parede de tijolos cair aos seus pés. Um novo milagre fazia ele escapar ileso. Parecia que a morte lhe queria, mas a vontade de voltar para casa e ver sua mulher era maior que a sorte da morte que perdeu pela terceira vez.
Uma hora mais tarde Roberto descia do ônibus perto da sua casa, em um bairro afastado do centro da cidade. Caminhou por alguns minutos, atravessou um matagal e alguns terrenos baldios, quando ouviu o anúncio de um novo assalto. Como não tinha nada em seu poder o ladrão, irritado, disparou duas vezes contra Roberto e mais uma vez a bala não o acertou mortalmente. Sangrando com um tiro de raspão no braço, Roberto gritou por socorro. Um homem muito estranho, parecendo um zumbi se aproximou. O tal homem era um viciado em crack e tentou roubar Roberto que, ferido, ainda lutou para que o viciado não levasse um pedaço de carne que trazia do mercado. O homem deu algumas pauladas em Roberto que lutou ferozmente. O cansaço enorme quase o matou, mas ele fugiu da “dita”, mais uma vez.
Já cansado e perplexo com tudo que lhe havia acontecido, abriu o portão de sua casa, deu mais alguns passos e ouviu a risada de sua mulher. Seu rosto se iluminou, por quatro vezes quase havia morrido, mas a vontade de estar ali e contar tudo para Luisa era maior. Poder chegar em casa e beijá-la era uma vontade maior que a força da própria morte. Nesse momento seu sorriso se fechou, ouviu a risada de um homem. Pensou por alguns segundos quem poderia estar na sua casa, aquela hora. Olhando o relógio percebeu que faltava ainda três horas do horário normal que ele chegava em casa. Desejou morrer, não tinha coragem de entrar. Não podia acreditar que seu amor estava lhe traindo, não ela, não depois de tudo que ele havia passado. Dentro da casa um silêncio, Roberto espiava na janela e de repente um impacto o apagou.
Lentamente Roberto abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi sua mulher Luisa. Pensou que tudo fosse um sonho e sorriu, mas isso durou pouco, uma voz da cozinha lhe tirou o sorriso do rosto, era a voz do homem. Roberto ainda meio grogue, levantou, pegou uma faca que estava em cima da mesa e partiu para cima dele. Iniciaram uma briga feroz, aos gritos de “pára, pára” da sua mulher. Ela tentava conter a fúria do marido traído. O homem o dominou com facilidade, colocou-o no sofá e explicou o que estava acontecendo. Após algum tempo de conversa, ferido e completamente perdido, Roberto aceitou a traição da esposa, abatido e perplexo permitiu que ela partisse com seu novo amor. Enquanto ela arrumava suas coisas, Roberto refletiu sobre tudo que acontecerá com ele. Juntou todos os sinais: o carro, o assalto, o muro, o novo assalto, o viciado, o amante e percebeu que a morte tinha tentado livrá-lo da decepção daquela traição. Sentiu uma forte dor no peito, seu coração estava partido, não tinha mais motivos para sorrir, abriu a gaveta da pia e pegou um veneno de rato, colocou num copo com água e bebeu. A mulher e seu amante estavam saindo da casa quando olharam Roberto e se despediram. Agora Roberto sabia que encontraria alguém que o queria, tranqüilo, disse adeus.
FIM
Cesar Figueiredo
20-11-10
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Tempo de ter tempo
Do tempo não tenho saudades, não poderia ter, ele nunca me abandonou, muito pelo contrário, eu que o esqueci, para bem da realidade também não foi isso que aconteceu... Nos dias de hoje o tempo é só uma palavra usada para justificativas medonhas que damos aos outros, quando não queremos visitar alguém, dizemos: “bah, não tenho tempo”. Sempre escutei as frases: “o tempo é nosso maior aliado”, “tudo se cura com o tempo” ou “ nada que o tempo não resolva”.
A palavra tempo está na memória coletiva, faz parte das nossas vidas. Mas o que estamos fazendo com ele é um absurdo, sempre buscamos um culpado e a bola da vez é o tempo, que não fez nada, segue o seu curso como os rios, cada vez mais secos, culpa do tempo também...
Mas vamos aos fatos atuais, no tempo das carroças se demorava dois dias para se atravessar uma cidade. Hoje, com carros velozes, conseguimos isso em minutos, mas onde o tempo está nisso? Foi ele quem fez o carro ser mais rápido que a carroça? Acredito que não.
Esperávamos meses para receber notícias de alguém, cartas eram esperadas por comunidades inteiras e ainda tínhamos que ter a sorte de ter alguém que lesse e escrevesse bem. Hoje, com o email eletrônico, o cara escreve e a gente recebe na hora. Até aí tudo bem, estamos evoluindo, ninguém vai reclamar da evolução, mas não é isto que está em jogo e sim, o tempo.
O que mais escutamos é “no tempo disso, no tempo daquilo”. Se sentimos saudade daquele tempo, porque lutamos tanto pra que ele fique lá atrás¿ Tudo é mais rápido hoje, até a tecnologia é mais rápida, tendo em vista que a internet não é mais discada. Chegamos a incrível marca de 100 mega de velocidade. Se tu quer comprar, compra pela internet, para ganhar tempo, se quer vender, vende pela internet, para ganhar tempo.
Os exames de saúde são rápidos. Isso é bom, mas as filas são maiores, todas as filas são maiores, assim como os engarrafamentos. Tudo isso porque deixamos de lado o tempo das coisas e colocamos o nosso tempo em primeiro lugar. Não acredito que realmente sentimos falta do tempo, acredito que sentimos falta do tempo que nós tínhamos tempo de pensar sobre tempo.
Tempo bom vamos para a praia,
Tempo ruim ficamos em casa,
Sem tempo para os filhos,
Nem tempo de passar na casa dos parentes mais velhos,
Afinal de contas, eles são do tempo que se sentava na sacada ou na areia e se tomava um bom chimarrão enquanto se colocava a “prosa” em dia. Hoje usamos as redes de relacionamentos para dizer um “oi”.
Não temos tempo para criar nossos filhos, pois precisamos de tempo para arrumar dinheiro e dar uma boa educação para eles. Dar amor é coisa do tempo que amor não se comprava.
Hoje nos esquecemos de voltar para casa, culpa do tempo que perdemos mentindo para outras pessoas sobre tempo. Deixamos de lado nossas famílias em busca do sonho da riqueza e do poder que antigamente se levava um tempo para conseguir. Hoje isso pode acontecer em questão de segundos e por isso corremos contra o tempo. Temos que pagar o cursinho, creche, terapia, rancho, academia, prestações do carro, da TV de 380 polegadas, do Mac novo, do carro, do seguro de vida, seguro contra incêndio, seguro das mãos, seguro da casa, mais a empregada, a babá, a lavanderia, as contas do cartão de crédito! Meus Deus como temos contas a pagar! Mas já viu que lindo aquele celular que fala com a gente quando estamos sozinhos e cansados no quarto, chorando porque precisamos de tempo para arrumar dinheiro para pagar por ele também¿
Sei que é um absurdo, mas o tempo não tem nada a ver com isso, e sim a maneira que lidamos com ele. Hoje tudo é mais rápido que o tempo, por isso ele nos abandonou. Qualquer coisa é melhor que falar sobre o tempo, nem as previsões do tempo acertam porque quando se percebe, ele já mudou, mas aí tem dedo do homem e não da ação do tempo.
Precisamos de tempo para revermos o nosso tempo. Já que o tempo que temos na terra gastamos procurando dinheiro, perdendo amigos nas estradas pois precisamos de tempo para bebermos mais nas festas. Sem tempo para beijar nossos filhos porque temos uma reunião no outro lado do continente. Sendo egoístas e perdendo segundos maravilhosos observando nossos filhos crescerem. Quem vê isso hoje é a tia da creche, o professor de karatê, a babá, os professores. Mentimos que precisamos de mais dinheiro para ficar mais tempo com nossos pequenos, mas isso a gente sabe que é mentira, porque quando arrumamos dinheiro não temos tempo de gastá-lo. Compramos, viajamos e publicamos fotos rindo, como se realmente estivéssemos felizes, mas estamos pensando no tempo que estamos perdendo por estarmos ali, porque queríamos estar em outros lugares ao mesmo tempo.
A palavra tempo se multiplicou nesse texto para que você, caro leitor, observe mais o que realmente queremos nessa vida. Nosso tempo está acabando e diferente do futebol, na vida não há um segundo tempo. Nosso tempo é agora e ele ainda está do nosso lado, mas no futuro a palavra tempo não deverá ser mais usada porque isso é uma coisa que não teremos mais, assim como água potável e luz solar. Nossos recursos naturais estão com o tempo contado e a vida na terra também. Muitos morrem de sede, outros morrem nas filas que o tempo vai deixando para trás por não ter tempo de atendê-los. Mas não culpem o tempo, quem determina nosso tempo somos nós mesmos. E o que estamos fazendo com ele¿ Estamos jogando o tempo fora, como se, com o tempo, as coisas fossem melhorar, mas esse tempo já passou. Agora é! E há tempo para se pensar!
Queimamos, matamos, abrimos e questionamos o tempo, mas nunca pensamos que quando formos embora o tempo seguirá firme e forte, mas nós, que nem vimos o tempo passar, sentiremos saudade do tempo que não tínhamos tempo de pensar.
Cesar Figueiredo
“Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo socorrei”
Gilberto Gil
A palavra tempo está na memória coletiva, faz parte das nossas vidas. Mas o que estamos fazendo com ele é um absurdo, sempre buscamos um culpado e a bola da vez é o tempo, que não fez nada, segue o seu curso como os rios, cada vez mais secos, culpa do tempo também...
Mas vamos aos fatos atuais, no tempo das carroças se demorava dois dias para se atravessar uma cidade. Hoje, com carros velozes, conseguimos isso em minutos, mas onde o tempo está nisso? Foi ele quem fez o carro ser mais rápido que a carroça? Acredito que não.
Esperávamos meses para receber notícias de alguém, cartas eram esperadas por comunidades inteiras e ainda tínhamos que ter a sorte de ter alguém que lesse e escrevesse bem. Hoje, com o email eletrônico, o cara escreve e a gente recebe na hora. Até aí tudo bem, estamos evoluindo, ninguém vai reclamar da evolução, mas não é isto que está em jogo e sim, o tempo.
O que mais escutamos é “no tempo disso, no tempo daquilo”. Se sentimos saudade daquele tempo, porque lutamos tanto pra que ele fique lá atrás¿ Tudo é mais rápido hoje, até a tecnologia é mais rápida, tendo em vista que a internet não é mais discada. Chegamos a incrível marca de 100 mega de velocidade. Se tu quer comprar, compra pela internet, para ganhar tempo, se quer vender, vende pela internet, para ganhar tempo.
Os exames de saúde são rápidos. Isso é bom, mas as filas são maiores, todas as filas são maiores, assim como os engarrafamentos. Tudo isso porque deixamos de lado o tempo das coisas e colocamos o nosso tempo em primeiro lugar. Não acredito que realmente sentimos falta do tempo, acredito que sentimos falta do tempo que nós tínhamos tempo de pensar sobre tempo.
Tempo bom vamos para a praia,
Tempo ruim ficamos em casa,
Sem tempo para os filhos,
Nem tempo de passar na casa dos parentes mais velhos,
Afinal de contas, eles são do tempo que se sentava na sacada ou na areia e se tomava um bom chimarrão enquanto se colocava a “prosa” em dia. Hoje usamos as redes de relacionamentos para dizer um “oi”.
Não temos tempo para criar nossos filhos, pois precisamos de tempo para arrumar dinheiro e dar uma boa educação para eles. Dar amor é coisa do tempo que amor não se comprava.
Hoje nos esquecemos de voltar para casa, culpa do tempo que perdemos mentindo para outras pessoas sobre tempo. Deixamos de lado nossas famílias em busca do sonho da riqueza e do poder que antigamente se levava um tempo para conseguir. Hoje isso pode acontecer em questão de segundos e por isso corremos contra o tempo. Temos que pagar o cursinho, creche, terapia, rancho, academia, prestações do carro, da TV de 380 polegadas, do Mac novo, do carro, do seguro de vida, seguro contra incêndio, seguro das mãos, seguro da casa, mais a empregada, a babá, a lavanderia, as contas do cartão de crédito! Meus Deus como temos contas a pagar! Mas já viu que lindo aquele celular que fala com a gente quando estamos sozinhos e cansados no quarto, chorando porque precisamos de tempo para arrumar dinheiro para pagar por ele também¿
Sei que é um absurdo, mas o tempo não tem nada a ver com isso, e sim a maneira que lidamos com ele. Hoje tudo é mais rápido que o tempo, por isso ele nos abandonou. Qualquer coisa é melhor que falar sobre o tempo, nem as previsões do tempo acertam porque quando se percebe, ele já mudou, mas aí tem dedo do homem e não da ação do tempo.
Precisamos de tempo para revermos o nosso tempo. Já que o tempo que temos na terra gastamos procurando dinheiro, perdendo amigos nas estradas pois precisamos de tempo para bebermos mais nas festas. Sem tempo para beijar nossos filhos porque temos uma reunião no outro lado do continente. Sendo egoístas e perdendo segundos maravilhosos observando nossos filhos crescerem. Quem vê isso hoje é a tia da creche, o professor de karatê, a babá, os professores. Mentimos que precisamos de mais dinheiro para ficar mais tempo com nossos pequenos, mas isso a gente sabe que é mentira, porque quando arrumamos dinheiro não temos tempo de gastá-lo. Compramos, viajamos e publicamos fotos rindo, como se realmente estivéssemos felizes, mas estamos pensando no tempo que estamos perdendo por estarmos ali, porque queríamos estar em outros lugares ao mesmo tempo.
A palavra tempo se multiplicou nesse texto para que você, caro leitor, observe mais o que realmente queremos nessa vida. Nosso tempo está acabando e diferente do futebol, na vida não há um segundo tempo. Nosso tempo é agora e ele ainda está do nosso lado, mas no futuro a palavra tempo não deverá ser mais usada porque isso é uma coisa que não teremos mais, assim como água potável e luz solar. Nossos recursos naturais estão com o tempo contado e a vida na terra também. Muitos morrem de sede, outros morrem nas filas que o tempo vai deixando para trás por não ter tempo de atendê-los. Mas não culpem o tempo, quem determina nosso tempo somos nós mesmos. E o que estamos fazendo com ele¿ Estamos jogando o tempo fora, como se, com o tempo, as coisas fossem melhorar, mas esse tempo já passou. Agora é! E há tempo para se pensar!
Queimamos, matamos, abrimos e questionamos o tempo, mas nunca pensamos que quando formos embora o tempo seguirá firme e forte, mas nós, que nem vimos o tempo passar, sentiremos saudade do tempo que não tínhamos tempo de pensar.
Cesar Figueiredo
“Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo socorrei”
Gilberto Gil
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